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quarta-feira, 16 de março de 2016

Polarização desnecessária




Das últimas eleições até os dias de hoje, o país se vê dividido entre os que venceram e os que perderam. Há diferenças e subdivisões entre o eleitorado. Quem venceu quer trabalhar para justificar a preferência da maioria, os derrotados fazem de tudo para impedir que o país avance ou, no mínimo, seja governável.

Caminhando ao lado dos derrotados estão poderosas organizações capazes de interferir no judiciário e, principalmente, capazes de controlar corações e mentes. Sobre o judiciário pesa os exageros que vem cometendo, fato já assumido até mesmo por adversários, contra a maior liderança do país. Sobre a opinião pública, incitam o ódio e o massificam diariamente com manchetes panfletárias.

O enredo dessa confusão é a corrupção. Ela está entranhada nas estruturas do país desde o Império, penetrou na República e se fortaleceu. As operações que ocorrem no governo atual estão deixando às claras a escuridão do porão. A sociedade indignada, muitos acordando de sono profundo, pede 'cabeças' pontuais, apontam o dedo para símbolos partidários, traveste-se de super-herói e cria outros.

O perigo dessa polarização é que perdure por muito tempo, deixando feridas difíceis de serem curadas. Os atos nas ruas dizem muito pouco, aliás, o nazismo levou multidão para as ruas, o que não significou que tinham razão em exterminar seis milhões de pessoas. Essa parcela que vai às ruas não representa a maioria da população, se for falar em maturidade e compreensão política então...

Trocar figurinhas de nada adianta, só vai trazer mais turbulência para um cenário já cambaleante. Em economia não se faz milagres, é preciso um projeto e pessoas responsáveis que trabalhem em uma causa única. O que temos hoje é um bando da oposição querendo voltar ao poder e, cada vez mais, se afundam na lama de suas vidas públicas e tentam levar as questões judiciais para dentro do diretório de seu partido.

Pelo o que parece, para o bem da nação, o ex-presidente vai articular de dentro do governo uma solução para amenizar a crise entre os poderes. As investigações continuam, ele pode vir a ser condenado, que seja com provas, mas agora por uma instância digna de quem teve dois mandatos, e não por um grupo medíocre de juízes midiáticos, funcionários e obedientes a grupos econômicos.

Essa poeira está longe de ser dissipada. As ruas que estão recebendo os 'indignados' de plantão, os papagaios do chororô, ainda não receberam a rapaziada 'que segue em frente e segura o rojão', como dizia Gonzaguinha. E vamos à luta!

quinta-feira, 10 de março de 2016

O golpe já foi dado





Apesar de as pessoas lúcidas desse país insistirem em dizer que não vai ter golpe, lamento muito, mas o golpe está em curso, vivo e em estado avançado. O fato de conseguirem atingir o objetivo final, no caso o impeachment, a prisão de Lula e o esfacelamento do PT frente a opinião pública, é somente a apoteose final. O golpe está aí bem claro, nas declarações dos golpistas, diariamente, nos meios de comunicação apoiadores, como sempre, de um estado de exceção.

O golpe mostrou seu rabo no aeroporto de Congonhas com a condução coercitiva e arbitrária do ex-presidente. Havia um avião estrategicamente estacionado na pista para conduzi-lo até a ‘república’ de Curitiba, helicópteros da rede de televisão, financiadora moral do golpe, sobrevoava as redondezas, antes mesmo da PF chegar ao apartamento de São Bernardo do Campo; agitadores, como o deputado Bolsonaro, estavam aguardando a chegada do avião no aeroporto de Curitiba, soltavam fogos de artifícios para recepcionar, com ironia, o ex-presidente Lula. Todos já sabiam que haveria uma mobilização.

As raízes do golpe estão se espalhando por todo o país, o mosquito aedes, ou aéces, está tratando da polinização. Vejo várias sementes já saindo da terra em forma de plantinhas dóceis, mas são carnívoras. Elas têm a capacidade de atrair pequenos animais, no caso, inocentes úteis reprodutores da voz do dono; depois de capturadas, as presas são digeridas e seus nutrientes, o cérebro e as pernas, utilizados para marcharem organizadamente, como ovelhas em um rebanho, cabisbaixas, gritando palavras de ódio, servindo de escudos para seus atos corruptos.

