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sábado, 9 de agosto de 2014

A filha de Maiakovski


Yelena
O poeta russo Vladimir Maiakovski tem uma filha, Patrícia Thompson, nascida de um relacionamento relâmpago entre ele e sua mãe, Ellie Jones, emigrada russa que vivia nos Estados Unidos, eles se conheceram quando o poeta foi palestrar em Nova York, em 1925. Patrícia nasceu no ano seguinte, Ellie se casou e a menina foi criada pelo padrasto, mas sempre soube quem era seu pai biológico. Só as pessoas íntimas do poeta sabiam da existência desta filha.

Durante sessenta e cinco anos, Patrícia conviveu com esse segredo e só o revelou quando seus pais morreram, indo até à Rússia revelar sua identidade. Hoje Patrícia também se chama Yelena Vladimirovna Maiakovskaia, é professora de filosofia em uma universidade em Nova York, tendo escrito alguns livros. Ela não reivindicou nada sobre o trabalho deixado por seu pai.

Essa história ficaria linda se fosse contada na linguagem do cinema. A mulher que, sabendo que era filha de um dos maiores poetas da Rússia, mantinha esse segredo que, certamente não foi uma escolha sua. Fiquei curioso em ler seus livros, talvez sejam sobre filosofia e nem faça referencia sobre seu pai, mas seria interessante ter um livro traduzido para o português da filha de Maiakovski.

A revelação foi feita há vinte e um anos atrás e eu só fiquei sabendo disso hoje, véspera da data em que se comemora o dia dos pais, portanto poeta, a quem tanto admiro e que sempre foi referencia política e revolucionária; que apresentava seu passaporte vermelho com orgulho nos aeroportos dos países para onde viajou; que surgiu para mim de dentro de um livro sem capa, encontrado no sótão de uma antiga gráfica; que chegou até os dias atuais como se estivesse metido em um terno cinza e participando de saraus poéticos; fica assim poeta: o barco quebrado pelo cotidiano está refeito, e nele navego nas águas futuristas, com uma quota de tristeza parecida com a sua, e com uma saudade paterna que sei que agora você me entende, para lhe desejar um feliz dia dos pais.

Ricardo Mezavila.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

De Odorico à Chicó



O narcotraficante Pablo Escobar, por mais estranho que isso possa parecer, é mais respeitado na Colômbia do que o Pelé, o maior jogador de futebol e atleta do século, é no Brasil. Infelizmente o chiqueiro é para todos e as pérolas ficam escondidas na lama. De clichê em clichê a manada vai andando e de seus dejetos nascem cogumelos alucinógenos que divergem e convergem para o mesmo sentido, ou seja, transitam em confusão para lugar nenhum com a sabedoria de Chicó: “não sei, só sei que foi assim”.

Quando nada faz muito sentido é porque estamos vivendo com mais respostas do que perguntas. Odorico, o prefeito de Sucupira, tinha um bordão que exemplifica a geléia em que nos metemos, ele dizia isso em meio a um discurso: “Como dizia Benjamin Franklin...”, e dizia uma frase de efeito, um assessor perguntava: “mas prefeito ele disse isso?” Odorico respondia: “se não disse devia ter dito”.

Personagens da ficção são como conhecidos, sempre vamos encontrar alguém repetindo as mesmas coisas. Os poetas da música, viva os poetas, sabem dimensionar o tamanho da nossa necessidade de conviver com o antagônico. Renato Russo escreveu que: “pra sempre, sempre acaba”, e Cazuza ensinou: “nunca diga nunca”. Não consigo fazer um paralelo entre as duas frases, continuo sem saber se possuem o mesmo sentido, ou são totalmente avessas e contraditórias.

Os filósofos gregos, apesar de parecerem complicados, são compreensíveis. Sócrates foi muito feliz quando disse: “Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”. O filósofo francês René Descartes, autor da frase célebre “Penso, logo existo”, mandou bem quando escreveu que: “A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados”. Eu deveria ter sugerido que esta frase estivesse na contracapa do meu livro “As conversas que tivemos ontem”.

