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sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Dama de giz



Dilma


O xingamento que a presidente ouviu no estádio, no jogo de abertura do  campeonato   mundial de futebol, foi a demonstração irrefutável de que a educação é a base de uma sociedade desenvolvida. Resolver essa questão é mais complicado do que uma equação com mais de uma incógnita e,  ao mesmo tempo, é muito fácil de ser compreendida. Os governos nunca, em nenhum momento no país, tiveram a preocupação por uma educação de qualidade, só fazem acumular riqueza e desfrutar das mordomias que seus cargos propiciam e que eles mesmos criam.

Ao povo deseducado só resta a linguagem do xingamento, o desespero por uma ascensão a qualquer custo, as gambiarras sociais penduradas na constituição e o cumprimento de leis etiquetadas e com preços. O ciclo parece não ter fim, os esquemas são muito arrumados, não há espaço para o erro, a gente sempre sai perdendo nesse jogo. Às vezes temos o sentimento de que “agora vai”, mas nada se movimenta em uma direção que não seja aquela de antes, a estrada é reta e não tem nenhuma via paralela por onde trafegar.

“Ei, Dilma, vai tomar no cu”!  Foi isso o que a mandatária máxima do país ouviu na Arena Corinthians de pessoas que, provavelmente, devem desfrutar de condição financeira razoável, haja vista o valor do ingresso, sendo assim, foram beneficiadas pela política comandada pela presidente.

A presidente, ao melhor estilo moradora de cortiço, abriu a porta, colocou as mãos na cintura e disse que já passou por agressões físicas quase insuportáveis e sobreviveu, não seriam os xingamentos que a intimidariam. Lamento o fato, ver uma presidente eleita em votações democráticas ser xingada daquela forma, me faz desacreditar que um dia aprenderemos a cobrar e fazer valer nossos direitos. Enquanto não houver comprometimento os governantes continuarão a ser xingados, e nós, os iludidos, nos satisfaremos em explanar para o mundo todo a nossa falta de educação.

Ricardo Mezavila.


terça-feira, 10 de junho de 2014

Com as mãos cheias de pedras

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Para quem pensava que aqui era o templo do futebol, um recado: Nós gostamos de futebol, mas não somos idiotas. A república das "bananas", definitivamente, não é aqui. Se a imprensa alemã divulga imagens de seus jogadores dançando com índios e diz que somos todos índios, VIVA, somos todos índios, mas não somos alemães, não executamos seis milhões de pessoas por discordância étnica; se a imprensa inglesa desdenha a cultura das nossas favelas, VIVA, somos todos favelados, mas não somos ingleses, não fomos nós que guardamos o tesouro que os nazistas roubaram da Checoslováquia.

Estou de tocaia nos aeroportos, daqui a pouco a comitiva portuguesa vai chegar com suas armas, seus jesuítas e seus piolhos. Vão procurar por nossas virgens e nosso ouro, VIVA, nós somos ricos e nossas mulheres são lindas, mas não somos portugueses, não expropriamos terras de nativos e nunca fomos covardes para fugir de nossas próprias divisas; Os franceses vão desfilar racismo e deixarão suas pegadas “français de souche” (puro sangue), pelas ruas, VIVA, nossa cultura é diversificada, não somos franceses, não discriminamos marroquinos, argelinos e tunisianos.

Vou preparando a pontaria para quando os holandeses chegarem, eles irão para o Leblon e se disfarçarão de surfistas, trocarão idéias em sua língua nativa e tentarão formar gangues, VIVA, somos todos surfistas, mas não somos holandeses, não embebedamos meninas com vodka e as colocamos nas vitrines para o sexo; com o mesmo cuidado separarei algumas pedras para os italianos, eles gostam de queimar cientistas, professores e artistas na fogueira, podem querer incendiar nossas religiões afro-brasileiras, VIVA, somos todos ecumênicos, não somos italianos, não causamos banho de sangue em Jerusalém.

Ainda tenho pedras, as maiores estão guardadas para quando o Tio Sam pisar por aqui, não quero que conheça a nossa batucada, prefiro que fique longe da nossa cultura, que dance na chuva sozinho; aqui não é depósito de armas químicas, não escondemos terroristas, não temos ogivas nucleares apontando para nenhum país; não nos metemos em brigas alheias, respeitamos a constituição e a bandeira do vizinho; eles podem querer nos convocar para a guerra fria, VIVA, somos todos antiimperialistas, não somos como os yankees, não plantamos guerra e nem abastecemos de armas os dois lados do front.

