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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os olhos vendados da verdade


rubens paiva


No Brasil existe uma tal ”Comissão Nacional da Verdade”, que visa investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 no Brasil por agentes do estado. Os membros dessa comissão atuam no esclarecimento dos fatos obscuros de tortura e mortes no período da ditadura. Ao final das investigações publicam um relatório dos principais achados, que podem vir a público ou ficar apenas na esfera governamental. Quer dizer, mesmo investigando os arquivos das trevas e trazendo luz ao caso, ainda vão sofrer algum tipo de censura.

Outra, a comissão é para convocar acusados e vítimas para depoimentos, mas sem caráter obrigatório; pesquisa todos os arquivos do poder público do período investigado, mas sem poder de punição ou mesmo de recomendar que os órgãos competentes o façam. O objetivo principal dessa comissão é colaborar com o poder público nas apurações, uma espécie de: “arruma uma vaguinha para o meu sobrinho!”.

A comissão foi criada em 2010, mas passou por diversas mudanças, principalmente para atender os militares. Eles se queixaram do termo “repressão política”, a comissão a retirou do dicionário. Outro termo que foi abolido foi “apuração de violação” e passou carinhosamente para “exame de violação”. Quando surgiu a ideia das investigações era para apurar fatos do período da ditadura militar entre 1964 a 1985, mas, atendendo aos anseios dos investigados e para dispersar a verdade, partiram do ano de 1946 e fizeram um “puxadinho” até 1988.

Para “surpresa” geral a comissão divulgou a óbvia e notória conclusão de que o deputado federal Rubens Paiva morreu em conseqüência de tortura, a qual foi covardemente vítima, nas instalações do Departamento de Operações e Informações (Centro de Operações de Defesa Interna – DOI-CODI). O relato foi feito pelos próprios assassinos, agentes da repressão que o prenderam.

Comissão Nacional da Verdade, os nomes dos assassinos estão na mesa de quem?


Ricardo Mezavila

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Eu, Tom e Bob






Fui assistir, na Lagoa, o campeonato mundial de Skate. Eu, ex-skatista orgânico, que descia a ladeira da rua Tenente Costa na década de 1970, uma das primeiras pistas de rua do Rio de Janeiro, segundo matéria do Globo Esporte e gostei muito do que vi. Com organização perfeita e pistas com rampas altíssimas, os meninos faziam acrobacias de tirar o fôlego.

Fiquei impressionado com a popularidade de Tom Schaa, um menino norte americano, de dezesseis anos, distribuía autógrafos nos skates de seus fãs que faziam enorme fila para conseguir a atenção do ídolo mirim. Outro famoso que estava lá era Bob Burniquist esse, brasileiro, experiente, trinta e sete anos, várias vezes campeão mundial.

No entorno da competição, vários jovens curtiam seus skates nas pistas da Lagoa, alguns não tão jovens faziam do domingo uma volta ao passado. Lembrei dos campeonatos que eram realizados na Quinta da Boa Vista. Notei algumas diferenças entre as épocas, os skates hoje são infinitamente superiores aos de antes, os designers facilitam os movimentos, são maiores e mais resistentes.

Outra diferença foi a música que embalava o evento da Lagoa: hip-hop. No “meu” tempo era rock’n roll pesado. Li em uma matéria que os praticantes de antigamente eram “grungers”, o que não é verdade. Não havia nada de “underground” no comportamento da rapaziada.

O sol brilhava o que fazia o momento ainda mais especial. Fiquei observando as pessoas e pensei de como é uma afronta, falta de respeito com quem morreu, as pessoas deixarem de ser felizes por mesquinharia. É indigna a pessoa saudável reclamar por coisa nenhuma e amiúde. Pensei nos jovens da tragédia de Santa Maria, e de como os que ali estavam se pareciam com eles.

Precisamos viver com alegria, aproveitando a doçura dos momentos, sentir-se vencedor por ter vivido e feito brilhar “aquele” instante. Como nesta frase de um skatista anônimo: “Andar de skate é tomar impulso, atravessar a rua, subir e descer calçadas, dropar de um lugar alto, improvisar, equilibrar, saber cair e depois levantar.”