A respeito de tudo isso fica a minha indignação com a falta de criatividade que minha geração tem vivido. Estamos parados no tempo, no máximo acompanhando a geração mais nova se perder na imensa lixeira que se tornou a cultura. Claro que nossos antepassados pregavam a mesma coisa, mas como dizia Benjamin Franklin: “não sei, só sei que foi assim”. Ele disso isso Odorico? Se não disse devia ter dito, Chicó!


Ricardo Mezavila

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Na cavidade da unha (à José Louzeiro)





Sinceramente, algumas pessoas que ocupam cargos públicos já estão para lá de cansativas. O desembargador Siro Darlan, por exemplo, não tem mais o que fazer, e nem competência para julgar. Chega uma hora em que as coisas precisam andar para frente e desemperrar as oligarquias enferrujadas. O judiciário brasileiro é arcaico e moroso, parece um ancião de sandálias, no banheiro, procurando mijar dentro do vaso. Tudo bem, no passado o vaso era maior e as necessidades menores, mas hoje a incontinência sobrevive na senilidade judicial, na deterioração da capacidade de observar o óbvio.


Se mudarmos o foco para o sistema penitenciário, vamos enxergar uma sucessão de equívocos. Não há como recuperar uma alma sequer com as ferramentas que a justiça utiliza. Se existe o erro que ele seja punido, mas que se tente ressocializar o errado. O sistema brasileiro prende, pune, mas não reeduca. O criminoso sai da prisão cumprindo algumas frações da pena e retorna para a sociedade para praticar o mesmo delito, quer dizer, o mesmo e outros que aprendeu na escola do crime durante o período em que esteve detido.


Se tem uma arma que temos que aprender a usar, já que estamos no limite de nossas paciências, essa arma é a unha. Assim como aquele tigre enjaulado que o menino perturbou, temos que usar nossas armas, nossos dentes para morder as cordas que nos prendem e nossas unhas para ferir de morte aqueles que nos mantém nas mordaças.


Chega de pseudos subprodutos de ativistas midiáticos, de alcunhas laçadas nos repertórios ricos de nossos autores literários; precisamos de tocar a pele do vizinho, de sentar na mesa do colega que trabalha do nosso lado, do passageiro que aguarda o atraso da condução na madrugada. A hora de tomar as rédeas é agora, no máximo depois da última curva, porque na reta ninguém, por mais esperto e rápido que seja, pode nos alcançar.


Ricardo Mezavila.

Carta aberta ao Presidente do Botafogo, Mauricio Assunção.