Sem pedras nas mão, mas com a consciência ainda percorrendo todos os lugares, olho para dentro de casa, faço mea culpa, ainda podemos melhorar muito, restaurar as mobílias velhas e deixar a casa arrumada; algumas coisas estão pendentes e não há inocência no silencio, sinto falta de vozes mais agressivas, vozes que saiam de dentro de uma nota menor para estragar o concerto, desafinar a orquestra e derrubar o maestro. Podemos começar por esclarecer se há corpos enterrados na cabeceira da pista da base aérea de Santa Cruz; e se Stuart Angel, Rubens Paiva e tantos outros tiveram tempo de atirar todas as suas pedras.

Ricardo Mezavila.



segunda-feira, 9 de junho de 2014

Dios me Libre (Somos mais bonitos que vocês)


intternet



Nós, cariocas, nos orgulhamos da beleza natural da nossa cidade, do privilégio que é viver em um lugar abençoado por deus. Realmente vivemos em um lugar lindo e cheio de belezas naturais, mas perdemos para outras cidades quando a ação do homem entra como quesito de avaliação.  Em ecologia damos o nome de antrópico, quando há interferência do homem sobre o habitat e suas modificações resultantes.

Isso explica porquê a maior cidade da América Latina, São Paulo, esteja em vexatório sexto lugar no ranking das cidades latinas, empatado com a mais linda, Rio de Janeiro. A pequena Pointe-à-Pitre no Caribe está à frente, seguida por San Juan em Porto Rico e Montevidéu no Uruguai, juntas cabem com folga dentro de Belo Horizonte.

Devido a grande exposição do Brasil no cenário internacional, por conta da copa do mundo, nossas deficiências serão vistas e analisadas por outros olhos. A distância social que há no Brasil é de envergonhar do oiapoquense no Amapá, ao chuiense no Rio Grande do Sul. E o vexame não tem uma justificativa simples que faça o estrangeiro compreender, somos um país democrático onde o povo elege seus representantes, quer dizer, por omissão ou ação, todos somos responsáveis.

Mas aí nossos craques vão lá e arrebentam, ganham a taça e tudo parece equilibrado. Somos ruins da cabeça, mas bons com os pés. Isso me remete há mais de trinta anos, quando meu time de pelada, disputando um torneio no Aterro do Flamengo, tomou uma humilhante goleada. Quando nos posicionamos  para as fotos depois do jogo, acho que foi o Leonardo, um menino ruim de bola que não sabia bater nem lateral, soltou a frase bisonha e infantil: “Perdemos o jogo, mas somos mais bonitos que vocês!”.

Não sou especialista, mas se perdermos a copa, não vai ter jogador capaz de fazer  a patética afirmação daquele domingo ensolarado no campo de terra do Aterro. Talvez os holandeses e os italianos, pelo que tenho ouvido da torcida feminina nas ruas do Rio, tenham esse mérito. Pior de tudo e até mais bizarro do que os “humilhados meninos bonitos”, é aturar o Maradona gritando:”Ai,  mamita querida!”. Dios me libre!!!!


Ricardo Mezavila.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ocorrências Evitáveis


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A responsabilidade pela morte do fotógrafo, que morreu com suposto problema cardíaco em frente ao Instituto Nacional de Cardiologia, não é dos médicos, mas do motorista da linha 422 que não o levou ao local apropriado: O Maracanã.

Se estivesse atualizado e acompanhando os últimos acontecimentos, saberia que estamos em época de copa do mundo, padrões e eventos FIFA; teria visto a entrevista do Fenômeno e saberia que hospitais não fazem parte do legado.

Pobre motorista, a culpa é sua que além de trabalhar em uma jornada desumana, a maioria cumpre dupla função, ainda tem que ser solidário com a população mal atendida, a culpa é sua que recebe um salário incompatível com o lucros das empresas que financiam campanhas e são beneficiadas pelos governos.

Por coincidência o motorista se chama Amarildo, não é o da Rocinha, que também não teve o atendimento adequado pelo poder público, ambos não estão em nenhum álbum de figurinhas, se estivessem ele nunca se completaria, as figurinhas estariam enterradas em algum cemitério clandestino.

O fotógrafo morreu do coração na calçada, em frente a uma unidade federal de referência em cardiologia, e talvez morresse lá dentro se tivesse sido atendido. Não custava um médico tentar socorrê-lo como fez o Amarildo, ninguém estaria indignado, a polícia não indiciaria os médicos por homicídio doloso.