Em 1968, os cantores Dom e Ravel, compuseram e gravaram a música “Eu te amo meu Brasil”, por solicitação da ditadura militar que barbarizava o país. Em 2016, como não poderia deixar de ser, já que tudo está caminhando como dantes, existe o “Passinho do Golpe”, uma coreografia criada para ‘animar’ as manifestações pró-golpe. Com a mesma estratégia, os articuladores estão fazendo do maniqueísmo um instrumento para celebrar no coração ingênuo uma festa ‘anti-sincretista’.

Não custa nada citar o estudante Edson Luís, secundarista, assassinado por policiais militares, durante um confronto no restaurante Calabouço, centro do Rio de Janeiro. Seu assassinato marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar, que endureceu até decretar o AI-5. O golpe já foi acionado, os soldados deixaram a caserna, atiram para todos os lados, nós é que não percebemos isso com a seriedade devida. Resistir é preciso!

Ricardo Mezavila









segunda-feira, 7 de março de 2016

Os dentes da Mona Lisa



Lurian, filha de Lula


Nesse período que antecede um evento negativo e histórico na sociedade, quando alguns articulistas já ensaiam engrossar o coro daqueles que querem a convulsão para gritar por armas e tanques, temos que manter a calma e a lucidez; engolir seco às vezes, porque eles estão esperando por um cadáver para exigir a presença militar nas ruas e, consequentemente, no poder.

Não acredito que isso aconteça, mas acho que em 1964, muita gente pensava igual e acabou acontecendo. Os tempos são outros, apesar da força dos meios de comunicação ainda existir, porém naquele tempo não existia a velocidade da informação e nem os vários canais que podemos acessar para manifestar opiniões contrárias.

Façamos como a Mona Lisa, vamos rir sem mostrar os dentes, que é para não dar muita confiança. De vez em quando é de utilidade imperativa levantar o dedo do meio para a mídia golpista, como fez Lurian, na manifestação contra a Globo, no Jardim Botânico.

Os representantes da direita estão em campanha contra a democracia, fazem discursos demorados nos telejornais, que funcionam como palanque para algumas legendas; fazem apologia ao ódio até dentro da templo mais sagrado da família católica, a Arquidiocese de Aparecida, lugar de fé e de amor ao próximo, mas que o bispo desmoralizou quando pregou que os fiéis deviam pisar na cabeça da “jararaca”, em referência ao termo usado pelo ex-presidente Lula, após ser vítima da arbitrariedade judicial.

A Presidenta Dilma foi feliz quando disse que querem dar impeachment cautelar no ex-presidente. Pode ser, mas acontece que o show midiático não tem mais volta, ou eles derrubam o governo de uma vez com prejuízo para a democracia, ou vão ter que aceitar que o tiro saiu pela culatra, que estimularam uma militância esfumaçada e sem muita vontade e, principalmente, colocaram munição na arma de um líder que já estava praticamente com a faixa pendurada.

Estávamos todos quietinhos. A gente só queria que eles respeitassem o resultado das urnas.



Ricardo Mezavila

‘Esperar não é saber’



Há algumas formas de se registrar um momento para que, no futuro, interessados pesquisem e estudem o que foi a época. A literatura, fotografia, pintura, o filme e a música, além de pertencerem ao tempo de suas criações, também são fontes para que se analise sociologicamente os costumes, a política e a conjuntura de um determinado período da história. Quando o período de interesse não está tão distante, os depoimentos de quem viveu e esteve lá também são úteis para uma exploração mais próxima dos eventos. Apesar da importância desses canais de registros é essencial a busca pelas diferenças, as divergências de opiniões, para que não se construa uma versão única e deformada.

Como estou no front do ‘meu’ tempo, deixo registrada aqui minha indignação cidadã pelo atual momento político. Nunca os poderes foram tão independentes e, por conta disso, tão despreparados para agirem de forma autônoma. Historicamente, os presidentes sempre tiveram os outros poderes de baixo de seus sapatos, amordaçados. A Procuradoria Geral da União sempre foi presidida, não por um Procurador, mas por um ‘Engavetador’, que perdia dentro da gaveta, todos os processos contra os interesses dos governos.

A direção da Polícia Federal e suas superintendências são atreladas ao Ministério da Justiça, cujo cargo é ocupado por uma indicação política. Constitucionalmente o Ministério Público tem assegurada autonomia funcional e administrativa, seus integrantes elaboram uma lista tríplice com indicações para o governo escolher quem o chefiará. Resumindo, no presidencialismo, a autoridade máxima eleita pela maioria dos votos do povo, tem poderes suficientes para evitar que os órgãos de justiça investiguem e funcionem normalmente dentro de suas atribuições.

