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terça-feira, 8 de abril de 2014

Pelé is dead

itaquerão


O melhor jogador de futebol de todos os tempos está morto e enterrado desde 1977, ano de sua última participação dentro dos gramados, depois disso somente o Sr. Edson vem se manifestando e polemizando com suas opiniões ora sensatas, ora esdrúxulas. Isso é comum a qualquer pessoa que tenha acesso à mídia, principalmente alguém com a envergadura do maior atleta do século XX, que tem voltado para si toda a atenção da imprensa mundial.

Em tese, o Sr. Edson não é nenhuma autoridade em assuntos sociológicos e políticos, tão pouco entende de engenharia, urbanismo e economia. Como qualquer outra pessoa leiga que saiba distinguir um aeroporto de uma rodoviária, ele emite suas opiniões de acordo com o que vê, faz do simplismo a sua base para comentários evasivos e desprovidos de conteúdo técnico.

A figura do craque ainda pode ser enxergada quando olhamos o empresário da copa no Brasil discorrer sobre a organização para o evento; quando as lentes projetam a imagem do rei, percebemos que ele não está só mais nu, ele também está sem pernas, sem braços, sem coração. A coroa é uma fumaça indefinida que fica girando sobre sua cabeça, como um vulcão expelindo fogo inimigo.

Acho que o Sr. Edson, já que não vive mais sob os auspícios do monarca do futebol, devia reconhecer que é um mortal como qualquer um, é um plebeu como os trabalhadores são; devia se desculpar com os filhos dos operários que perdem a vida para que as obras do seu reino sejam confortáveis e dignas para a prática daquilo que o conduziu ao trono. Um rei não pode falar o que quiser, senão corre o risco de virar o bobo.

A copa e o dinheiro passarão, mas a capacidade de nos indignarmos não passará. Os estádios ficarão como monumentos ao desperdício, à corrupção, à falta de administração pública, mas jamais será a imagem do “deus” diante do qual o povo vai se ajoelhar. Não basta mostrar ao mundo que nossos aeroportos funcionam, temos que fazer e mostrar aos nossos nativos que escolas, hospitais, transportes, segurança e saúde também funcionam.

Não está na constituição que o governo deve priorizar os visitantes em detrimento do seu próprio povo!

Ricardo Mezavila.








segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ressonância Magnética (eu não engoli o MH-370)





Nunca tive medo de exame, ainda não tenho porque passei pela experiência, mas se soubesse como era uma ressonância magnética de abdome total e pelve, eu não teria saído de casa com tanta confiança em uma manhã de domingo. Tudo começou dando errado na preparação para o exame, a enfermeira não conseguia colocar a agulha em meu braço. Sou doador de sangue! – disse a ela, com a segurança de quem está acostumado com “furadas” maiores. Ela disse que o procedimento era diferente, trocou de braço e, depois de um tempo, conseguiu “achar” a veia e aplicou soro, deixando a agulha ali pendurada.

Tranquilo entrei em uma sala e respondi algumas perguntas, coloquei um roupão da clínica e parti para a sala onde estava a máquina de ressonância. Entrei e fui logo deitando, não fiquei assustado com o túnel porque já tinha visto antes quando uma de minhas filhas precisou fazer o exame. Sem nenhum susto acompanhei toda a rotina de preparo, fui preso à maca com um cinto, depois colocaram uma espécie de prancha na região onde seria feito o exame, colocaram um fone em meu ouvido, me deram uma campainha para eu tocar, caso sentisse alguma coisa e pediram que eu ficasse com os braços esticados pra traz, por cima da cabeça.

Até aí estava tudo tranquilo, sabia que ia entrar no túnel, mas ficaria com os olhos para fora. Perguntei quanto tempo duraria e tive a resposta de que seriam quarenta minutos. Tudo pronto e a maca me transportou para dentro do túnel e parou. Percebi que os olhos não estavam tão para fora o quanto eu imaginava, mesmo assim conseguia ver as lâmpadas no teto da sala, de repente a maca entrou mais para dentro do túnel e a sensação foi horrível, já não via as lâmpadas e, para piorar, o exame começou com uma sucessão de sons que parecia música eletrônica, era como se David Guetta estivesse ali; depois outros sons altos vieram, teve funk, samba, soul e até o BOPE parecia ter chegado, porque uma hora ouvi uma seqüência de tiros de metralhadora.

