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segunda-feira, 7 de julho de 2014

O quarto 901 está vago

king size


Hoje os uruguayos foram ao aeroporto receber a seleção derrotada, o presidente Mujica também. Eles perderam a copa, o melhor jogador fez um papelão que para qualquer brasileiro seria imperdoável, ele prejudicou a seleção tem que ser punido como punimos Roberto Carlos, que foi muito menos irresponsável naquele jogo contra a França em que abaixou para consertar o meião e Thierry Henry fez o gol. Ontem no jogo contra a Colômbia Suárez colocou um telão em frente à sua casa e mais de mil torcedores estiveram por lá torcendo e dando uma força para o artilheiro.

Isso dá um nó na consciência, nós não respeitamos quem erra, estamos muito aquém do patriotismo de países latinos americanos, não falo isso porque presenciei e estou aqui, isso é notório, não construímos uma independência com luta e reivindicações, deram um grito à beira de um rio e a história coroou quem já era rei. Foram poucos os que tiveram a coragem de não abrir mão da liberdade, de sair do estado letárgico e morrer pela causa que acreditava e essa minoria não está registrada na história.

Andamos por Montevideo de um lado ao outro, em bairros distantes que não estão nos roteiros que os hotéis oferecem, conhecemos pessoas humildes, mas não vimos ninguém dormindo pelas ruas, estivemos em todos os pontos turísticos e nenhuma criança veio nos pedir esmola, nenhum homem pediu para que pagássemos uma bebida, não vimos nenhuma mulher com um filho no colo sentada na calçada. Mesmo quando fomos ao jogo na praça lotada não vimos nenhum suspeito olhando para nossos pertences.

Nosso país era para ser o melhor se não fosse a bagunça institucional desde o começo. Países pequenos como o Uruguay com recursos parcos se comparados ao nosso, conseguem manter um padrão de educação anos-luz do nosso. A educação das pessoas foi o que mais chamou a nossa atenção, não a educação do “por favor” e “obrigado” que nos ensinam como sendo as mais importantes, quando na verdade só nos submete à subserviência, mas a educação de amar o país, de respeitar a cidadania, de valorizar a história e dividir isso com os filhos.

Amanhã o quarto 901 estará vago para mais um casal desfrutar da cama King Size e de todo o conforto que o lugar proporciona, nossas malas estarão cheias de pequenas lembranças, de doces e suvenir, mas a experiência de ter caminhado por aqui sem medo, com frio, com dinheiro estranho, tendo admirado as crianças que saíam da escola com jaleco branco sujo de terra porque teve uma feira de ciência da escola, isso vai ficar para sempre, assim como o cachorro, não lembro o nome, embalsamado no museu e como o Rio da Prata que tem água salgada e parece um mar.

Vinicius de Moraes morou aqui em Pocitos e escreveu: "Também eu deixava-me estar no terraço de meu apartamento, um dos mais altos de Pocitos:  (...) eu por minha vez, ante a ideia de compartilhar com a bem-amada a visão dos amplos espaços crepusculares do estuário do rio da Prata”.


Ricardo Mezavila.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A esquina da rua sem saída


montevideo


Ninguém pode se considerar perdido em um lugar que não conhece, porque quanto mais se tenta encontrar a direção, mais se descobre lugares escondidos que estão fora dos mapas e das visitas. Ruas sem placas, jardins vazios, escadas curtas, árvores secas, uma velhinha na janela, um carro antigo, um pássaro diferente, a esquina de uma rua sem saída.

O que pensava a senhora quando perguntamos se o museu estava próximo? Podia estar pensando em alguém que está viajando, no Brasil talvez; podia estar preocupada com algum filho, com o que dizer ao marido para por fim ao casamento; podia estar memorizando os produtos que compraria no mercado porque não quis levar a lista e nós a interrompemos e ela saiu dali confusa e talvez tenha voltado para casa para pegar a lista.

