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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Dez mil fios de cabelos depois...



Ainda tenho a cabeça na União Soviética. Descobri isso ontem, quando me disseram, à noite, que Mikhail Gorbachev havia morrido. Fiquei espantado. Morreu? Mas eu não li nada sobre isso durante o dia todo! Disse isso com sentimento de alienação socialista, coisa impossível há duas década, mas que veio esfriando com os caminhos de anulação da condição da União Soviética de estado socialista.

Bem, quem morreu não foi o estadista condutor da Glasnost e Perestróica nos anos noventa, aliás nunca tive simpatia por ele e nem pelas reformas neoliberais que culminou com a queda do muro  de Berlim. Tudo bem, não sou a favor de muros, mas gostava de ficar com o pensamento do lado oriental. Se isso  alimentava minhas palavras com ideais marxistas, do outro também era alimento da guerra fria e isso nunca foi saudável.

Esclarecendo os fatos, quem morreu foi  Mikhail Kalashnikov projetista do fuzil AK-47. Mikhail tem uma história na política soviética, nasceu logo após a revolução de 1917, tendo sido convocado a integrar o exército vermelho em 1938. Recebeu muitas homenagens e comendas, incluindo a Ordem de Lênin e a de Herói do Trabalho Socialista. Incrível como o projeto que lhe deu fama e prestígio no século passado esteja nas mãos dos traficantes hoje.

Para simbolizar o que eu penso, ainda penso sobre política, eu queria que o senador  que viajou no avião da força aérea brasileira irregularmente para cuidar da vaidade capilar  devolvesse, além da verba relativa a passagem,  os dez mil fios de cabelos que implantou na sua cabeça vazia de espírito público, mas cheia de improbidade e desrespeito. Gorbachev não morreu não, né?


Ricardo Mezavila

domingo, 22 de dezembro de 2013

Tá faltando poeta no Rock




Nem só da pobreza econômica vivemos, temos também a carência estética e intelectual assolando a nossa cultura. Talvez a primeira frase, capaz de se transformar em literatura, dita em nossas fronteiras tenha sido : "Terra à vista!" A partir disso os piratas invadiram o nosso presépio e, até hoje, tentam nos convencer que o menino representado é branco, de olhos azuis e cabelos lisos.

Tá faltando poeta no rock, mas não falta poesia porque ela é matéria prima, assim como o diamante bruto, precisa de mãos para lapidar. Não é qualquer palavra escrita em uma sequencia métrica, isso é brita, a poesia é muito mais do que conjecturar uma ideia, é como voar sem asas, sonhar acordado, descobrir o descoberto.

Daqui a pouco Donato vai chegar e eu não quero que seja anunciado, porque Donato não é pessoa que se anuncie, disse Gil antes de compor A PAZ, com João Donato dormindo no sofá. É assim: A poesia não precisa se anunciar, ela vem pelas paredes do prédio, pelo sistema de esgoto da casa, pela porta dos fundos, pelas fechaduras e, às vezes, vem grudada na sola do sapato.

A poesia transcende a esfera do conhecimento lógico, é preterida pela preguiça porque o poeta nunca descansa, está sempre em movimento, ora contra, ora a favor, ora coisa nenhuma, mas sempre conectado com a possibilidade, sempre alerta ao barulho que pode anteceder a uma apoteose hermética, ou a uma erupção epidérmica provocando coceiras literárias.

Tá faltando poeta no rock, assim como tá faltando oxigênio limpo na atmosfera. Poesia é o ar puro que precisamos para que o corpo tenha uma conexão espiritual constante. É um presépio com meninos negros, reis nascidos operários e animais que representem a água, o ar e a terra. Por enquanto vou bebendo poesia no intervalo do sono de Donato.

Ricardo Mezavila

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Alto em cima!



Quem passa de metrô ou de trem entre as estações de Triagem e Maria da Graça vê um cenário desumano exposto às claras. Não tem como não ficar politicamente indignado e humanamente triste com a cena. Jovens em total estado de incivilidade, dominados pelas drogas, passam os dias dormindo-roubando-fumando, bem debaixo do nariz do poder público. Aquilo não é caso de polícia, é falta de socialização e de programas eficazes na educação pública. O que era para ser saudável e produtivo vira doença e improdutividade; o que era para ter beleza e alegria é distorcido pelo ambiente degradado. Pelo menos trezentos jovens vegetam à margem da ferrovia, socialmente invisíveis à sociedade, “protegidos” por plásticos e papelões em meio aos escombros e ratos.