Passado vários minutos a maca retrocedeu e vi as lâmpadas novamente e os sons continuaram; mas logo depois fui introduzido novamente para o túnel e fiquei com o corpo todo “entubado”; o único contato com o mundo externo era a campainha que eu segurava, se ela caísse... Não sei, não! É algo parecido com tortura, cheguei a pensar em entregar os amigos que estavam comigo na reunião da CUT em 1982; pensei em confessar que em 1975, jogando futebol contra o time da minha própria rua, a bola que bateu na minha perna debaixo da trave, teria sido tirada com a mão, como eles me acusaram. O som era tão alto que quase gritei: - Eu não engoli o MH-370 da Malaysia Airlines, vocês não vão encontrá-lo dentro de mim! Acho que se mergulhassem a máquina de ressonância magnética no oceano Índico achariam o avião.

Depois de ter que segurar a respiração por vinte segundos dezenas de vezes, ainda fizeram um contraste pela agulha que estava em meu braço, e uma voz disse que eu já seria liberado.
Quando cheguei na recepção da clínica fui recebido com um sorriso do meu neto e da minha mulher, a responsável pela tortura, que disse ao ver minha cara enfezada: - Relaxa, amor, isso é rotina! É, ainda bem que sim, vamos tomar uma cerveja.


Ricardo Mezavila.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O lugar em que as coisas se encontram


Hendrix



Enxergar o halo nas pessoas não é muito comum porque requer boa vontade, desprendimento ou ópio. Mas não é impossível de se enxergar sem essas exigências, desde que se ouça uma música instigante e envolvente, John Coltrane, por exemplo. Padre José de Anchieta, ex-jesuíta, vai receber o seu ainda hoje quando Francisco assinar a sua santificação, mesmo sem nenhum milagre comprovado. Isso sinaliza o desejo da igreja em se tornar menos exigente com os candidatos.

Isto posto, podemos sugerir alguns nomes para o Vaticano. Se Jimi Hendrix fosse lançado candidato não seria nenhum absurdo, mesmo sendo considerado um “deus”, acho que não se importaria em ser somente um “santo”; ao contrário de Anchieta, fez muitos milagres com o seu instrumento, tem seguidores fieis até os dias atuais, quarenta e quatro anos depois de sua morte.

Tinha sangue cherokee e se orgulhava de seus ancestrais nativos norte-americanos; quando sua mãe morreu, o adolescente Jimi teve que criar seu irmão mais novo, seus pais eram separados; o pai de Jimi era um trabalhador humilde que retirava sucatas, nossos “catadores”, e as vendia. Foi ajudando o pai que ele encontrou um ukelele, instrumento havaiano de quatro cordas, mas que só tinha uma, e ficou encantado com o som que tirava dele.

Penso que uma das maiores qualidades de um candidato a santo é a humildade, é viver na condição que o destino desenhou, criar cores e formas para que o caminho fique mais iluminado, com mais possibilidades, menos cacete e mais tolerável.

Quando for indicar alguém para usar o Círculo de Luz, preste atenção se ele conhecia os acordes do vento; se escrevia poesia em paralelepípedos; se ficava emocionado quando uma criança começava a andar; se seus olhos brilhavam de alegria quando alguém fazia sucesso; se descia as escadas para se despedir mais uma vez de quem estava indo embora; se dizia palavras finitas para o amor infinito.

Fica a reflexão: As coisas definitivamente certas podem ser encontradas em lugares potencialmente errados.


Ricardo Mezavila.