Senhor Maurício Assunção, não sou economista, apenas um torcedor, mas estou muito preocupado com a situação financeira que se encontra o Glorioso Botafogo Futebol e Regatas. Tornou-se notória a dificuldade que o clube atravessa, meus amigos alvinegros andam cabisbaixos, os amigos torcedores de outros clubes ainda estão gozando, pensam que estamos com um resfriado comum, ainda não entenderam que a doença é outra e pode levar o doente á óbito. Quando tiverem a verdadeira noção da realidade, acredito que serão solidários e deixarão as piadas de lado. Mas presidente essa carta é dirigida ao senhor que está no comando há dois mandatos e que precisa tomar uma providência de emergência. Se não sou economista tampouco sou assessor para assuntos políticos e administrativos, mas acredito que sua renúncia seria a melhor saída para que nós, botafoguenses, apoiássemos um levante coletivo pra salvar o Botafogo. Imagino que com sua saída o ambiente teria mais transparência, alguém de dentro do clube poderia assumir uma campanha pública de adesão dos torcedores. Ainda tenho minhas esperanças polidas por uma caneta abençoada do congresso, que dê uma última chance para que as dívidas com o estado sejam parceladas. O nosso ídolo Heleno de Freitas disse que o “Botafogo não é lugar de covardes”, então seja homem e renuncie ao seu cargo, não espere que alguns mais exaltados adentrem a histórica sede de General Severiano e tirem “simbolicamente” o senhor de sua cadeira. Tenha a grandeza de reconhecer que errou nas avaliações, nem vou comentar sobre corrupção porque não tenho provas apesar de tossir com tanta fumaça. Presidente, não podemos chorar pelo que não tem mais jeito, o ovo não volta mais para a galinha, a hora é de montar um rolo compressor e partir com tudo para cima das conseqüências das más administrações que o clube teve durante tantos anos consecutivos. A chave para ligar o motor que vai fazer girar a máquina compressora não pode estar em suas mãos, fique de fora desse processo porque nós estamos com muita disposição de mudar esse quadro. Como torcedor posso aderir ao sócio torcedor, comprar produtos oficiais do clube e ingressos para os jogos. Até posso vir a colaborar financeiramente em uma eventual campanha, mas isso se a presidência estiver imunizada da sua presença. Já disseram que o futebol é a coisa mais importante entre as coisas sem importância, mas quando um clube centenário que foi base das conquistas da seleção brasileira, que mais cedeu jogadores, que tem dois craques, Nilton Santos e Garrincha no time de todos os tempos da FIFA, passa por uma situação de falência quase irreversível, isso passa a ter uma dimensão imensa. O Botafogo está em nossas vidas desde sempre, não dá para imaginar o futebol sem a estrela solitária, não podemos virar museu. Senhor presidente, não sou economista, mas sou um torcedor apaixonado pelo meu clube, participei da coletânea de um livro oficial do Botafogo, A Magia do 7, com uma crônica em homenagem ao anjo de pernas tortas. O lançamento foi na sede, no Espaço Glorioso e foi um dos dias mais felizes da minha vida poder estar participando de alguma forma da vida do Botafogo de Futebol e Regatas. Senhor Maurício Assunção se tiver acesso a esta carta, peço que pense com carinho no que sugeri. Separe seus objetivos pessoais do Botafogo, não é crime atuar na política, mas reflita que milhões de homens, mulheres e crianças precisam da alegria e da saúde do Glorioso em campo.

Saudações Alvinegras

Ricardo Mezavila.

Torcedor (RJ)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Gigante embriagado ou cara de mamão



pobreza brasileira

Não bastassem os recentes vexames dentro de campo em BH e BSB, a saga do gigante continua, desconfio que esteja embriagado por isso vive deitado, não há quem fique por tanto tempo dormindo em sono eterno e com tanta gente falando. Está na hora de acordar, vagabundo, levanta e arruma um emprego que a vizinhança já está falando mal e os teus filhos andando de cabeça baixa de tanta vergonha.

Até na diplomacia, onde historicamente somos as “vaquinhas de presépio”, estamos sofrendo bullying. Bastou o embaixador brasileiro fazer um comentário sobre os ataques de Israel na faixa de Gaza, chamando a ação de desproporcional para a resposta vir “na lata”: “desproporcional é perder de 7 a 1”. Sério?  É isso mesmo? Nosso território continental, nossa sexta economia são menos importantes do que uma partida de futebol? O mundo não nos respeita e o embaixador israelense nos definiu como: ”anões diplomáticos e parceiros irrelevantes”.  Eu sabia que chamar o Dunga ia dar nisso!

O Brasil é como aquele menino, que todos nós já sentamos ao lado na sala de aula: grande, gordinho e bobo. Enquanto os outros brincam no recreio, ele fica sentado sozinho mastigando pão com manteiga e depois desenrola uma maçã de um guardanapo de pano xadrez. Os meninos franzinos “mangam” à distância porque se ele se irritar e surtar não vai sobrar esqueleto para contar a história. A diferença para o Brasil, é que esse menino é aplicado e tira boas notas. Aliás, até os nossos “terroristas” são de quinta.

Um país rico como o nosso que está na 79ª posição entre 187 países em Índice de Desenvolvimento Humano, abaixo da média latino-americana, não é respeitado porque não se dá o respeito. O mundo sabe que ele maltrata sua família não lhe proporcionando saúde e educação; egoísta, não divide o que tem com justiça. Enquanto jogamos pedras no telhado alheio e criticamos os bombardeios na Palestina, o índice que mais cresce por aqui é o da violência, não motivada por uma guerra histórica, mas por uma inescrupulosa banalidade da vida. Aqui se mata por nada, porque se vive por nada também.