Como tenho compromisso com o ‘meu’ tempo, não posso deixar de registrar que nunca um representante máximo, no caso uma representante, permitiu que os órgãos de justiça agissem permanentemente contra a corrupção que carcomeu o país durante os cento e vinte e sete anos da República, inclusive cortando na carne. A atual Presidenta tem como opositores aqueles que estão com medo que as investigações cheguem até seus maus feitos. São esses que querem seu impedimento, que têm o apoio dos ‘coxinhas’ (classe média, ou mídia, que nunca se interessou por política, que assiste os jornais da TV Globo, lê a Folha de S.Paulo e O Globo e assina as revistas Época, Veja e IstoÉ e, principalmente, reproduz ‘memes’ e mensagens apócrifas nas redes sociais contra o Lula e o PT).

O que está errado? Bem, existe um quarto poder que sonega impostos, empobrece a cultura, dita regras e costumes, estraçalha a informação, degrada o meio ambiente, ignora as diferenças regionais, desrespeita a linguística, o comportamento e a tradição, alimenta o ódio de classe, tempera a opinião pública com mentiras e ilações precipitadas, arma circos espetaculosos para julgar e condenar sem provas. Esse poder paralelo, que se faz de anjo, serve a um senhor que possui um ‘rabo’ e dois ‘chifres’, que detém o poder do capital e da consciência coletiva, que criou um cartel com os políticos, com o pessoal da toga e da farda.

A histeria anti-petista, nada mais é do que a tentativa de exterminar da vida pública o maior partido de esquerda das Américas, que cometeu erros, surfou nas águas que seus antecessores sujaram, mas que acertou também. Seus programas sociais possibilitaram que milhões de pessoas saíssem da linha da pobreza; que jovens e adultos tivessem acesso às Universidades; que tornou possível ao trabalhador realizar viagens aéreas e a consumir produtos e bens de serviços que eram exclusivos da classe média; financiou a casa própria; assentou famílias em terras para a produção; criou mais escolas técnicas, que permite ao jovem uma profissão, do que todos os outros governos somados.

Esse governo é acusado de ser assistencialista, o que não deixa de ser uma verdade e isso me deixa um pouco frustrado, mas as providencias tinham que ser emergenciais, não dava mais para aceitar a imobilidade e o descaso com os brasileiros das regiões mais afastadas dos centros industriais. O Partido dos Trabalhadores decepcionou muita gente, com isso perdeu eleitores e simpatizantes, sua conduta no trato da coisa pública pouco difere da dos outros, mas ainda é o melhor partido e o único capaz de levantar do chão as bandeiras por qual tanto lutamos.

Estamos em 2016, mas os derrotados de 2014 ainda não se conformaram com o resultado das urnas, então fica difícil governar quando se tem um Congresso manobrando para que nenhum projeto seja votado. As ruas estão ‘fervendo’, as discussões estão acirradas, o mercado financeiro especula nas marolas das ações na Bolsa, dão sinais que querem mudança nas regras e nos rumos da economia.

O espetáculo está montado, os atores cumprem seus papéis, os canastrões roubam algumas cenas e gozam de prestígio instantâneo e fulgaz. As cenas dos próximos capítulos estão sendo escritas por linhas tortas, mas como diz o ditado: ‘Deus escreve certo....’

Ricardo Mezavila


quarta-feira, 2 de março de 2016

Operação Lava-Lula



No desespero em que se transformou a inevitável candidatura do ex-presidente Lula ao Planalto em 2018, a oposição, com apoio das grandes corporações da imprensa, intensificam a perseguição ao provável candidato. A incansável campanha difamatória mobiliza setores da polícia federal e do ministério público, que aproveitam a autonomia dada pelo governo, para trabalhar como agentes investigatórios de operações seletivas.

A operação lava-jato abandonou as origens para focar exclusivamente na difamação do Partido dos Trabalhadores e de seu representante máximo. Todo o circo no começo com as delações e as prisões, foi montado para atingir o alvo principal, a real ameaça que pode impedir que a matilha volte a rondar o rebanho.

Atores desse espetáculo bufo, como o senador Aécio Neves, o juiz Sérgio Moro, o presidente da câmara Eduardo Cunha, o vice-presidente Michel Temer, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro do STF Gilmar Mendes, ensaiam para uma plateia de papagaios paneleiros.

As delações contra os membros da oposição caem no vazio, não repercutem nos telejornais, blogs e manchetes e, consequentemente, não alcançam os ouvidos da população apascentada que mastiga o ódio com o dente da galinha. 