terça-feira, 1 de abril de 2014

A miopia inexistente


Joao Saldanha


            Era uma noite chuvosa de 1968, a campainha da minha casa toca e, ao atender, pela “portinhola”, vejo dois homens altos, vestidos com sobretudo e de chapéu. Ficamos nos olhando por alguns segundos até que perguntaram se meus pais estavam em casa. Eu tinha nove anos e não entendia de política, mas sabia que era proibido cantar o hino nacional na rua; não sabia o que era ditadura, mas era obrigado, na escola pública primária, a ficar em fila diante do retrato de um homem com uma faixa presidencial, antes de subir as escadas e entrar na sala de aula.
            Retrocedendo um pouco no tempo, naquela mesma década de 1960, dois anos antes do meu ingresso na escola, o presidente João Goulart assinou alguns decretos como: Encampação das refinarias de petróleo privadas; reforma agrária à beira de rodovias, ferrovias, rios navegáveis e açudes e um decreto tabelando aluguéis. Esses decretos contribuíram para a sua deposição.
            Avançando no tempo, agora na década de 1970, um ano depois de terminar o segundo grau, uma nova Lei de Segurança Nacional foi promulgada, mais branda se comparada com as anteriores. Era 1978, o regime militar estava perdendo força, é extinto o AI-5, e a abertura política progride lentamente.
            A primeira demonstração pública de patriotismo que me lembro foi na copa de 1970, quando “noventa milhões em ação” cantaram  Pra Frente Brasil. Ninguém comentava mais a queda do, então técnico, João Saldanha, responsável por classificar o Brasil nas eliminatórias, mas que era filiado ao Partido Comunista e não queria convocar o folclórico “Dadá Maravilha”. João “Sem Medo” caiu sob alegação de que cortaria o rei Pelé da seleção por ser míope, jogando-o contra a população, que não admitia ver o craque fora da copa.
            Foram dez anos desde a noite chuvosa de 1968 até o fim do ato institucional, tempo suficiente para fazer calar a geração que viria após uma eventual conquista popular, e crescemos no obscurantismo.
            -“Seus pais estão em casa?” – perguntou mais uma vez um dos homens. Minha mãe chegou logo depois e abriu a porta. Eles se identificaram como sendo Agentes do Governo, eram do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Queriam informações sobre um parente nosso, um tio, que não havia sido encontrado em sua residência. Minha mãe disse que ele não estava ali mas deu permissão para que entrassem. Eu os segui pelos cômodos e reparei que eram mais altos do que aparentavam quando os vi pela portinhola, entraram no meu quarto e esbarraram na minha mesa de jogar botão que caiu, procuraram e, não o encontrando, agradeceram e foram embora.
             Fiquei olhando para minha mãe sem entender nada, ela sabia o que tinha acontecido ali, não lembro sobre o que conversamos naquela noite, mas o silencio dos dias, meses e anos que se seguiram, foram suficientes para que eu entendesse que ficar quieto não foi a melhor opção.  E assim crescemos, politicamente, com a miopia inexistente do Pelé.
           

Ricardo Mezavila

A Copa da depressão


arena Manaus

Uma partida de futebol, ou várias partidas, ou uma copa do mundo, não valem a vida de uma pessoa. E o que temos visto na organização da copa no Brasil parece contradizer isso, oito operários perderam a vida em acidentes nas construções dos estádios. Na guerra o soldado sabe que pode não voltar para casa e que pode não deixar que alguém também volte, mas o esporte não pode servir de meio para se fazer vítimas. A finalidade da copa do mundo é a confraternização dos povos através da competitividade saudável.
Tenho dito, volto a dizer, não vou torcer pela seleção, aliás, não torço desde 1986. O motivo é que, depois daquela copa no México onde perdemos até pênaltis, os jogadores saíram em massa do Brasil prematuramente e, quando saía uma lista de convocados para as próximas seleções, eu não conhecia quase nenhum deles, não eram identificados com o futebol do país, pareciam e ainda parecem, mercenários que se inscrevem em causas estrangeiras e lutam por dinheiro.
Se fizessem um plebiscito popular antes do Brasil ter sido escolhido como sede, tenho a certeza de que a maioria votaria SIM; todos confiantes de que “não haveria dinheiro público nisso”, como disseram os governadores, prefeitos, senadores, deputados, ministros e a presidente da República. Eu também votaria SIM, se confiasse em político, adoro futebol, entendo que uma copa do mundo traz perspectivas positivas, deixa legado, movimenta o turismo e é uma festa democrática e popular.
O Ministério dos Esportes se pronunciou: “Não há um centavo de dinheiro público direcionado à construção ou reformas das arenas para a copa”. E já se foram mais de “sei lá quantos bilhões”. As estrelas da companhia desfilam ironia pelo país: “Não se faz copa com hospitais”, foi uma delas. Com a maior cara de pau criaram o projeto de voluntários que, aí tudo se explica, tem mais candidatos do que vagas.
Sem nenhum problema digo que vou torcer para que qualquer outra seleção sul americana seja a campeã, menos a brasileira, seria incoerência e não quero que o hexa seja a cortina de fumaça para encobrir a roubalheira, as mortes dos operários, a incompetência generalizada e estupidez festiva.
Na copa de 1970 eu era uma criança e não entendia nada, como na canção do Erasmo, a seleção foi tri enquanto os militares matavam estudantes; nessa eu sou adulto e, se ainda não entendo nada, pelo menos desconfio que tem coisa errada por aí, sinto o cheiro de uma cereja que querem colocar no bolo, mas que se depender de mim, vai apodrecer no colo de um deles, de preferência como aquela bomba que o sargento levou para o show em homenagem ao Dia do Trabalhador.