O Brasil, desde sempre, prima pela incapacidade de reconstruir uma forma de reparar os erros históricos que vem desde o descobrimento. Fomos o país que mais escravizou e o último a abolir a escravidão oficial. Na Lapa, os escravos das drogas, ficam deitados no chão, pedem dinheiro, seguram as pessoas. A onda de violência e ataques de usuários de crack tem levado comerciantes a fecharem seus estabelecimentos.

Refleti sobre isso quando voltava da gravação do programa da Angélica. Os meninos da Casa do Menor Trabalhador foram convidados a participar do programa na companhia do cantor Naldo, que foi engraxate na instituição. Ele recordou dos tempos difíceis com a família, da grana curta, do preconceito e dos sonhos que ele nunca abandonou apesar das adversidades.

Os meninos ouviram com atenção, eles também têm sonhos, são pobres como o ídolo foi e convivem muito próximos da realidade daqueles outros jovens onde o sonho vai distante e viaja na fumaça das drogas.

No recorte socioeconômico a pirâmide social tem um novo retrato que considera além da renda, a escolaridade, o acesso a bens, a composição familiar e região, como indicadores de pobreza.

Na terra onde o rico, mesmo presidiário, continua no topo da pirâmide, com direito a se aposentar e trabalhar por um salário de vinte mil reais, fica difícil para quem vem das camadas menos privilegiadas chegar no alto e muito menos ficar por cima, como sugere o Naldo na música, em outro contexto.
               
Ricardo Mezavila

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Tempo não excede





Eu já disse um dia que: o futuro não se define no por fazer, não se resume no que virá, é algum lugar do tempo mas não o tempo presumível, não é o lugar visível, tenho fé no inatingível. O lugar de as coisas acontecerem não muda, tenha certeza de que você está no lugar e na hora em que deveria estar, o contrário disso é especulação e  desculpas para encobrir alguma falha como a preguiça ou a covardia.

Se os olhos estão vermelhos à noite e o sono parece um ágil pugilista desferindo golpes contra o seu fígado, jogue a toalha porque há limite para tudo. Siga a voz biológica que pela manhã, quando a luz do dia estiver dentro do seu quarto, seu corpo estará preservado e, provavelmente, um beijo e um abraço irá acontecer na lagoa dos travesseiros e dos edredons.

Is true, há limite para tudo. Os “vencedores” dizem que não, mas isso é propaganda. Claro que há o limite, a hora em que precisamos parar e refletir, sem perder o objetivo e a ambição, é uma estratégia natural que impede alguns sacrifícios desnecessários. O princípio de ontem sempre será a continuidade de hoje, mas o amanhã só virá na capacidade que tivermos em dosar a força, avaliar rumos, nos cuidados com o amor e na manutenção da saúde.

Saúde é ter pensamentos positivos mesmo quando há algum abalo temporário, alguma ausência de anticorpos. Esse período tem que ser cercado pelo mais poderoso remédio: a alegria. Não há ausência de saúde temporária que resista a uma risada, uma música, um papo, um caminhar de mãos dadas pelas ruas. Um sentimento inesperado de felicidade invade o organismo e o sangue transporta, cuidadosamente, as pérolas que colhemos na companhia dos amigos e da família.

A panela de pressão começou a “chiar” e se o fogo não for desligado, no tempo certo, vai queimar o feijão. O limite de as coisas acontecerem pode durar o tempo da panela, o tempo da sua expectativa, da sua fé, mas nunca o tempo excedente porque o tempo nunca excede, por isso precisamos acreditar nos limites.