Ricardo Mezavila

 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

E Sarney chorou...



   
               
Ele voltou! Cinco anos após ter renunciado à presidência do senado para evitar cassação, Renan é reconduzido ao posto por seus pares, mesmo tendo apresentado notas fiscais falsas, ter desviado verbas que poderiam estar na educação, ele está de volta, como um mártir ele vai presidir novamente o senado. Peculatos e falsidades ideológicas à parte, o Brasil está tendo o que merece. O senador Fernando Collor quer agilizar uma representação do senado contra o procurador que acusou Renan para que ele nunca mais acuse um senador. “O tempo é o senhor da razão” era a frase na camisa de Fernando em 1992. O tempo deve estar com Alzheimer.

A história tinha que resgatar outros vilões injustamente “demonizados”, eles teriam a oportunidade de mostrar que não eram tão maus. Aliás, o termo “vilão” na idade média era dado a uma pessoa que habitava em vilas, não pertenciam à nobreza. Hoje o termo é atribuído a quem é desonesto e indigno, só que agora pertencem às elites.

Adolf Hittler, o alemão que era austríaco e dublê de Charles Chaplin, se fosse julgado pelo senado brasileiro seria absolvido e seus perseguidores seriam cassados para que nunca mais o acusassem e o responsabilizassem pela morte de seis milhões de pessoas. O mesmo aconteceria se Átila, o Huno, fosse acusado de forjar documentos falsos, seria inocentado pelo corporativismo mesmo tendo o apelido de “praga de Deus”. Os senadores são tão bonzinhos! Diria Kate Lyra certamente.

O Partido dos Trabalhadores é como um menino que fica escutando conversa de adulto e aprende a fazer coisas que ainda não deveria fazer. De tanto encher o saco ganhou um brinquedo, a presidência da república, para se divertir e ficar distraído, enquanto os adultos continuam a conversa sem que o menino ouça, veja ou fale alguma coisa. Tenho saudades das inconveniências desse menino de macacão e atiradeira nas mãos.

Sarney, o “transparente” chorou ao se despedir do cargo de presidente do senado. “Tadinho”!

Ricardo Mezavila

Pra ler nas entrelinhas




Existem dois Ramalhos que me influenciaram distintamente. Coincidência ou não, os dois tem por nome José. O músico Zé Ramalho da Paraíba, “O Bob Dylan do sertão”, e o José Antonio Ramalho, autor de vários livros de linguagens para computador entre outros. O Primeiro José eu vi quando debutou no Teatro Ipanema, em um show onde tocou as músicas de seu primeiro disco Long Play, “Avôhai”, “Vila do Sossego” e “Chão de Giz”, ficamos todos “ligadaços” – nesse sentido mesmo que você está pensando.

O escritor dos livros, o segundo José, veio em uma época já distante dos acordes de “A peleja do Diabo com o dono do Céu”, longe dos shows e das visões coloridas dos palcos, das metáforas “ramalianas” e da poesia do xará mais famoso. Eram dias difíceis de desemprego e toneladas de sacos de responsabilidade para carregar nos ombros.

Mas, dias difíceis fazem parte da vida, nem tudo é só flores ou só espinhos. As rosas ficam mais desejadas e bonitas pela presença dos espinhos, na dificuldade de tocá-las sem ferir-se. Os perigos que rondam os dias também podem fazer com que eles sejam mais interessantes. Às vezes tratar um problema de frente, mesmo com a ameaça de uma grande ferida, pode valer mais a pena do que os pequenos arranhões que vão avançando lentamente, sangrando com o movimento do ponteiro do relógio.

A iluminação do show brilha mais quando os olhos aprendem a lição do escuro. Quando aprendem que na presença da luz a voz denuncia, na sua ausência se cala. O silencio do escuro não significa que não vai haver música, ou que a luz é necessária para que o artista suba no palco. O silencio só quer dizer que o momento do intervalo é quando realmente o show acontece.

