Quando crianças desejamos um quintal para brincar e cuidar do cachorro; quando adolescentes, um quarto para estudar, receber os amigos e a namorada; quando adultos solteiros, um confortável apartamento com cozinha americana e frigobar no quarto; quando adultos casados, uma sala ampla, dois quartos e uma suíte.
Durante toda a minha infância até a juventude, o cômodo mais frequentado da minha casa era a cozinha. Contrariando o que o leitor pode estar deduzindo, a cozinha era um espaço bem mais para conversar do que para preparar os alimentos da família. Ficávamos eu, meus pais e minhas irmãs horas na cozinha conversando, embora o apartamento tivesse três quartos e uma sala enorme.
Assim que comecei a sair à noite e voltava para casa, tinha sempre alguém conversando, a minha espera. Muitas discussões e soluções saíram daquele democrático espaço. A cozinha era sindicato, palco, igreja, escola, esquina, estádio, etc. Foi lá que meu pai me orientou quando votei pela primeira vez. Como ficava próxima a porta, várias despedidas e encontros aconteceram ali.
Cresci acostumado ao “papo de cozinha”. Era lá que minha mãe cantava enquanto lavava a louça, e eu aproveitava para escrever, em meu caderno, as letras das músicas que gostava. Nas festas, nas casas dos parentes, a cozinha era onde ficavam os homens e o barril de chope. Que saudade da cozinha da minha infância...!
Em tempos atuais, frequento cozinhas, mas não com a finalidade única de reunir com a família. Inesperadamente adquiri um talento até então desconhecido: eu gosto de cozinhar! E, incrivelmente, todos tem aprovado o tempero salalhocebola que uso nas comidas triviais que preparo. E, para aqueles que ainda não experimentaram, aguardem um improvável blog de receitas.
Ricardo Mezavila
pessoas na cozinha (Fernando Kojo)
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