Ricardo Mezavila.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A miopia inexistente



Era uma noite chuvosa de 1968, a campainha da minha casa toca e, ao atender, pela “portinhola”, vejo dois homens altos, vestidos com sobretudo e de chapéu. Ficamos nos olhando por alguns segundos até que perguntaram se meus pais estavam em casa. Eu tinha nove anos e não entendia de política, mas sabia que era proibido cantar o hino nacional na rua; não sabia o que era ditadura, mas era obrigado, na escola pública primária, a ficar em fila diante do retrato de um homem com uma faixa presidencial, antes de subir as escadas e entrar na sala de aula.

Retrocedendo um pouco no tempo, naquela mesma década de 1960, dois anos antes do meu ingresso na escola, o presidente João Goulart assinou alguns decretos como: Encampação das refinarias de petróleo privadas; reforma agrária à beira de rodovias, ferrovias, rios navegáveis e açudes e um decreto tabelando aluguéis. Esses decretos contribuíram para a sua deposição.

Avançando no tempo, agora na década de 1970, um ano depois de terminar o segundo grau, uma nova Lei de Segurança Nacional foi promulgada, mais branda se comparada com as anteriores. Era 1978, o regime militar estava perdendo força, é extinto o AI-5, e a abertura política progride lentamente.

A primeira demonstração pública de patriotismo que me lembro foi na copa de 1970, quando “noventa milhões em ação” cantaram  Pra Frente Brasil. Ninguém comentava mais a queda do, então técnico, João Saldanha, responsável por classificar o Brasil nas eliminatórias, mas que era filiado ao Partido Comunista e não queria convocar o folclórico “Dadá Maravilha”. João “Sem Medo” caiu sob alegação de que cortaria o rei Pelé da seleção por ser míope, jogando-o contra a população, que não admitia ver o craque fora da copa.

Foram dez anos desde a noite chuvosa de 1968 até o fim do ato institucional, tempo suficiente para fazer calar a geração que viria após uma eventual conquista popular, e crescemos no obscurantismo.

-“Seus pais estão em casa?” – perguntou mais uma vez um dos homens. Minha mãe chegou logo depois e abriu a porta. Eles se identificaram como sendo Agentes do Governo, eram do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Queriam informações sobre um parente nosso, um tio, que não havia sido encontrado em sua residência. Minha mãe disse que ele não estava ali mas deu permissão para que entrassem. Eu os segui pelos cômodos e reparei que eram mais altos do que aparentavam quando os vi pela portinhola, entraram no meu quarto e esbarraram na minha mesa de jogar botão que caiu, procuraram e, não o encontrando, agradeceram e foram embora.

Fiquei olhando para minha mãe sem entender nada, ela sabia
 o que tinha acontecido ali, não lembro sobre o que conversamos naquela noite, mas o silencio dos dias, meses e anos que se seguiram, foram suficientes para que eu entendesse que ficar quieto não foi a melhor opção.  

E assim crescemos, politicamente, com a miopia inexistente do Pelé.
           
Ricardo Mezavila

           


terça-feira, 18 de março de 2014

A raiz da violência

internet



Quem vive em comunidades desassistidas pelo estado, sabe que um copo de café pode ser confundido com uma arma, e tudo o que se move pode vir a ser abatido e justificado como legítima defesa. Isso demonstra como os profissionais são despreparados para exercerem suas funções básicas. A polícia tem como finalidade constitucional preservar a ordem pública, de proteger pessoas e o patrimônio, e realizar a investigação e repressão dos crimes, além do controle da violência. Todos sabem a quem culpar no lamentável e chocante episódio no Morro da Congonha, onde a trabalhadora e mãe Claudia Ferreira da Silva foi estupidamente e covardemente morta, mas quem é o verdadeiro responsável?

Não acredito que um profissional saia de casa para fazer o que os policiais fizeram assim, deliberadamente. A falta de preparo e treinamento, aliada a carência educativa e cultural, que nos é negada pelo sistema político-pedagógico, contribuem para os equívocos cometidos por essa corrente dominante.

As instituições estão no cerne de todo os processos que conduzem nossas vidas, deveriam ser as estrelas a nos guiar em paz e com felicidade no coração, mas uma nuvem pesada e resistente ao vento não deixa que ela fique visível.