Ricardo Mezavila.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Império bizarro

internet


Fazendo uma comparação sem compromisso entre a ficção das telenovelas e a realidade, utilizando a lógica da família e dos bons costumes, sem ser piegas e careta, chega-se a conclusão que a arte paga o crime, a imoralidade e a corrupção com a ausência do amor, do respeito e da honestidade. Sendo mais específico, sobre o primeiro capítulo de “Império” que assisti ontem para ter base para criticar. 

As cenas se passam entre quatro personagens, um operário mora com a esposa e a cunhada. Seu irmão, não se viam há tempos, chega e pede abrigo. Duas semanas se passam e a esposa trai o marido com o irmão e planeja fugir com ele. Sua irmã, percebendo tudo, resolve intervir para que não haja uma desgraça e consegue, através de uma trama, que o ingrato vá embora sozinho, evitando coisa pior para sua irmã que está grávida.

No folhetim a esposa não ama o marido, mas vive com ele por acomodação e necessidade. É uma mulher covarde, sem disposição para ir à luta, largar o casamento e viver   dignamente para conquistar seus objetivos. Quando se vê diante de um outro homem, o seu cunhado, que se mostrou sem caráter, de personalidade duvidosa e de ambição desmedida, acredita que ali está a chave para a sua liberdade e decide viver uma aventura irresponsável ao seu lado. Eles são os mocinhos e a irmã é a vilã (?).

Não é de hoje que temas polêmicos vêm sendo expostos pelos autores de telenovelas, principalmente na caricata relação entre homossexuais, é muita bizarrice para uma classe com nomes consagrados como Dias Gomes, Benedito Ruy Barbosa, Janete Clair e Cassiano Gabus Mendes. A renovação fica impossível porque quanto mais lixo melhor para a audiência, pelo menos é o que mostram os indicadores comerciais. A relação entre a arte e o artista, em se tratando de telenovela, se resume ao subproduto e a beleza estética.

Não é um discurso moral e vago em defesa da família, FORA O CONSERVADORISMO, mas é uma constatação crítica de que em tempos de muita violência, analfabetismo e desrespeito, existe um veículo que incita, divulga e estimula o oportunismo casual, a posse pela inconseqüência, o êxito pela trama, o sexo pelo dinheiro e muito mais do que isso ao quadrado.


Ricardo Mezavila. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

No rosto de Brigitte


brigitte bardot


O tempo definido em sua forma mais crua e “in natura”, é como o rosto de Brigitte Bardot aos vinte e aos setenta e cinco. Esse é o tempo da física e da materialidade das horas, do pulo sobre lombadas nas estradas de alta velocidade quando perder a direção é quase um efeito obrigatório. Mas ainda tem o tempo da imaterialidade pragmática que acontece quando um tigre persegue uma gazela. É a hora do foco e do espaço, o tempo coadjuva e assiste ao salto que vai garantir o alimento da espécie.

Reiteradas vezes o precipício surge como a única ponte capaz de fazer a travessia entre o sonho e a ação, o delírio e o contexto, a farsa e a transparência. Saber conduzir a queda é ressurgir sobre as pedras e continuar no caminho como se fosse natural cair em pé de uma altura considerável, se machucando, mas seguindo.

Depois é só avaliar o rumo e seguir a pauta, escrever-rasgar-escrever quantas vezes forem preciso sem limite e sem horizonte, entortando esquinas e quebrando ruas, desistindo e retomando sempre fora da lógica conservada em barris de autoridade e obediência. Transgredir é preciso para que a disciplina seja imutada e desobedeça às regras, deslize na anarquia e caia dentro do caldeirão insubordinado, que seja o ingrediente agridoce da revolução que começamos e terminamos todos os dias.

As marcas no rosto de Brigitte estão dizendo que a velhice é factual, obedece aos desígnios do calendário, enruga o cenário liso que não conseguimos segurar por todo o tempo. Mas também são mapas, com rotas ainda a serem exploradas por quem ainda possui forças e vontade suficientes para sair da inércia e conquistar, passo a passo, todos os mistérios que ainda dormem observados pelos olhos da aventura.