O guarda em frente ao Museu, antiga sede do governo,  foi muito solícito, comentamos que seu castelhano era bastante compreensível e ele disse orgulhoso que era da Riviera. Depois voltou para o seu posto “em sentido” e consentiu com a cabeça que subíssemos e aproveitássemos da história que aquele lugar ostenta.

No hall da sede atual do governo tem uma escultura de três homens sentados em volta de uma mesa e uma cadeira vazia, atrás desta cadeira está escrito “PUEDE SENTAR”, nós que estamos acostumados com “não pise’,“não olhe”,”não sente”, tendemos a não acreditar que existe uma permissão por escrito, olhei para fora e um policial nos observava, ele percebeu a nossa dúvida e fez um gesto amistoso com as mãos de que poderíamos sentar.

Nada melhor do que caminhar observando o entorno, descobrindo e comparando realidades distintas, agregando conhecimento e acrescentando conteúdo cultural, sempre com bom humor e um tempo para uma prezepada básica e um carimbo da imigração no passaporte, nem que seja do MERCOSUL.

Ricardo Mezavila.



Sendo gentil na Juan D. Jackson


teatro solis


Indo para o Museu de Arte de Montevideo, acabamos descobrindo Juan Zorilla de San Martin, poeta uruguayo e, agora, também museu. Gostei de uma frase sua: “Velar se debe la vida de tal suerte que viva quede en la muerte”, alguma coisa tipo a vida deve prevalecer sobre a morte. Não fomos ao Museu de Arte, ficou para depois. Depois de dois dias já me sinto parte da atmosfera da cidade. Andamos por várias ruas e conversamos com algumas pessoas, todas muito simpáticas, mas ainda não sabemos quanto tempo leva caminhar quatro quadras. Em um cálculo prático e rasteiro, concordamos que sejam uns dez minutos.

Quando entramos no ônibus 117 com destino a Plaza Independência os bancos estavam vazios, durante o percurso foram entrando muitos passageiros e, como de costume quando estou em transporte público, cedi meu lugar para uma senhora que disse que estava a bajar (descer) do ônibus e agradeceu. Eu estava segurando o meu livro e ela perguntou quem era o autor, meio sem graça disse que eu era o autor, ela fez uma cara de surpresa e fez duas perguntas, uma foi lógica, mas a outra não entendi muito. Primeiro perguntou de onde nós, eu e Sueli, éramos, quando soube perguntou se éramos religiosos, eu respondi que si, nosotros somos religiosos, ela fez um ar de aliviada e disse: “encantada” , e desceu na Calle Juan D. Jackson.

Percorrendo a cidade conhecemos a sede antiga da presidência, um prédio que no governo de Venâncio Flores passou a ser sede do executivo. O prédio histórico hoje é um museu, na mesma linha do palácio do Catete, que guarda mobílias, pertences, fotografias e tudo o que se manteve daquela época, infelizmente não se pode fotografar, mas vale muito a pena conhecer, vimos coisas lindas. Lá está a carruagem, em madeira, que fez a última diligência que levou Maldonado, não sei para onde, mas levou. A enorme diferença desse museu para o Catete, é que a nova sede, que foi construída em 1985, está ao lado da antiga, separadas por duas ruas, aqui o Catete foi para o centro do país para garantir distância do povo.

Também visitamos a sede nova do governo, prédio moderno com esculturas lindas no saguão. É ali que Pepe despacha. Seguindo o roteiro fomos conhecer a igreja da Catedral, tudo muito barroco e indescritível, só vendo. Outra dica é pegar o Bus Tour, ônibus de dois andares, o de cima é aberto, no Mercado Del Puerto, ele passa por vários pontos turísticos, em duas horas e meia e dá para fotografar muito bem, tem que constar no roteiro. Seguindo com as dicas, a pizza no bar “Tranquilo” é boa e a cerveja de um litro, “Patrícia” é boa também, o que me deixou surpreso. Com o frio que faz no inverno, hoje fez oito graus, é melhor beber vinho CUNA da uva TANNAT, só encontramos seco, eu até prefiro, e tem um cheiro de uva super agradável.