 Há alguns anos, em 2002, realizamos, na Casa do Menor Trabalhador, uma série de fóruns sobre violência que chamamos de: “Colóquio Juvenil sobre a Raiz da Violência”, concebido e ministrado pelo Dr. Paulo Araújo, Médico pesquisador em Medicina Mental, que seria um termômetro para que entendêssemos o porquê de uma turma segregar outra na mesma classe.

Entre todos os jovens participantes, quase a totalidade moradores em comunidades dominadas por facções diferentes, não havia quem não estivesse assustado e confuso com os fatos do dia-a-dia de nossa cidade. Um dos jovens resumiu o colóquio assim: “Fiquei impressionado com a raiz da violência. As crianças da favela seguem os exemplos dos bandidos. Me afastei dos bailes. Prefiro ficar em casa vendo televisão ou vou para a praia. Mudei de endereço. Agora, estou morando com a minha tia para sair daquela situação de risco".

Percebemos durante o colóquio que a crise de identidade é a causa básica dos distúrbios de caráter e de comportamento e que, objetivamente, sustenta as contradições e os conflitos humanos. A falência dos sistemas econômico e financeiro, político, religioso e pedagógico ficaram tão evidentes que parecia que não havia mais nada a ser feito além de reconhecermos que fracassamos.

A experiência que tivemos evidenciou o descaso com a educação, o abandono a que os jovens foram atirados por um sistema agressivo e subserviente às castas privilegiadas.

Isso foi há doze anos e hoje ainda assistimos pessoas trabalhadoras e honestas sendo tratadas como se fossem intrusas na sociedade, espezinhadas em seus direitos, oprimidas pela sonegação de conhecimento, alijadas por identificação étnica e econômica.

As cenas em que Claudia é arrastada pelas ruas por um carro governamental, define muito bem o lugar em que o governo quer que fiquemos.

Ricardo Mezavila.


quinta-feira, 13 de março de 2014

O monstro dentro de você



Todo mundo já ouviu dizer, ou disse, que há um monstro dentro de cada um de nós. Isso significa que há desejos reprimidos, vidas insatisfeitas e rotinas maçantes pedindo mudança, exigindo urgência nas atitudes. Mas tem gente que alimenta o monstro de inércia, apatia e fraqueza. E, não demora, ele surge destemido para lutar contra o nada, para ferir quem estiver por perto, para depois voltar à caverna e miar como um gatinho diante da sua acomodação.

Um amigo contou que o monstro saiu de dentro dele procurando justiça com as próprias mãos, colocando em risco a sua integridade física e moral. Sem entender o que fazia, assim, de repente, numa explosão emocional e insana, ele decidiu vingar a sua filha que tinha sido assaltada. Saiu, quer dizer, o monstro saiu de casa, percorreu todo o quarteirão atrás do ladrão e, felizmente, segundo ele mesmo, não o encontrou. Ufa! Ainda bem.

Espiando pela janela da casa do amigo percebi que ele não é feliz, ele deixou de lado algumas coisas que a gente não pode perder enquanto envelhece, como por exemplo: a capacidade de gostar e de fazer o que se gostava e se fazia com prazer. O tempo passa de qualquer jeito, envelhecer não significa deixar de ser jovem, mas é saber que a juventude ainda permanece naquilo que ainda gostamos de fazer.

Esse monstro não existe dentro de ninguém, o que parece ser o monstro, não passa de uma compensação para as frustrações e arrependimentos, uma saída de emergência para quem está trancado dentro do apartamento em chamas. O monstro não quer caçar ladrões nas ruas, não quer ser o herói do dia, quando surge ele só está dizendo que não aguenta mais a passividade e a falta de perspectiva dele, o “monstro”.

A imagem que tenho é que o monstro se parece com aquilo que nos fizeram chamar de “o gigante adormecido”, a imagem de um gigante de pedra que vai se levantando devagar, fica sentado, depois de joelhos e, finalmente, se levanta como quem chegou para mudar e tomar conta de tudo. Essa imagem é positivamente bacana, fique com ela e esqueça a lenda do monstro e tudo fará mais sentido nos seus dias.


Ricardo Mezavila

terça-feira, 11 de março de 2014

Eike Batista pode acabar no Irajá

internet


Se a vaca pode ir para o brejo, Eike Batista pode ir para Irajá. Estiloso bairro da zona norte do Rio, que serviu de ambiente para a peça realista “Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá”, escrita por Fernando Mello, que narra a história de um viciado solitário e cheio de conflitos que sonha ser Greta Garbo, atriz sueca, eleita pelo instituto americano de cinema como a quinta maior lenda da sétima arte. Daí, “acabar no Irajá” virou bordão para, “quem diria”, um dia foi Greta Garbo.