No rosto de Brigitte estão as linhas de uma costura indelével, que não pode ser apagada. Indiferente aos retalhos, a pele não é destruída porque possui o reforço das recordações e os cuidados que só as costureiras sábias têm. O tempo é vírus e vacina, morde e assopra, derruba e edifica, é o menino de todos os homens e o príncipe de todos os reis; o escravo de todos os senhores e a energia de todos os deuses.

Ricardo Mezavila.


terça-feira, 15 de julho de 2014

Maiakovski, Lennon, Neruda e Eu


kremilin



Há um clichê que diz que a vida tem de ser vivida dia após dia, meio determinando que o que se vive hoje é o que importa, que ontem passou e o amanhã pode não chegar. Vejo intensidade demais nisso, ao mesmo tempo fica parecendo que há um vazio eterno nunca preenchido, uma falsa demonstração de felicidade e desprendimento. Um despiste no acaso enquanto ele tenta uma forma de participar dos fatos.

Vejo com beleza a história de alguém que conheço, que casou com alguém que conheço e que perdeu esse alguém para a morte, e que hoje está com os olhos tristes perdidos nas cores, nas imagens e nos sons daqueles dias. Olhos tristes não significam tristeza absoluta, pode ser um olhar com saudade do tempo, dos filhos pequenos correndo entre as mesas da lanchonete do shopping, das viagens e das noites quando a chuva convidava para um sono mais cedo.

A gente pode viver uma vida inteira somente por chegar a um lugar diferente, o oriente abastecido de livros ocidentais, o índico de mãos dadas com o pacífico passeando pela geografia, enquanto o atlântico enciumado deita no colo do rio da prata e pede para que este lhe conte uma história, tire sua roupa e durmam abraçados, como estão naquele lugar onde o rio encontra o oceano.

Acho que visitar Moscou é como morrer, não a morte física, mas é como chegar em um lugar desconhecido, nunca para menos, mas sempre com coisas para serem descobertas, palavras para serem destiladas junto com um copo de vodka, a poesia proletária saindo de dentro dos cafés com suas bofetadas sociais, o homem alto de roupa preta e gravata pendurado em um poste na esquina onde os poetas se encontram para um suicídio alternativo.

Eu tenho em mim todos os fusos horários do mundo, todas as fronteiras, posso partir daqui agora e chegar agora mesmo em qualquer parte, sem ao menos perceber que parti, sem vontade de dormir e sem fome. A lua e o sol são somente o branco e o preto, não fazem diferença quando o tempo vai e volta sem sair do lugar. Como o tolo sentado sobre suas pernas no alto da montanha assim observamos tudo acontecer, ora com chuva, ora com sol, ora no seu aniversário, ora no aniversário do outro.

Acontecemos todos os dias e não percebemos que a escassez do corpo se aproxima e limita nossas vértebras, nossos pulmões e nossas pernas. Sabemos que ainda podemos, mas já não encontramos a mesma facilidade de antes, as dificuldades começam a aparecer nos aviso das placas, na respiração pesada, na dor matinal para calçar a sandália.


Ricardo Mezavila.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Decime qué se siente




 No espetacular canteiro de obras em que o país se transformou por conta da realização da copa tudo foi concluído, os estádios, os acessos, as “fan fests”, o intercambio entre os povos, tudo esteve a contento e foi muito bem aproveitado só esqueceram de montar uma seleção a altura do evento. Fizeram a festa, armaram o palco, posicionaram os instrumentos, mas não convidaram os músicos para tocar e o maestro para reger.

Agora que a grama da arena de Manaus já cresceu e logo vai se transformar em pasto, que a arena Pantanal vai servir de cenário para o fantasma da ópera, alguns fatos ficaram para a dispersão no tempo, por exemplo: Será que Diego Costa seria a solução para o ataque da seleção no lugar do Fred, que já foi devolvido à cet-rio?  Quem seria o jogador que Felipão disse arrependido de ter convocado? Se o observador da seleção, o Galo, disse ao técnico como jogava a Alemanha e mesmo assim o Bernard começou jogando, para que serve esse cargo? Por que todo jogador alemão chamado Muller joga com a camisa 13?