Enfim, sou um uruguayo solidário, comprei minha bombilla, mate e cuia. Não queria falar, mas também comprei uma camisa da seleção, a Celeste, e vou para frente da prefeitura  amanhã, estava procurando a 21 do Cavani, mas não tinha do meu tamanho, então tive que levar a 9 do Suárez. Não estranhem se eu voltar mordendo!


Ricardo Mezavila.

O livro que não entreguei e o fantasma que exorcizamos


montevideo


O ônibus 191 não pasou em Ciudad Vieja, ele foi pela Calle Juan Benito Blanco, contornou a Rambla e tomou um rumo que  ignorávamos. Mas o nosso avião não parte hoje e, graças a deus, nem amanhã, por isso não temos pressa. Descemos e pegamos o 121 que vinha logo atrás e, este sim, nos deixou próximo de onde queríamos. Visitamos o Teatro Solis, o mais importante de Montevideo, onde os maiores artistas do mundo se apresentam como os brasileiros Gil, Caetano e Chico, assim falou a nossa guia.

Quando saímos de lá atravessamos a rua, eu queria entregar o meu livro para o presidente, fiz até uma dedicatória latina americana como os pensadores revolucionários. A sede do governo estava cercada, o policial disse para eu voltar em lunes, mas es imposssible porque é o dia do meu retorno, tudo bem, a dedicatória já está assinada vou enviar pelo correio quando chegar em casa.

Fomos convidados a assistir o jogo da seleção em um bar de brasileiros, com comida brasileira e caipirinha, claro que não fomos, queremos coisas diferentes, então fomos para uma adega no Mercado Del Puerto, a EL Peregrino, a casa tem cento e cinqüenta anos toda original, seus antigos donos eram ingleses, de Liverpool, as gerações que sucederam mantiveram a arquitetura e, principalmente, a atmosfera musical do espaço. Toda a decoração é rock’n roll, desde Chuck Berry, passando por Bil Halley, Elvis, Stones, Beatles e Bob Marley.

A recepção que tivemos fez com ficássemos por lá além do previsto, um casal de dançarinos de tango fez uma apresentação para nós, um show. Muita gente diz que não existe cerveja Patrícia com menos de um litro, lá tem de 750 ml.  Eu disse que a cerveza era muita boa e o amigo ao lado disse que era da AMBEV. Pronto, está explicado!

Para quem tem sede de cultura não tem como deixar de realizar a visita guiada pelo Teatro Solis, é uma mistura de visita intercalada com fragmentos teatrais, representado por atores do teatro. Durante a visita vimos várias apresentações, esquetes de grandes espetáculos. Sem falar que o ambiente é luxuoso e provocantemente inspirador. Eu escreveria um clássico só para ser apresentado naquele palco.

Descendo pela Calle Sarandi, tomamos o ônibus 62 para a Plaza Intendência, lá tem um telão onde as pessoas assistem aos jogos da Celeste, o cheiro da praça é “maconha pura”, chega a incomodar um pouco, um rapaz perguntou no horti-fruti se tinha para vender. Uns jovens ao nosso lado tinham a erva na mão enquanto um outro pegava o papel para enrolar o baseado, tudo dentro da lei. Milhares de torcedores não escondiam o nervosismo de um Uruguay sem Suárez. Como o jogo caminhava para um fim trágico, saímos dali e terminamos de assistir no “Tranquilo Bar”, que não estava nem um pouco tranquilo. Assistir a derrota do Uruguay foi decepcionante, mas não dá para deixar de sentir o gostinho, sessenta e quatro anos depois, de ver a Celeste ser eliminada na Maracanã. Somos os Caça-Fantasmas da copa de 1950.