No juramento de Hipócrates, o pai da medicina, está escrito: “Manterei o mais alto respeito pela vida humana”. Teria sido Hipócrates motorista de ônibus?

À família do fotógrafo Luiz Cláudio Marigo, ao lado da saudade e das lembranças boas ficam: a dúvida se haveria tempo para o socorro, a dor pela perda e o desgaste se houver processo.

Cabe lembrar que o maior erro quando se emite opinião é generalizar, o que não quero que pareça aqui, respeito todas as classes profissionais, mas as cenas urbanas estão aí para serem observadas e discutidas.


Ricardo Mezavila.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Pule algumas páginas


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Alguns livros a gente lê em seqüência, página por página, tendo lido primeiro a contra-capa, as orelhas, apêndice, prefácio e dedicatória. Existem livros que atraem pela capa, pelo título, pela textura e pelo brilho. Já li um livro só porque gostei de tê-lo nas mãos, tive a impressão de que lia com os dedos, alguma coisa a ver com alfabeto braillle. O livro é a expressão do ser humano, é a extensão da conversa, um amigo que fala quando lemos e que ouve quando paramos para refletir.

Outros livros a gente não sente a necessidade da cronologia, começa a ler de onde ele foi aberto; às vezes pelo epílogo mesmo, então começamos a retroceder nas páginas, decrescendo até o início para saber se valeu a pena começar pelo fim, ou se aquela primeira página foi suficientemente alicerçada para receber os pavimentos até que a construção esteja concluída.

Algumas pessoas são como livros prontos para a leitura inicial, sem erros de gramática, mas com erros de concordância; com verbos bem flexionados, mas com ineficiência narrativa; com boa impressão, mas com incoerência textual; com boa introdução no parágrafo, mas com conclusão desarmônica; que no discurso inicial usa a primeira pessoa do plural, mas que durante o desenvolvimento da leitura passa a cuspir na primeira do singular.

Outras pessoas são como livros sem títulos, sem autores, sem páginas numeradas. Podem estar em uma estante da biblioteca ou na prateleira de um sebo, mas sempre estarão abertos para que possamos ler a partir de onde quisermos. Não se assemelham aos livros politicamente corretos, que passam pela revisão técnica e são atrelados à ditadura do mercado. Algo assim como a democracia e a liberdade, a primeira diz sim quando é permitido, a outra é livre, pensa a partir daquilo que observa e nunca será escravizada.

Ricardo Mezavila.


domingo, 1 de junho de 2014

Cuidado com o vão

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Comumente fazemos uso, através de metáfora, para nos posicionarmos frente a algum projeto de vida. Costumamos criar uma alternativa de emergência caso algo não saia como   previsto. Para isso nos valemos do notório e cambeta “plano b”. A gente acredita que exista um “plano a” vigente, por onde caminhamos com segurança e sempre com atenção nas placas para não pisarmos fora da linha ou “mind the gap”.

O que acontece é que estamos sempre em um plano inferior àquele que queríamos estar, ou pelos menos, deveríamos pensar sempre em melhorar. Não acredito que um dia alguém viva dentro de um plano perfeito, mesmo que assim se sinta, mas a vida acontece o tempo todo e não há nenhum projeto capaz de chegar ao fim enquanto estamos com fome de crescimento. Às vezes o que parece seguro não passa de um abismo sem faixa amarela.

O meu amigo John dizia que: “a vida é aquilo que acontece enquanto você faz planos”. É isso aí, John! A gente faz planos e esquece que a vida é o agora também, viver logo faz parte dos maiores dos projetos que podemos querer. Os dias depois de hoje serão os mesmos de ontem, com todos os desejos agregados, com toda a carga emocional, como a que pude perceber nos olhos do casal de amigos “de idade” quando estavam no altar recebendo as alianças das mãos da menina.

Façamos nossos planos como se todos fossem um antes daquele, que ali na frente, vai nos surpreender com alegria e realização. Não dá para contar com o que sofre interferência invisível, fora do controle da ciência, da frieza e lógica da matemática. Então, um passo a frente e todo o seu corpo estará em outro lugar, e pode ser que ali, naquele pedacinho que você chegou porque teve a coragem de sair do estático, esteja o início de tudo o que você anda procurando enquanto perde tempo em só fazer planos.