Ricardo Mezavila

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

G.R.E.S. Manifestantes de Rua






Eles desfilam pelas ruas do centro da cidade e dividem-se em alas: mascarados, black bloc, vândalos, pixadores, baderneiros, anônimos e liberais. Fiéis ao enredo, repetem sempre o último desfile. Por onde passam as vidraças quebram de emoção, o patrimônio público é exaltado com palavras de ordem escritas nas paredes, serpentinas de pedras cobrem bancos e lojas, confetes de concreto e metal voam pelas esquinas em cima dos foliões fardados. Abrem o desfile as categorias de trabalhadores, passam pela avenida iluminada cantando refrões, carregam cartazes alegóricos com frases de efeito. São eles que não deixam o samba morrer, são os autênticos donos da festa. Há quem sinta saudade dos antigos carnavais, daquele tempo que não volta mais. A sensação é de que as coisas eram mais organizadas, a comunidade prevalecia, turistas eram minoria. Hoje o que vemos são estrangeiros infiltrados atravessando o ritmo. Não conhecem o samba e ficam abrindo a boca para disfarçar ou gritam em um idioma desconhecido. A escola não evolui porque a bateria não ensaia, cada um toca o que quer e quando quer. A harmonia do desfile é lenda urbana, todo mundo sabe que existe, mas nunca alguém viu. O que não muda é o perfume que vem dos camarotes. A elite governamental assiste a tudo do alto do seu desgoverno, influenciam nas notas dos quesitos, favorecendo os jurados com um benefício aqui e outro ali, e eles votam na escola preferida do contraventor oficial. Tem muito gringo nesse samba! A verdadeira raiz das manifestações precisa tomar, definitivamente, a bandeira da mão dos falsos passistas. O povo, como sempre, se aglomera nos lugares mais baratos ou assiste de casa pela televisão, que capta o que interessa para esvaziar ainda mais o nosso já tão desmanchado carnaval. Chegou a hora, não podemos mais aceitar o argumento, nem deixar que o samba seja alterado tanto assim. A nossa rapaziada está sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim.

Ricardo Mezavila.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A mão do anjo

internet



Segure na mão desse anjo que está aí do seu lado. Ele é invisível somente aos olhos, fique certo de que você é capaz de enxergar de outra maneira. Acredite naquilo que você sente mesmo que não esteja vendo. Se ele está aí é porque quer te dizer alguma coisa, ouça-o dentro do silêncio dos seus ouvidos, intelectualize sem perder a pureza e tente seguir a sua descoberta. Agora vá lá e mostre que o teu trabalho é necessário e que todos precisam da tua coragem. 

Quando estiver indo não hesite, mas também não foque somente na chegada. As entrelinhas, assim como as margens, tem muito a dizer quando se está caminhando. Vá por onde veio, siga o mesmo caminho que te trouxe até aqui. Não ignore as mensagens que saltarão à sua frente, perceba que as marcas dos teus passos ainda estão no chão e elas podem ser o guia, a palavra que você está querendo ouvir dentro daquele livro que você está precisando ler.

Continue firme no teu caminho e não acredite em quem não se acredita; não valorize quem não se valoriza; não alimente quem não se alimenta; não sustente quem não se sustenta; não ame quem não se ama. Isso são pedras ilusórias que não podem estar presentes quando se busca viver a realidade. Se tropeçar em alguma, aperte “aquele” botão e siga com determinação que nada será capaz de fazer com que você caia ou desista.

Se acontecer a fraqueza, um instante que seja, é bom pensar nas coisas que te fizeram e ainda te fazem bem. Pense na alegria que você sentiu quando seu filho nasceu; na surpresa que foi a festa do seu aniversário; no orgulho que seus pais sentiram quando você se formou; na ansiedade do primeiro beijo; na música que te acalma porque faz com que você viaje para uma época da sua vida; mas pense, principalmente, que tudo isso está vivo ainda nos seus dias, que é só saber buscar.

Quando a tempestade não passar de um copo d’agua, beba-a com vontade e voe com as asas que acabaram de se abrir junto com o teu sorriso. As coisas mais simples são as mais difíceis quando buscamos beleza e realização fora delas. Tudo o que você precisa é conviver melhor consigo mesmo. Divirta-se com tudo e aproveite enquanto puder, queremos lembrar de você sempre sorrindo, contagiando de luz os corações que vivem ao seu lado.