Ricardo Mezavila.

Chivitos em la Punta Carretas



shopping punta carretas

Montevideo é uma cidade aparentemente tranquila e um pouco vazia se comparada com o Rio, por exemplo. Um vento úmido não para de soprar, tive a impressão de que estava chuviscando, mas era a umidade. Quando sobrevoamos Montevideo vimos muitos campos bem cuidados e várias comunidades rurais. A temperatura está doze graus e, por incrível que pareça, quando caminhava pelas ruas, eu estava menos agasalhado do que os uruguayos, parecia que eles eram os turistas e eu estava indo para casa depois de um dia de trabajo.

As lojas estão bastante enfeitadas com bandeiras do país por conta do bom momento na copa, nas janelas também avistamos bandeiras, assim como nos sinais de trânsito. Estão falando muito sobre a mordida de Luizito Suárez por aqui, tratam o assunto como “el caso Suárez”, dizem que o zagueiro da Itália já estava arranhado e que o juiz foi justo em não ter expulsado o atacante, na verdade estão com receio de que o artilheiro seja punido e não enfrente a Colômbia no sábado. Até o presidente Mujica, quando falava sobre educação pública se pronunciou quando foi surpreendido por um repórter que queria saber sua opinião: “No vi ninguna mordida de Suárez”

Quando íamos para o hotel conversamos com o taxista sobre política, turismo, futebol e marijuana. Foi a nossa primeira oportunidade de treinar o “portunhol” e nos saímos muy bien. Ele nos deu algumas dicas interessantes que vamos tentar aplicar. Subimos ao quarto e descemos imediatamente para comer “qualquer coisa” e acabamos indo para o Shopping Punta Carretas, comemos Chivitos, um sanduíche enorme com queijo, presunto, bacon, ovo, batata frita, tomate, alface, cenoura, pepino e pimentão, que é servido no prato. Acho que não vou ter coragem de encarar outro.

O uruguayo de Montevideo tem as características muito semelhantes com nosotros, se não abrirmos a boca passamos por um deles. Na telemundo, canal de televisão, está passando “La Guerrera” , ou seja, Salve Jorge, telenovela brasileira. O taxista disse que a novela Avenida Brasil fez grande sucesso aqui, mas ele não assiste telenovelas porque só ensinam como roubar e matar, foram suas palavras. No mais, achei engraçado algumas lojas vendendo um lençol azul com o número 50, insinuando ser o fantasma do maracanazo e o chopp pilsen é muito ruim.


Ricardo Mezavila.

Ônibus 116 e algumas dicas úteis


Montevideo


Para conhecer qualquer lugar, para mim, é preciso caminhar pelas ruas periféricas, aquelas que ninguém recomenda, e andar de ônibus. Nada como ficar meio que “perdido” até se achar em uma esquina com prédios antigos e teatros com aparência de ruínas, o que deixa a arquitetura ainda mais atraente. Andamos por Montevideo como se fôssemos mochileiros, caminhamos da Rambla de Pocitos até o Mercado Del Puerto, passando pela Ciudad Vieja, algo equivalente a ir a pé do Flamengo à Copacabana.

Quando se vai de um lugar a outro sem a menor idéia de distância, parece que o tempo colabora e a gente nem percebe o quanto caminhou. Quase todas as lojas, as farmácias sem exceção, são fechadas por portas de vidro e uma placa escrita “abierto”. O centro da cidade é um lugar movimentado onde se encontra a maioria das casas de câmbio e de artes. Avenida Dezoito de Julho é a principal, onde fica a Plaza Independência e a sede do governo uruguayo.

Quando passeamos pelo Parque José Enrique Rodó, muito lindo por sinal, notamos que aqui têm uma população enorme de cachorros, todos presos por coleiras. Depois caminhando pela Rambla tivemos a percepção de que as pessoas adoram cães, vimos várias com os seus passeando em grupo. Outra companhia do uruguayo é a garrafa térmica com água quente e a cuia com o chimarrão, é comum ver jovens, adultos e velhos sentados conversando ou simplesmente caminhando com a garrafa debaixo do braço.