O triunfo alemão é inquestionável, já a sua propagada simpatia é duvidosa, mas deixaram um legado para a população de Cabrália e isso foi ponto para eles. A festa estrangeira aqui foi positiva para a nossa imagem no exterior, acho que muita gente ficou impressionada com a liberdade que tiveram em circular em cidades arranhadas internacionalmente por conta da violência. Muitos voltarão e a recepção foi um gás para as Olimpíadas.

A nota negativa ficou com o principal da festa, com a cereja do bolo, o diamante do anel, a seleção brasileira com o seu fiasco expôs como a estrutura do nosso futebol está ultrapassada, assim como a educação e a saúde, finalmente conseguiram arrastar o futebol brasileiro para o terceiro mundo. Fiquei com a sensação de que seria possível formar uma seleção com jogadores que jogam aqui, com um, dois ou três desses que disputaram o mundial e envergonharam a nação.

Os jogadores convocados são formados fora em outros clubes, outra cultura, perdem a identidade com as nossas cores e parecem que não estão nem aí para a derrota, choraram para a galera. Sendo a copa no Brasil os jogadores da seleção foram para o aeroporto após a derrota para a Holanda, era o “Brasil” voltando para casa dentro da própria casa. Os legados estão aí, os argentinos estão na estrada e eu decorei a musiquinha deles para brincar com os amigos no bar e agora essa merda não sai da minha cabeça.


Ricardo Mezavila.

domingo, 13 de julho de 2014

Sem surpresas na caixinha

internet


Uma das máximas do folclore futebolístico, a frase: “futebol é uma caixinha e surpresas”, parece que nesta copa está por ser desmistificada com a justa colocação da seleção brasileira e sucessivas humilhações e, se acontecer, com a seleção alemã levantando a taça no Maracanã. Apesar de ter empatado com Gana e vencido apertado a Argélia, a seleção de Joachim Low exibiu um futebol convincente e digno de campeão.

A Argentina pode surpreender a lógica, mesmo tendo chegado com um futebol menos vistoso e dependente do “Messias”, a celeste e branca tem a seu favor a famosa garra sul americana que nós, apesar da geografia ajudar, não temos, infelizmente. Ficamos no caminho como um cachorro morto, abrimos os cofres para financiar a festa dos vizinhos, derramamos lágrimas por jogadores que nem sangue pareciam ter, confiamos em uma comissão técnica que pode ser tudo, até animadores de torcidas, mas não sabem nada sobre o futebol que se joga atualmente.

Quem olha os jogadores brasileiros os confunde com rappers, usam medalhões, bonés estereotipados que se aproxima mais dos artistas que surgiram das comunidades negras dos Estados Unidos do que de atletas, de onde se espera alto nível profissional correspondente aos astronômicos salários que recebem. Quando a seleção venceu o primeiro jogo, no seguinte vimos jogadores com cabelos descoloridos, penteados exóticos e bigode. Essa foi uma clara demonstração de que estavam ali, não para jogar, mas aparecer. Se ao menos jogassem alguma coisa estariam perdoados.

Hoje é o dia do velho e bom rock’in roll, o dia está lindo, o céu azul e a temperatura agradável, o nosso futebol não estará representado na final, a presidente vai comparecer, se ela pudesse me ouvir eu diria para assistir pela televisão, mas de qualquer forma alguém vai estar sorrindo mais tarde. Os alemães dentro da seriedade pertinente aguardam a hora da partida, parecem caçadores esperando a hora de atirar, enquanto a caça não chega aproveitam para ler Johann Goethe; assim como os argentinos, esses mais parecidos com a gente, cantam músicas ironizando a nossa incapacidade sem vergonha, aguardam a hora da partida sacaneando brasileiro, enquanto não passa ninguém com a “amarelinha”, aproveitam para ler Jorge Luis Borges.

Aproveitando o dia do rock estou ouvindo “Razamanaz” do Nazareth, se os alemães vencerem vou ouvir Kraftwerk, mas se os argentinos vencerem vou fazer uma forcinha e ouvir Fito Paez. Pela música sou Alemanha, mas pelo futebol sou Argentina.

Obs.: Quando eu ia assinar a crônica a Alemanha fez mais um gol no J.Chester.



Ricardo Mezavila.