Ricardo Mezavila.

sábado, 31 de maio de 2014

A lei da copa

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Meu pai não foi à final da copa de 1950 porque não teve acesso, os ingressos se esgotaram rapidamente. Quando comecei a entender de futebol, lá no final dos anos 1960, sempre queria saber dele como foi viver uma copa do mundo de perto, no próprio país, devia ter sido mágico. Ele dizia que só não foi melhor porque perdemos a final para o Uruguay, mas que os jogos que antecederam o Maracanazo fizeram o país viver um carnaval fora de época.

Na minha imaginação infantil sonhava em um dia assistir uma copa do mundo aqui, no Brasil. Eu pesquisava tudo sobre a copa de 1950, os jogadores, os jogos, os gols, tudo. A copa de 1970 se aproximava e seria a minha primeira, aquela que a gente nunca esquece. A taça Jules Rimet estava em disputa definitiva entre Brasil, Itália e Uruguay, as três seleções que a conquistaram por duas vezes. Pelo regulamento a seleção que fosse tricampeã ficaria com a taça definitivamente. E deu Brasil.

Sessenta e quatro anos depois o circo da FIFA está novamente armado em terras brasileiras, o futebol arte não existe mais, o sonho infantil também não, pelo menos em se tratando de futebol. Então é isso? É assim que se faz uma festa? Cabe aqui deslizar num clichê porque é muito apropriado: “Sabe de nada, inocente!” Existe a Lei Geral da Copa que sobrepõe a própria Constituição em alguns pontos. O Supremo disse NÃO a Ação Direta de Inconstitucionalidade, na qual a Procuradoria Geral da República questiona dispositivos da Lei.

O tão amassado Estatuto do Torcedor foi rasgado nas cadeiras dos estádios; comerciantes residentes no entorno das Arenas não poderão exercer o direito de trabalhar apoiado nas leis vigentes, terão que se submeter às regras da FIFA e sairão no prejuízo. Depois que a carruagem passar e os cães ficarem por aqui latindo no quintal cobrando impostos, quando a tenda tiver sido recolhida e os palhaços de pires na mão vierem pedir voto, não seremos nós que iremos varrer o lixo da suruba, mas teremos muito trabalho, vamos ter que desinfetar as ruas e arrumar a casa do nosso jeito.

Ricardo Mezavila

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Maracanazo antecipado



maracanazo


Faltam poucos dias para o início da copa e parece que já perdemos a final, um novo Maracanazo, só que antecipado. O silêncio histórico causado pela chuteira de Ghiggia, naquele dezesseis de julho, calou a alegria, o otimismo, o orgulho patriótico que saía das línguas e invadia as ruas enfeitadas. Inacreditável, é esse o adjetivo, para definir o que está acontecendo hoje. Nem o pessimista por mais “urubuzado” que fosse, arriscaria que o clima pré-copa fosse estar tão desanimado.

Será que o povo percebeu a tempo que os governantes se aproveitam dos gols dos nossos craques para tentar transformá-los em votos? Será que o futebol não é mais aquela paixão de antes? Nada disso. Acredito que um grande constrangimento coletivo está pairando sobre os nossos dias, uma anticatarse, um apocalíptico sorriso amarelo do Oiapoque ao Chuí, como costumamos dizer.

Confesso que estou consciente na “patrulha”, já não torço pela seleção desde 1986, então é fácil não torcer agora, mas começo a sentir o peso de conviver com quem quer torcer, mas não tem coragem. Parece que a ditadura voltou, e torcer pela seleção pode acabar em uma cadeia do DOPS, sob tortura. “A minha gente hoje anda falando de lado e olhando para o chão”, é por aí. A culpa é do governo! Bordão criado para um programa humorístico e que reflete a metade da culpa, a outra metade é nossa, porque elegemos o governo.

Estou disposto a liberar as pessoas do meu relacionamento a torcer, não vou mais patrulhar a alegria de ninguém com minha cara de falso censor, afinal demoramos tanto a conquistar a democracia que os rabugentos de plantão não tem mais espaço nas nossas festas, que fiquem mastigando solitários as palavras de ordem contra o sistema. Que façam suas observações irônicas, como: “engraçado, não vi nenhum carro com a bandeirinha do Brasil na janela”, ou, “na última copa as ruas já estavam enfeitadas nesse período”. Sim, o clima está tenso, mas se não houvesse copa, a educação, saúde, segurança e transporte estariam mais eficientes?