Se alguém quiser vir ao Uruguay tem que conhecer e almoçar no Mercado de Puerto, se gostar de carne então...Vários tipos são assadas em parrillas bem à frente do consumidor, a fumaça é como nuvem dentro do  mercado e o cheiro é um atrativo impossível de ser rejeitado. Vimos vários executivos em pé tomando chopp e comendo algum tipo de carne, nós somos os turistas, eles estão em horário de almoço.

Talvez o maior problema quando se faz uma viagem é a cotação da moeda. Aqui o nosso Real é cotado a 8,40, 9,25 e 9,40 pesos uruguayos, mas se você for comprar e pagar em real o comércio aceita por 10,00. Então o melhor é procurar locais que aceitem a nossa moeda, mas temos sempre que ter a moeda corrente porque o transporte e algumas lojas só aceitam o peso. Mas que ninguém se iluda com a valorização do real, as coisas aqui tem preço equivalente, nós pagamos 48 pesos por duas garrafas de água, ou seja, 4,80 reais. A diferença é que podemos nos hospedar em bons hotéis, em bairros nobres com diárias dentro do orçamento, o que é impossível no Rio.


Quando voltamos do passeio pegamos o ônibus 116, os veículos são antigos e sintonizam  rádios estatais, o sistema de pagamento é igual ao nosso, com cartão, mas a máquina por onde passa o cartão e até quando se paga em dinheiro emite um cupom. O ônibus que estávamos enguiçou e tivemos que pegar o próximo, quando entramos a cobradora pediu o cupom de todos, ainda bem que não jogamos o nosso fora.  A nota fica triste fica por conta do bom velhinho da loja de artesanatos que nos comunicou que o Suárez foi punido por três meses.
Dá-lhe Forlan!!!!!

domingo, 22 de junho de 2014

Bom é o velho!


internet


Quem nunca disse: “bom mesmo era naquela época”, que atire o primeiro tomate, sim tomate, pedra machuca e o velho e bom tomate é companheiro diário nas minhas refeições. Bem, o velho sempre é cultuado, quer dizer, o tempo, infelizmente as pessoas “velhas” são meio que descartadas do convívio social. Assim como a cadeira de estimação que foi da vovó, a velha cama de desarmar que foi do vovô, ficam no quarto dos fundos enfeitando o vazio do silêncio e o escuro que da porta não se enxerga.

A noite é uma velha camponesa que cuida da terra para a plantação; é também a pastora responsável pelo rebanho, a operária que passa o café enquanto a família ainda dorme. O dia é um velho pescador destemido que trabalha de bermudas e camisa de botão aberta; é um xamã invocando espíritos da natureza para voar para “outros mundos”, um pedreiro dormindo dentro de um trem com a marmita na bolsa e um pente flamengo no bolso.

O novo é um velho repaginado, uma calça pantalona com a boca estreita, uma música de Chiquinha Gonzaga na releitura de Maria Gadu. A beleza existente no novo é a recuperação do vigor do velho, como a água que sai do mar e vira chuva e vira água do mar, mas nunca deixa de ser ela mesma. As coisas deixam de ser elas mesmas quando não possuem consistência e a alma não permite capturar-se no acaso de uma lente.

A lembrança é quando o novo respeita o velho puxando a cadeira para que ele sente, então algumas coisas renascem de dentro do tempo: Assistir pica-pau com o neto, fazer o sanduíche que a mamãe fazia, a emoção de um primo ao encontrar os antigos botões perdidos na casa da sua infância, ouvir as músicas das festinhas e beber hi-fi, admirar uma rural willys vermelha de capota branca. Lembro de uma luminária em formato de cacho de uva que ficava na casa da minha tia, achava aquilo lindo, era enorme e preenchia toda a sala, hoje em dia não passa de um objeto pequenino e imperceptível.