Pois é, de Zé a Zé “Ramalhei” muito. O livro - Clipper 5, volume 1, release 5.2 -  foi meu “travesseiro” quando lecionava em cursinhos de informática para pagar as contas. As linhas melódicas de “Vida de Gado”, nesse contexto, encaixariam ritmicamente nas linhas dos códigos de comandos do livro do “Ramalhão”.


Ricardo Mezavila

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

“Vejo um espírito subindo da terra”


samuel aparece para saul


Em recente comemoração por ter feito gol, o jogador uruguaio Lodeiro, tirou a chuteira, levou-a ao ouvido e simulou estar falando ao telefone. Perguntado, após o jogo, o que aquilo significava ele respondeu que estava falando com seu pai, falecido há pouco mais de um ano.

É simbolismo, porém de grande valor sentimental. Podemos nos comunicar com nossos mortos através da ferramenta que utilizamos. Eu por exemplo posso me comunicar com meus pais através de uma caneta; o guarda de trânsito pode usar o apito; o açougueiro, a faca; o médico, o estetoscópio; o professor, o apagador; o juiz, o martelo; o pedreiro, a colher, e por aí vai...

A comunicação com os mortos é uma ideia antiga que consta em passagens na Bíblia: “Samuel tinha morrido. Todo o Israel participara dos funerais, e o enterraram em Ramá, sua cidade. De outro lado, Saul tinha expulsado do país os necromantes (quem fala com os espíritos) e adivinhos. Os filisteus se concentraram e acamparam em Sunam. Saul reuniu todo o Israel e acamparam em Gelboé. Quando viu o acampamento dos filisteus, Saul teve medo e começou a tremer.. Então Saul disse a seus servos:"Procurem uma necromante, para que eu faça uma consulta"

Saul se disfarçou, vestiu roupa de outro, e à noite, acompanhado de dois homens, foi encontrar-se com a mulher e disse: "Quero que você me adivinhe o futuro, evocando os mortos. Faça aparecer a pessoa que eu lhe disser.” A mulher perguntou: "Quem você quer que eu chame?" Saul respondeu: "Chame Samuel"

A mulher viu Samuel aparecer. “Vejo um espírito subindo da terra". Saul perguntou: "Qual é a aparência dele?" A mulher respondeu: "É a de um ancião que sobe, vestido com um manto". Então Saul compreendeu que era Samuel, e se prostrou com o rosto por terra.

Alimentar a saudade, apesar de parecer masoquismo, é uma atitude saudável que devia ser entendida mais racionalmente. Saudade nunca pode ser sofrimento, mas a busca da permanência do amor.

Ricardo Mezavila

Uma Estrela dentro da Estrela


BFR

A verdadeira transformação não está em mudar as coisas, sair da preferência comum e passar para o oposto, ter uma opinião por minuto, nadar contra a correnteza, organizar movimentos e resistir na trincheira. Transformar é muito mais do que somente discursos, mais do que dialética, não é uma guerra tradicional onde o inimigo defende outras cores.

A transformação está em ler um livro e escrever outro no mesmo livro, está em contar uma história dentro da própria história, fazer carnaval dentro do carnaval, compor uma canção no intervalo de outra, conversar com o espelho, ter um coração batendo dentro do coração.

Assim, transformando sem perder, atingimos o fundo de tudo e emergimos sempre com novidades. Desfrutando do que existe para ser desfrutado, amando o que é amado, vivemos intensamente a vida dentro da vida.

A intensidade como vemos e fazemos as coisas faz o sangue divertir-se pelo corpo, brincando com as artérias, aliviando as pressões. Faz brilhar um sol dentro do sol, um dia dentro do mesmo dia.

Assim é o Torcedor do Botafogo: uma paixão dentro da paixão, um Fogo dentro do Fogo, uma Estrela dentro da Estrela.

Saudações Alvinegras!

Ricardo Mezavila

domingo, 27 de janeiro de 2013

Durma com um barulho desses! (Santa Maria)





Tem dias em que o que a gente mais quer é dormir e esquecer a música que tocou em nossa cabeça durante todo dia. Se for algo como Summertime, com Billie Holiday, não tem problema, o sono é até tranqüilo e calmo, mas se for um “batidão” ou “sertanejo”...