Talvez parar no Irajá não seja nada se comparado ao fato de o empresário ter feito empréstimo de US$ 2 bilhões, tudo bem se fosse no BNDES, FMI, mas foi de um fundo soberano chamado Mubadala, que pertence a alguém, com todo o respeito, não me queira  mal porque sou gente boa, de nome Abu Dhali, com sede na United Arab Emirates.

Outro dia um amigo reclamou que vinha sofrendo ameaças de um agiota que cobrava duzentos paus que ele pegou de empréstimo. “Os “caras” ligam para a minha sogra ameaçando tomar a casa dela”, disse o amigo temeroso. Se os credores de Eike tiverem essa prática comum de cobrança aqui no Brasil, imaginem como o farão. Estamos todos correndo perigo. A ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), isso está nos jornais,  trabalha com a possibilidade de grupos extremistas tentarem impedir a Copa do mundo. Vai que esse grupo tem alguma coisa a ver com as dívidas do Eike.

Um amigo, assalariado como eu, disse que queria estar “pobre” como o empresário, pois mesmo assim seria rico. É verdade e é mentira. Podemos ser ricos sem dinheiro também, mas ninguém se importa em ter uma família unida, amigos AMIGOS, saúde, paz,  fé e uma cervejinha gelada aos domingos, até que percam tudo. Essa riqueza o dinheiro não compra, porque não tem preço, e nem todos os fundos soberanos do mundo são capazes de construir igual.

Ao Eike, mesmo que esteja quebrado, ou quebrando, peço que erga a cabeça, como nós no subúrbio costumamos fazer quando perdemos o emprego e somos despejados, que siga em frente com força nos braços, como fazemos quando estamos com nossos filhos no colo em um corredor de hospital público implorando atendimento, que tenha pensamentos positivos, como os nossos todas as noites quando vamos dormir e rezamos para que o amanhã não nos tire mais nada.

Ricardo Mezavila


domingo, 9 de março de 2014

Um dia chegamos às Índias

internet


Neste ano vão completar cinqüenta e cinco anos desde o meu nascimento, e me dei conta que há vinte e cinco eu estava vivo há trinta e que daqui a vinte e cinco, provavelmente, vou estar vivo por oitenta. O número vinte e cinco é determinante para todos nós, quando completamos essa idade sentimos os primeiros sinais de que o tempo está passando, tenho a certeza de que você que está lendo agora, se já completou vinte e cinco ouviu alguma coisa tipo: “Tá completando ¼ de século, hein!”. Pela primeira vez ficamos de cara com a velhice, mesmo que seja uma coisa distante.

Vinte e cinco anos partindo do zero é tranquilo, mas depois dos trinta começa a fazer efeito, deixa de ser simbólico e começa a ser realidade, o tempo começa naturalmente a  pesar no esqueleto, as horas depois do sono são acompanhadas de dores lombares, as letras vão ficando cada vez mais distantes dos olhos. Quando completamos vinte e cinco anos depois dos trinta temos de nos preparar para a próxima jornada com mais empenho e menos excessos.

Mas é bom lembrar que, com todos os cuidados inerentes ao tempo em que deixamos marcas dos nossos pés no chão da vida,  não podemos nunca ficar isolados dos prazeres, é importante também que a adrenalina seja lançada na corrente sanguínea de maneira positiva como: O calor do beijo, a ansiedade de esperar alguém, o primeiro dia no novo emprego, a consulta na lista do vestibular, a “tortura” nos corredores da maternidade.

Qualquer que seja a idade, importante é ter qualidade na vida social e pessoal. Se possível, fazer aquilo que dê prazer, participar do coletivo, ser minimamente conhecido no local onde mora, cuidar de animais, nunca se internar por conta própria nos inacabáveis dias de tédio, não ficar tão íntimo dos apresentadores e da programação das TVs.

Após o primeiro contato prematuro com a velhice, aos vinte e cinco anos, é comum outros clichês a cada ano de aniversário. A tão batida,  “Já tá dobrando o cabo das tormentas, hein!”, é uma das mais ouvidas. Mas cabe lembrar que o Cabo das Tormentas também é conhecido como Cabo da Boa Esperança, que os navegadores ao dobrá-lo perceberam que havia ligação entre os oceanos Atlântico e Índico e que por ali seria o caminho ideal para chegar às Índias.


Ricardo Mezavila