Hoje é o dia mundial do Fusca, o velho e bom fusquinha. Eu tive um azul 1963 em 1981, carinhosamente batizado pela minha irmã de “Maestro”, um “conCerto” em cada esquina. Ainda hoje seu dia é lembrado e comemorado por milhões de admiradores. O carro faz parte da história de uma família, assim como objetos e pertences. De vez em quando é saudável e aconselhável recordar momentos bons ao lado das pessoas que amamos, chorar de saudade é antídoto contra a solidão, algo a ver com o ciclo das águas que falei ali em cima.

Vamos celebrar o velho, abrir as gavetas, os álbuns de retrato, as cristaleiras, oxigenar o dia com os ares positivos do passado, ligar para um amigo de infância, rir sozinho, dançar bolero, ballet, rumba, disco, soul, rock, twist, samba. Olhe para você com um sorriso maior do que a sua boca, depois faça o almoço de domingo em uma panela velha.

Ricardo Mezavila.
à minha irmã Deise, meu primo Sérgio e minha tia Avany




quinta-feira, 19 de junho de 2014

Os Stewards e a invasão hermana





Uma semana do início da copa e alguns fatos registrados e de domínio público, e outros não, ficarão nas páginas da história. O mais emblemático tem sido a “invasão” dos hinchas vecinos: argentinos, chilenos, colombianos e uruguaios. Tem sido uma festa nos estádios e, principalmente, nas ruas e praias. Alguns estão dormindo no aeroporto, como no filme “O Terminal”, só que com liberdade para circular livremente pela cidade, outros dentro de home bus, casas sobre rodas.

Outro momento interessante é quando a torcida presente nos estádios consegue o que os torcedores brasileiros não conseguem pela seleção, eles cantam o tempo todo músicas de incentivo. Os mexicanos conseguiram calar os brasileiros no Castelão, em Fortaleza, mesmo sendo minoria. Detectei que os torcedores brasileiros não têm música exclusiva para apoiar a seleção, não cantam nada além daquela insuportável música da seleção de vôlei que ecoava nos ginásios anos atrás.

A eliminação da atual seleção campeã, a Espanha, que disputava com a Holanda nas apostas, quem seria a primeira e a segunda da chave, foi um sinal de que o tic-tac espanhol já não é eficiente. A seleção chilena brilhou no mais brilhante estádio de todos, o Maracanã. Fez valer alguns comentários de quem a indicava como uma das surpresas da copa. Os torcedores é que vacilaram quando tentaram entrar sem ingressos causando tumulto na sala de imprensa e levando os Stewards à loucura.

Aliás, Stewards são aqueles camaradas com colete que estão por toda parte fazendo a segurança desarmada dos jogos. Uns ficam sentados dentro do campo de frente para a torcida, já vemos isso nos jogos de nossos campeonatos, são os seguranças, mas achei esse legado bacana, tomara que pegue o nome.

No mais, os torcedores da antiga como eu, não consegue se identificar com a seleção porque não vemos nosso time representado, não dá para torcer por uma seleção que convoca um jogador que joga no Al-Gharafa, da Arábia. Se o torcedor for botafoguense então... Vai lembrar que em 1962, no Chile, o alvinegro tinha cinco titulares na final e a seleção foi bi campeã e que esse feito é único na história das copas. Hoje é torcer para que a Celeste enjaule os Three Lions e os deportem para Buckingham.


Ricardo Mezavila.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Que o TCC lhe seja leve"

internet



Que o Trabalho de Conclusão de Curso lhe seja leve, é isso o que eu desejo para quem está passando por essa fase. Estou tabelando com o TCC nas últimas semanas, a tabela é por conta de não ser sobre o meu curso, mas o da Sue, biologia na veia. Os detalhes da estrutura, o tema, fontes bibliográficas, fundamentação teórica, normas técnicas, relevância científica, e os inquisidores esperam que tudo seja entregue no prazo para a banca examinadora final.