Às vezes não tem como evitar. Estamos caminhando desprevenidos e um carro passa com o som alto e a música entra na cabeça e fica ali, escondida. Até tentamos expulsá-la com pensamentos sobre a história da bossa nova, os poemas de Neruda , a biografia do Cartola, o filme sobre Heleno, o livro do Ricardo Kotscho, mentalizamos Georgia on my mind, mas não tem jeito.

Algumas vezes, não são as músicas que ficam latejando na nossa cabeça o dia todo. Barack Obama, em discurso, disse que todos são iguais nos Estados Unidos da América: Negros, Gays e Imigrantes. Então tá, Obama! Vou pensar que isso é verdade, assim posso acabar acreditando que José Genoino vai perder o mandato e Renan Calheiros não volta para o senado.

Enquanto vou tentando ouvir vozes amigas e agradáveis, ouvir as histórias do Tropicalismo, as influências musicais do Led Zeppelin, o som Delta Blues de Bukka White, fico sabendo de uma tragédia na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Duzentos e quarenta e cinco jovens morreram por asfixia em uma boate ironicamente chamada Kiss (beijo). Uma banda fez um show pirotécnico no palco e deu início a um incêndio.

Não há como dormir com um barulho desses. Antes fosse Michel Teló!



Ricardo Mezavila

sábado, 26 de janeiro de 2013

Estou criando meu "pai"






Coisas de avô! Com essa expressão vou entendendo, ou tentando entender alguns fatos decorrentes da patente. O convívio diário, agora nas férias, com meu neto, que tem imaginação fértil e ao mesmo tempo é crítico, tem me dado a impressão de que o tempo está “pirado”. Como explicar a vontade de sair por aí imitando um galo? Nunca fui convencionalmente adulto, tecnicamente sim. Desde sempre não tenho a formalidade cronológica ali, encaixada com a idade.

Lembro da minha avó, Vicentina, falando que meu pai era um menino exigente. – “Rivail era chato!” Era assim que ela falava. Dizia isso com orgulho, porque o “velho” era organizado. Hoje, o Guilherme, meu neto, é mais ou menos como ele. Então posso pensar que estou criando o meu “pai”. Imaginação é o que não falta quando começo a tocar as palavras.

Até agora ele aprendeu a andar de bicicleta, a pescar, andar na chuva e a gostar de comer alface. Eu aprendi a jogar plantas vs zumbis, sei a diferença entre um trem feio e um bonito, a cantar Amor de Chocolate, do Naldo e aumentei o repertório de imitações, agora eu sei imitar porco e sapo. E assim vamos ensinando e aprendendo um com o outro em sintonia com o tempo.

Antigamente os avós eram mais velhos, ainda são, mas vejo uma legião de vovôs e vovós fazendo coisas que os nossos não faziam. Eu não consigo imaginar meu avô soltando pipa ou jogando futebol. Quando eu nasci ele tinha mais de sessenta anos. Hoje vivemos mais e com qualidade superior, segundo pesquisas. Outro fator é que não temos como optar entre ser avô ou não. Então, um dia, aquele moleque ou aquela pirralha, com a cara de culpa chega para voce e anuncia que vai ter um filho.

Aconselho aos vovôs e vovós precoces a aprenderem com os netos, eles precisam ensinar, passar toda a sua “experiência” para nós. Assim a gente se aproxima, ludicamente, da nossa infância, acaricia a memória e desperta para o sonho.

Making off
No telefone:
Avó: Netinho venha me visitar, a vovó está com saudades.
Neto: Ok  vó, qualquer dia passo ai.
Vovó: Ta bom é para vir Hein! (sei que ele nunca passa)


Ricardo Mezavila

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Eu sou o punk dentro do museu do índio





Os índios, em 1500, foram expropriados por Cabral. Em 2013 os índios correm o risco de expropriação, por Cabral. Que sina a dos índios! Entre um Cabral e outro, quais foram os benefícios e direitos que eles conquistaram? Só se tem notícia de perdas. Seus territórios foram dizimados e as aldeias viraram guetos. O homem branco com sua cultura foi capitalizando a riqueza natural através da força das leis e, muitas vezes, das armas.