Com a mudança do ministro da justiça, os articulistas e comentaristas que servem ao golpe, disponibilizam seus textos como plataforma para os golpistas conspirarem. Se eles são contra a dança das cadeiras é porque a música favorecia a trama e seus planejadores.

Nos governos anteriores a PF não tinha autonomia, a PGR era ocupada por um engavetador e nós, os verdadeiros donos da história, não sabíamos o que acontecia dentro da nossa casa. A mudança no ministério não vai servir de manobra para que não se investigue Lula, mas vai caminhar para investigações pendentes, delações adormecidas e estrategicamente escondidas pelas instituições.



Ricardo Mezavila.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

'Arco-íris, anjo rebelde'



Apesar de muitos concordarem que o ano começa quando termina o carnaval, esse ano está sendo diferente porque, mesmo estando em 2016, ainda estamos em outubro de 2014. Só para efeito explicativo, 2015 só existiu no calendário, ainda não conseguimos festejar o reveillon. Tem gente apressadinha pensando que 2016 começou quando momo pendurou a roupa, na semana passada.

Os derrotados das últimas eleições ainda não se conformaram, perderam o senso patriótico que deve estar acima dos resultados. O país tem o pior e mais nefasto Congresso desde o início da República. Caminhamos passos largos para uma recessão fabricada, uma crise partidária criada para dar fuga aos bandidos centenários que vivem na escuridão do brilho sujo de suas fortunas.

Não se iluda, não vire ‘midiota’ e ‘midimbecil’ de um grupo oculto e encapuzado que dança com o diabo, que está instalado na administração pública em todos os níveis trocando favores, beneficiando-se. Fique de olhos e ouvidos alertas, atentos para não cair no caldeirão do bruxo e virar miúdo e tempero de sopa.

Por mais que eu acredite em Deus, não acredito em ninguém que se manifeste em seu nome. Deus se manifesta unicamente no homem, na natureza, e em todos os mistérios neles envolvidos. Fora isso, o resto é especulação, acúmulo de bens e golpe.

Por mais que nos tenham negado um ano inteiro, provavelmente acontecerá o mesmo esse ano, não podemos deixar que a tristeza e o pessimismo se instalem em nossos dias. O clima deve ficar leve para que as coisas possam fluir bem e transparente. A luta é um trunfo que temos e que não tem preço, não podemos vendê-la ou trocá-la por panelaços de ódio, selfies em passeatas e discursos sem conteúdo.


Ricardo Mezavila

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Com ou sem vocês

Guimarães Rosa




Muitas pessoas acreditam que não são realizadas porque não conseguiram ainda um diploma universitário, um emprego estável, um casamento e uma maternidade. Isso tudo completo é tudo que alguém pode esperar para ser feliz, se sentir realizado, ser visto como alguém que “deu certo”.

Quando a gente, quer dizer, pessoas como Machado de Assis, Brecht, Shakespeare, Guimarães e eu, falamos de literatura, sempre temos o compromisso de um texto bem escrito, tanto gramaticalmente, quanto claro para quem lê. Nunca escrevemos para ficarmos esquecidos no fundo da livraria ou para sermos úteis como um calço para geladeira.

Um texto é feito de ideias, de palavras e de pontuações. O parágrafo sempre termina com um ponto. Alguns parágrafos são curtos, apenas duas linhas; outros são médios e alguns longos. Muitas pessoas são como parágrafos curtos. Sabem o que querem desde o início e conseguem atingir o objetivo rapidamente sem mesmo utilizar uma vírgula. São objetivas, mas desbotam com o tempo, como a tinta da pena que utilizaram.

Não se consegue escrever um texto rico em ideias e farto em especulações, sem inserir aspas, interrogações, dois pontos, vírgulas, pontos e vírgulas, exclamações, chaves e travessões. Viver com intensidade não é parecido com uma trova, embora a gente tenha a liberdade de transformar um relâmpago simples em uma trovoada de hidrogênio.

Não, nós não escrevemos porque temos curso superior, um cargo importante, ou porque temos um pouco de carisma. Escrevemos porque saímos da estrada, encontramos um atalho de via dupla entre nós e vocês. Deslizamos em trilhos de pele e fizemos de cada tecido um desvio, uma história, uma nova possibilidade.

Finalizando, sejamos um texto repleto de vírgulas, de parágrafos e de capítulos. Temos que priorizar o enredo e não o título; o índice e nunca o epílogo e, claro, nosso texto não pode ter a clareza de um poema rimado e óbvio e, muito menos, trazer algum tipo de mensagem ou moral da história.