A fonte inesgotável da vida está em aprender, estudar, mesmo que seja para depois da cronologia oficial, aliás, aí mesmo é que o despertar pelo novo tem que ser uma pílula diária, mais ou menos como aquelas que compramos com receita médica para aliviar as dores na coluna, ou quando o esfigmomanômetro entra em contato com a sistólica e diastólica e entrega um placar 14 x 9, por exemplo.

Paulo Freire em um sentido sócio-político-pedagógico disse que: “autonomia é a condição sócio-histórica de um povo ou pessoa que tenha se libertado, se emancipado das opressões que restringem ou anulam sua liberdade de determinação”. Nós nos libertamos quando temos autonomia para adquirir conhecimento e reconhecemos a necessidade da luta, quando saímos da passividade e decidimos por ser ativos e autônomos nas decisões que nos emanciparão.

Nesse contexto, estar em atividade intelectual permanente é extremamente necessário. A prostração física interfere nas habilidades de raciocínio, é como se o cérebro fosse uma escuna que não consegue dar a partida porque tem uma rede presa à hélice. Parodiando Pessoa: “Estudar é preciso”.

A zona de conforto é estressante, mais do que as pesquisas acadêmicas, é uma não-força  travestida de estabilidade. O que nos move é o motor que alimentamos quando estamos em contato com o conhecimento, com a informação e com a capacidade de fazer um monte de coisas, se forem de uma vez só, parabéns, mas não precisa tanto, uma coisa de cada vez está valendo, mas com o tempo sempre fora do lugar senão podemos cair na armadilha da idade. O estresse produtivo se transforma em energia para o corpo, então a gente pode se aposentar e continuar jovem.

Ricardo Mezavila.
(para Suelee)


domingo, 15 de junho de 2014

Eu penso comigo...

walt whitman



Tem coisas que nunca vamos conhecer, lugares que nunca iremos andar, pessoas que ficarão longe para sempre, pássaros esquisitos e animais marinhos que viverão como se não existissem para nós, e nós para eles. Será que não há muito mais do que imaginamos vivendo no universo? Será que hoje é somente uma data no calendário e não um milagre que deveríamos estar comemorando? Tudo que fizemos ontem além de virar memória, também deixa suas marcas e vai virar história.

Tem frases que nunca vou escrever, ventos que nunca irei sentir, mares e oceanos que existirão para sempre sem que eu tenha molhado os pés neles. Uma vida inteira não é suficiente para que a gente sinta o paladar de todas as frutas, ouça todas as músicas. Quantas pessoas poderiam ser nossas amigas e não sabemos nem onde vivem! Quantos livros interessantes repousam em uma estante e nunca serão recomendados!

Quantas cenas não serão gravadas? Como a do casal sentado em um banco em frente ao mar, ela o está deixando, ele quer impressioná-la com um poema de Walt Whitman, escrito em um papel, começa a chover, ele não quer ler o poema rápido, quer que cada palavra seja lida com doçura; as palavras apagam com a água e ele improvisa um poema fingindo que está lendo, enquanto ela observa, carinhosamente, seus dedos manchados pela tinta que escorre do papel. Ela pergunta, ironicamente, quem é o autor do poema e ele, atrapalhadamente, diz que encontraram o poema junto ao corpo de um jovem que havia morrido de amor.

Tem coisas que aconteceram quando ainda não tínhamos consciência de quem éramos, mas mesmo assim chegam sem cerimônia, como uma brisa pela janela, a fumaça de um cigarro, e permanecem durante todo o tempo. Como seria viver com a ausência de What a Wonderful World na interpretação de Louis Armstrong?


Ricardo Mezavila.