A gente passa e tudo permanece do mesmo jeito, não vai ser querendo a derrota da seleção que nossos problemas serão resolvidos. Seria ótimo se depois da copa as pessoas estivessem mais conscientes e fizessem valer os seus direitos; seria da maior importância que os legisladores, sentindo a pressão das ruas, discutissem as prioridades com transparência e colocassem na discussão do dia as reformas que tanto desejamos. Protestar também é uma bandeira, mas não de estádio, que tem de estar presente quando o assunto for de interesse social e econômico, não cabe colocar o futebol nisso.

Mantenho a minha decisão de não torcer, porque não consigo, mas seria bom se o clima esquentasse nas ruas, que tivessem mais bandeiras nas janelas, ruas enfeitadas e crianças participando. Nós, brasileiros, não temos fama de ranzinzas, de mal humorados, talvez a alegria seja o maior dos protestos nessa hora, pode ser a arma que falta para nos enxergarmos inteiros para, depois sim, chamarmos na “xinxa” aqueles que inventaram o pecado.


Ricardo Mezavila

Caipirinha e Sonrisal



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Eu tinha esquecido como era morrer, mas hoje de manhã eu lembrei e, antes que esqueça, vou contar para não ter que passar mais por isso. É assim: Tome várias caipirinhas no Lampião e Maria Bonita que a mulher da foice faz o resto. Ficar dentro de um caixão é igual a entrar dentro de um taxi, a gente é transportado por alguém para o descanso, o destino pode ser a casa do pai, ou não, e nem sempre tem um anjo a nossa espera.

No outro dia é tudo a mesma coisa por isso posso afirmar que, há sim, vida após a morte, e não tem diferença dos outros dias. É parecido com sonhar que estamos voando com o corpo ausente e transparentes para quem nos olha; como um lobisomem que, ao voltar ao estado humano, acorda em uma praia desconhecida e não sabe o que está fazendo e como foi parar ali.

Mas como existe vida ainda, então temos que fazer as coisas que andamos adiando por anos e que pedem uma solução. Temos que perdoar, conversar, amar e tantos outros adiamentos que acordam junto com a ressaca e ficam latejando nas têmporas até o café e um pouquinho depois do almoço e do sonrisal.

Se tudo continua e chove lá fora e aqui faz tanto frio, acredito que ainda não se esgotou a minha vontade de ouvir Eleanor Rigby, tenho que conhecer o Uruguai durante a copa do mundo e agradecer à Beatriz por me dá um neto. Guilherme vai fazer sete e eu cinqüenta e cinco, daqui há onze vai estar com dezoito e eu sessenta e seis, ressacas melhores virão.


Ricardo Mezavila

Minha teoria de Manhattan (?)


woody allen



No final do documentário sobre a vida de Woody Allen, escritor, diretor, ator e músico, ele diz: “Desde criança quis ser ator, e fui; quis ser diretor, e fui. Tive sorte, consegui coisas que imaginava e até as que nunca podia imaginar. Toquei jazz em New Orleans. Então, por que me sinto um ferrado?”. Meu ilustre ícone, você se sente um ferrado porque a felicidade não tem limite quando ainda somos produtivos e capazes de sentir vida dentro da existência.

Atingir um determinado objetivo não é o suficiente para preencher o que há de imaginação e sentimento na ligação entre matéria e espírito. A matéria envelhece com os dias, mas a essência da vida, o perfume do verdadeiro sentido é o espírito. Dentre tantas tentativas de explicar as razões da psique, personificação da alma, a ciência fortalece a mística de que somos algo mais do que sabemos.

Microtúbulos, ciência quântica, ontologia, são experiências inconclusas que servem para fazer alguém acreditar que conhece os segredos da vida, pura ilusão. Nada está comprovado, então podemos acreditar naquilo que pensamos como sendo o mais lógico dentro da inconsistência, paradoxo ou absurdo.

Vale tentar acreditar que mesmo que tudo pareça sem sentido, sem graça, que não vamos chegar a lugar algum, sempre haverá um segundo na frente de outro, que o outro dia pode se transformar em um outro mundo; o tempo pode resolver saltar por sobre as montanhas dissonantes e deixar os nossos dias com cara de festival, cheios de alegria e música.

Andar sobre tapetes vermelhos, que estão sempre do lado de fora antes da porta principal, não é nada mais do que um instante, não dura para sempre; assim como sentir descontentamento não é nada mais do que carência de um olhar mais positivo e otimista para o momento, para dentro de nós, o lugar em que tudo realmente acontece.

Ricardo Mezavila.