Muitos índios migraram para as cidades e tentam sobreviver como pássaros em cativeiro. A razão pelo qual chegaram até aqui está na desocupação de suas terras, que os empurrou para a margem da sociedade tecnologicamente desenvolvida.

Muitas organizações civis e governamentais, junto com os “avulsos” de plantão, sempre que podem aproveitar uma situação estão lá, como paladinos e porta-vozes das minorias desprotegidas e exploradas. É o caso, aqui no Rio de Janeiro, dos defensores dos habitantes da “Aldeia Maracanã”, localizada em pleno centro urbano em um antigo prédio onde funcionava o museu do índio (transferido para Botafogo).

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM) se coloca ao lado da comunidade que vide na aldeia e contra a demolição do prédio. O presidente da Fundação Darcy Ribeiro, afirmou que existe um documento de 1865, onde o príncipe Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha (1845-1907) — conhecido como 'duque de Saxe',  exigiu, ad eternum, que o terreno deveria ser utilizado com finalidade de apoio 'à causa dos índios'.

Algumas aldeias indígenas têm como cultura e tradição comum o infanticídio, que é pouco conhecido por aqui, e que tem provocado polêmica no país. Ainda hoje é possível encontrar índios que sacrificam crianças gêmeas, deficientes ou até filhos de mãe solteira. No código penal brasileiro isso se chama crime.

Todos sabemos que a desocupação é por conta da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos em 2016, que serão realizados no Rio de Janeiro. O espaço vem atender às exigências da engenharia para que, o complexo do Maracanã e adjacências, sejam reformulados e atendam as normas do projeto urbano e da Federação Internacional de Futebol (FIFA).

Eu considero essa polêmica bastante delicada porque, de um lado estão os indefesos índios historicamente usurpados, mas que possuem algumas crenças e práticas duvidosas e, do outro lado, o poder branco com sua riqueza e com o legado do desenvolvimento que os eventos trarão para toda a cidade. Eu sou aquele “PUNK” (ad eternum) que estendeu uma rede lá no prédio do antigo museu, que passa o dia escrevendo poesia, bebendo cerveja e olhando a cultura branca desfilando seus carros oficiais.

Ricardo Mezavila

domingo, 6 de janeiro de 2013

Em alguma frase desse texto


by internet


Todo mundo, um dia, esteve no topo e não teve consciência disso. Acontece que, quando a gente está no topo, nunca acredita que ali, diante daquelas coisas que acontecem, o reconhecimento notório e tapinhas nas costas possam significar que, finalmente, a gente chegou lá. Eu estive no topo e também não sabia.

Estive no topo das questões sociais, nas tomadas de decisões, na febre dos dias que nunca terminavam, das reuniões infindáveis e das polêmicas vazias. Eu estive no topo daquilo que queria e não me dei conta disso, não tive uma colocação prévia onde pudesse eternizar o momento, no máximo algumas comemorações festivas e nada mais. Isso acontece quando estamos no topo e acreditamos que isso não passa de uma ideologia, uma obrigação com a sociedade.

A gente está no topo quando está em paz, está com a família, com aqueles que a gente sente alguma coisa muito maior do que as palavras podem expressar agora; Estamos no topo quando dormimos e acordamos com um sorriso de integridade e digno; Estamos no topo quando concebemos chorar em uma cena de filme porque nos fez lembrar um momento de felicidade.

Eu estive no topo quando aprendia a cantar os sambas que minha cantava; quando esperava meu pai chegar em casa, à noite, para desejar boa noite e dormir com o paladar das balas que ele trazia; quando trocava o apelido de um colega pelo seu nome próprio para não constranger; quando peneirava a gaveta do quarto dos meus pais atrás dos recortes das trovas publicadas nos jornais, aos domingos, que minha mãe colecionava.

Eu, agora, neste momento, estou no topo, no auge da minha existência, no contexto do bordado em meio aos retalhos que escolhi para costurar a minha roupa nova, o meu texto engavetado, o grito que sai da minha boca e, como um solo, chega como música aos ouvidos de quem acaba de se encontrar em alguma frase desse texto.

Ricardo Mezavila