Ricardo Mezavila

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Velhice, Ditadura e Bieber


taquarituba


Tudo o que a mídia quer ela pode! Algo parecido com “tudo posso naquele que me fortalece”, ou outra frase bíblica qualquer que o valha. Mas a inconsequência advinda de seus deuses mitológicos beira à estupidez, quer dizer, é soterrada por ela. Valores são distorcidos e retorcidos como aquela estrutura metálica destruída pelo tornado em Taquarituba.

O astro, “mito” mirim, Bieber, fará um show no Rio em novembro, e adolescentes já estão acampados para assegurarem os melhores lugares, mas ainda estamos em setembro. O melhor lugar seria suas casas, ao lado de suas famílias. Não é conveniente que fiquem desprotegidos ao relento. O que eles esperam conseguir depois que as luzes do show apagarem e a voz do boy silenciar na acústica do sambódromo? Para uma coisa eles estão sendo aproveitados: A notícia! O que aqueles meninos tem para dizer que possa ser acrescentado à sociedade? Desconfio que seja estratégia de marketing dos empresários de Bieber.

Ali perto, na Tijuca, o deputado federal Jair, um exemplo do legado da ditadura militar, tentou invadir um evento que resgatava a memória dos tempos obscuros do período da vergonha brasileira, quando juntas militares esgotavam seus estoques de covardia e crueldade para calar a democracia com torturas. O deputado deu um soco em um senador, tudo bem que eles se merecem, mas a legitimidade do ato que ali acontecia dispensava a cobertura e a importância que a imprensa deu, o que acabou relegando o verdadeiro motivo daquele encontro para um campo menor.

A mídia me fez lembrar de um amigo que disse: “minha avó tem noventa anos e consegue colocar o pé na cabeça”. Isso é fantástico do ponto de vista físico, mas é patético se imaginarmos uma senhora com um pé na cabeça. Os idosos não são valorizados pela experiência que adquiriram e que podem passar para as gerações, mas pelas coisas que eles ainda conseguem fazer, apesar da idade. Podem reparar que todas as matérias de superação de idosos que a mídia divulga falam de velhinhos e velhinhas que dançam, correm, andam de bicicleta e namoram. Legal e ao mesmo tempo fútil. Queria ver os idosos, do alto de suas experiências e sabedoria, transmitindo seus conhecimentos.

A única coisa que penso aproveitar é a estratégia “dos caras” do cantorzinho americano, quem sabe dá para vender algum livro.

Ricardo Mezavila


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

About Rock' n Roll

Ghost


Não tem como explicar! Essa expressão é comum quando alguém que gosta, aliás, “ama o rock”, se refere ao som das guitarras, bateria, baixo e das vozes das bandas. Parece clichê e é, mas também é uma verdade autêntica. Diferente dos outros ritmos, o rock é uma onda vinda de um oceano paralelo que nunca quebra na praia, porque o vento que sopra essa onda nasce de um acorde e não do deslocamento do ar; a onda do rock é intransponível, impossível tentar quebra-la.

Os músicos de rock são anjos de chifres e demônios de asas, com todo respeito à religião, mas o rock é ateu e por isso se veste de figuras pouco ortodoxas, estão no imaginário livre e se vestem com a ira da anarquia e com a doçura da tempestade. This is rock’n roll !

A banda sueca “Ghost” fez uma apresentação no Rock’n Rio para muitos assustadora. Usam visual obscuro em suas apresentações e parecem apologistas satânicos. Isso porque o estilo musical é demonizado pela igreja e o rock, inteligente, aproveita para ironizar este estigma com irreverência e criar uma vibração, vibe, que se apodera dos “espíritos” de todos que assistem apresentações de bandas assim.

Quando a banda deu entrevista no estúdio do MultiShow, surpreendeu quando disse que a influência da banda são os Beatles e o grupo ABBA. Então vocês querem dizer que ouvem sons “comportadinhos” em casa ? É isso aí mesmo, o rock é um estilo, não é uma seita como muitos pregam, ou um grupo de loucos perversos e maus que querem esculhambar com a sociedade. O rock é um instrumento que tem nas notas e nas letras a sensação de que somos, ou se não somos, podemos ser livres.

É, não tem como explicar!

Ricardo Mezavila