Somo imorais com as palavras, carrascos da sintaxe excessiva e exigente, somos a escória dos clássicos, mas igualmente amamos o verbo e o tempo; amamos Gorki, Gil Vicente e todos os poetas medievais. Somos tudo, com ou sem vocês.


Ricardo Mezavila

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dois corações e um coturno

hitler e eva braun




Na Alemanha de 1923, com o fracasso do golpe de Estado, no episódio que ficou conhecido como o “Putsch da Cervejaria”, o então obscuro militante Adolf Hitler, um dos idealizadores do golpe e membro do NAZI - partido político alemão - cumpriu alguns meses de prisão no cárcere de Landsberg, no Estado da Baviera. Após o período de reclusão e tendo sido proibido de discursar em público, refugiou-se em uma casa na montanha, no sul da Alemanha, dedicando-se exclusivamente a escrever.

Nessa época convidou sua meia irmã, que havia ficado viúva, para administrar sua casa. Ângela, que vivia na Áustria, atendeu a solicitação e viajou com suas três filhas, entre elas uma bela adolescente de dezessete anos, Geli Raubaul. Logo que conheceu seu tio, que já era um político famoso, passou a respeitá-lo, enquanto o futuro ditador e chanceler sentiu por Geli um amor obsessivo e mórbido. Aproveitando-se da ascensão sobre a jovem, passou a controlá-la, era visto constantemente em sua companhia, tendo motivado rumores de um possível romance, comentários que o irritavam profundamente.

Segundo Otto Strasser, membro do NAZI, que possuía orientação contrária à de Hitler dentro do partido, Geli participava de sessões sadomasoquistas com o tio, que alimentava uma paixão doentia pela sobrinha. Ela teria revelado a Otto as humilhações a qual era submetida. Em 1931, a jovem teria sido levada ao suicídio depois de frustradas tentativas de fuga da Alemanha. Algumas fontes contam que após a misteriosa morte de Geli, Adolf pensou em tirar a própria vida e, estranhamente, acabou por descobrir que não podia mais comer carne: “É como comer um cadáver” – dizia - tendo se tornado vegetariano após esse fato.

Na data de aniversário da morte de Geli, o líder nazista que mandara fazer um busto em sua homenagem, ficava horas trancado no quarto da amada olhando suas roupas e fotografias. Nos anos que antecederam a guerra, passou as vésperas de natal sozinho no quarto. Hitler manteve retratos de Geli na Berghof – nome da antiga casa que fizera de refúgio – e nas paredes e mobílias da Chancelaria do Reich.

Durante a relação com Geli, apesar de toda a intensidade, o autor de Mein Kampf, também mantinha um romance com Eva Braun, assistente de Heinrich Hoffmann, seu fotógrafo pessoal.  Após a morte da sobrinha, Eva foi morar na casa da montanha, porém poucas vezes tinha contato com o Fuhrer, que dizia em público: “Um homem extraordinariamente inteligente tem que ter uma mulher burra e primitiva”. Era notório seu desprezo pelo interesse político das mulheres. A relação entre os dois era mantida em segredo, sua existência era ignorada até por partidários próximos. Eva era culta e apaixonada por fotografia, muitas fotos e filmes do ditador são atribuídos a ela.

Eva Braun e Adolf Hitler viveram quatorze anos juntos, mas permaneceram oficialmente casados apenas por quarenta horas. No dia seguinte ao casamento, em 1945, ele se suicidou com um tiro na têmpora e ela o seguiu ingerindo uma cápsula de cianureto. Há outras versões sobre o fim do ditador, inclusive uma possível fuga em um submarino para Bariloche. Contudo, sua vida amorosa e amplamente divulgada, teve várias amantes protagonistas, mas nenhuma com a estatura e significância de Geli Raubaul e Eva Braun.


Ricardo Mezavila

As bolhas nos dedos de Ringo





Quando Ringo Starr gritou: “I've got blisters on my fingers!”, no final do 18º take de Helter Skelter no estúdio, não imaginava que aquele som criado para ser sujo, confuso e barulhento, que é considerada por muitos como a primeira música hard rock da história, serviria de inspiração para Charles Manson, líder psicopata responsável por vários assassinatos nos Estados Unidos, no final dos anos 1960.

Manson era mentor intelectual de um grupo que acreditava que uma guerra racial era iminente e que os brancos seriam exterminados pelos negros. Teorizava que, quando os artistas de Hollywood começassem a morrer, algum negro seria acusado e uma convulsão social seria inevitável. Ele e sua “família” - todos brancos -, que se julgavam rejeitados pela sociedade, planejavam esconder-se em um poço, denominado de “poço sem fundo”, que existia em algum lugar no deserto californiano. Quando a “guerra” terminasse, eles sairiam do poço e Manson governaria o mundo.

Em suas viagens abastecidas pelo ópio, Manson interpretava que na letra de Helter Skelter havia mensagens subliminares do apocalipse e que existia uma data para que tudo começasse, mas como passou o prazo e os negros não iniciaram a “guerra” racial, seu grupo - Manson nunca participou diretamente -, passou a assassinar pessoas brancas para que algum negro fosse acusado e, por fim, a profecia acontecesse.

Charles Manson tinha o hábito carinhoso de batizar suas seguidoras. Susan Atkins era chamada por ele de Sexy Sadie, outra canção dos Beatles, que tem origem na Índia quando os músicos foram visitar o guru Maharishi, por insistência de George Harrison. Junto ao grupo estava a atriz norte-americana Mia Farrow. John Lennon ouviu que o guru havia dado uma cantada em Farrow e que praticava sexo com suas discípulas. Indignado, Lennon voltou para Londres e fez uma canção que dizia: Maharishi, o que foi que você fez? George Harrison o aconselhou que trocasse Maharishi por Sexy Sadie, John acatou.

Robert Shumann disse: “A música é a linguagem que me permite comunicar com o além”. A música é o bálsamo onde podemos encontrar o conforto de uma melodia suave que alivia o peso de um dia cansado, mas também pode ser o transporte para o inferno, principalmente se os acordes tradicionais forem tocados em power chord.

O rock, de uma forma ou de outra, sempre esteve ligado ao ocultismo, ao incentivo à rebeldia e ao vandalismo de jovens violentos. No caso de Helter Skelter, Manson especulou que ela continha mensagens da apocalíptica guerra racial, que os Beatles eram os “quatro cavaleiros do apocalipse” – ele se julgava o quinto -, e que fizeram essa revelação. Charles está com oitenta anos e cumpre prisão perpétua.


Ricardo Mezavila - escritor

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Enquanto você escolhe a fantasia...





O vírus zika explode de forma significativa e vai penetrando em outros territórios além do nosso, segundo a OMS. No Brasil a organização estima que 1,5 milhão de casos da doença foram detectados. Outros vinte e três países registraram a presença do vírus. Um caso da doença nos EUA ocorreu em um homem que tinha visitado o Brasil. Especula-se aqui que o vírus entrou no país durante a copa do mundo.

Com o advento das Olimpíadas e Paralimpíadas em agosto, no Rio, governos do mundo todo alertam para que mulheres grávidas não viagem para cá. A ocorrência de microcefalia em bebês passou de 147 casos em 2014 para 4 mil em 2015. Reportagem publicada no NY Times ressalta que o Brasil teria aconselhado as mulheres para não engravidarem até que o surto passe. O Ministério da Saúde nega o conteúdo da reportagem.

A crise financeira do governo do Rio de Janeiro se instalou definitivamente nos hospitais. O Hospital Universitário Pedro Ernesto, um dos mais atingidos, está antecipando a alta de pacientes e suspendendo cirurgias eletivas, somente 30% dos leitos estão ocupados. A Faculdade de Ciências Médicas da Instituição é considerada uma das melhores unidades formadoras do país.

Pelos corredores do hospital quase não se vê médicos e pacientes, mas sacos de lixo amontoados a espera de recolhimento. No centro cirúrgico, com capacidade para mais de uma dezena de procedimentos ao mesmo tempo, apenas uma cirurgia complexa é realizada por dia, além de uma e outra com maior urgência.

O governador Pezão parece perdido no caos, lembra um cego em meio ao tiroteio. E não pode dizer que pegou o estado às escuras, porque seu antecessor e mentor, Sergio Cabral, teve dois mandatos a frente do estado. Enquanto isso, o prefeito Eduardo Paes, festeja suas obras, empresta dinheiro para o estado, parece que vive uma no mundo de “Bob”, em uma realidade distinta. É claro que a crise mundial, a baixa no preço do barril de petróleo e a crise política, são eventos importantes nesse momento “destrambelhado” do nosso amado Rio de Janeiro.

...e o Eduardo Cunha, hein?!


Ricardo Mezavila