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domingo, 25 de novembro de 2012

Eram os Homens Alienígenas?





O homem é o alienígena que habita o planeta Terra. Quem diria, hein? Aquele vizinho que voce considera estranho, mal educado, que bate o portão na sua cara; o motorista de ônibus que não respeita as leis de trânsito e ignora idosos nos pontos; o policial militar que atira em tudo o que se move; o senador que considera o peculato ofício da administração pública. São todos tão ET’s quanto nós.

Os donos, por direito, deste planeta que se encontra no sistema solar e está bem próximo ao sol, cerca de 150 milhões de quilômetros; que, aparentemente é um planeta ondulado, mas  possui os polos achatados por causa do movimento que realiza em torno de si mesmo, seus verdadeiros habitantes vivem em uma espécie de “biosfera-sombra”, ou seja, vivem em microorganismos invisíveis, à margem da realidade que vemos.

Além de intrusos, somos despreparados e desmerecedores de tamanha riqueza, de tanta beleza natural. Agredimos o que não é nosso, desapropriamos e devastamos sem a menor cerimônia. Queimamos e poluímos. A história fala que estivemos aqui de forma primitiva. Eu tenho dúvidas, porque primitivo é secar rios, derrubar árvores, despejar produtos químicos nos lagos, lançar fumaça tóxica no ambiente.

Fomos convidados ou nos atiraram aqui? Será que viajamos em uma rocha, como a AHL84001 que caiu na Terra vinda de Marte? Temos muitas dúvidas e crenças. Não se tem duas respostas para uma mesma pergunta, se houver, uma tem que ser, irrefutavelmente, falsa. Mas com tantas respostas por aí para uma só pergunta, com tantos interesses religiosos e capitalistas envolvidos, não nos encontramos. E aí, de onde viemos? Para onde vamos? E o pior é que estamos aqui e não sabemos o porque.

Uma coisa parece certa, um alienígena não precisa ser, necessariamente, um ser gigante, ele pode ser um micróbio, algo fora da cadeia dos organismos vivos conhecidos, que vive na lama, como as crianças brincando entre esgotos a céu aberto, por exemplo. Assim como Deus pode não ser uma energia, ele pode estar sentado bem de baixo de nossos narizes e a gente não se deu conta disso. As perguntas, as mais impossíveis de serem respondidas, podem estar no sorriso e na inocência e não nas equações da ciência, nas cruzes levantadas pelo clero, ou na ponta nuclear de uma ogiva.

Ricardo Mezavila

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Procuram-se Virgens





Ou tem alguma coisa errada nos valores éticos, ou estou ficando moralista ou burro e, moralista eu sei que não sou. Este final de semana foi marcado pelas provas do ENEM, que equivale aos sonhos de uma geração de poder entrar na universidade, construir uma carreira que seja digna e, ao mesmo tempo, útil para sua vida profissional e para toda a sociedade. Andei pelas ruas e vi a pressa dos meninos em chegar a tempo no local da prova, alguns  pais ajudavam na tarefa de carregar o futuro nas mochilas.

O Brasil é um país onde sonhar custa caro, como se sonhar não fosse propriedade privada livre de impostos. O governo, com suas políticas empobrecidas socialmente onera a vida dos humildes impondo sacrifícios que, em qualquer outra circunstancia, não teriam a carga e o peso que tem sobre os ombros da juventude.

Em Santa Catarina uma jovem leiloa a sua virgindade e vira celebridade. A menina, vítima da educação que lhe foi oferecida, recriou uma das barbáries medievais quando o “cabaço” era moeda de troca entre famílias e a mulher era tratada como mercadoria. No Irã mulheres são colocadas nas vitrines para leilão, nesse caso quando os homens descobrem que elas não são mais virgens.

A virgindade esteve presente na história como moeda em troca de bens, terras e prestígio. A  igreja apoiava e, devia levar algum, pois prega o celibato antes do casamento. Evoluindo no tempo, a virgindade foi bandeira nas conquistas pelos direitos das mulheres na sociedade.

Os pais da moça, apesar de não concordarem, afirmaram que apoiam a decisão da filha. Outros que defendem a estudante argumentam que a virgindade deixou de ser tabu e que, por isso, não há nada de errado no modo como a pessoa decide fazer sexo pela primeira vez.

Errado ou certo? Tanto faz a resposta, mas fico imaginando a comunidade internacional estereotipando o nosso comportamento, que já tem o carimbo do turismo sexual. A jovem que negociou a virgindade, um japonês deu o lance máximo, será estrela de um evento de moda no Rio ao lado do ator Rodrigo Lombardi que, ironicamente, participa de uma novela onde o tema do tráfico de pessoas e a escravidão sexual são abordados como denúncia. A direção do evento disse que a participação da mulher mercadoria é uma “ode à liberdade”. É, eu sou burro!

Ricardo Mezavila

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Malandro das Letras




Tem pessoas que nascem para ser poeta e outras para ser poesia. Assim, desta forma difícil de explicar, existe um hiato, uma centelha, um estalo, um corisco, uma faísca, um cheiro, que surge de repente e que vai embora do mesmo jeito. Chega do nada como abelhas que polinizam as flores; a semente se instala em algum lugar, que pode ser na nascente do sangue, no tecido da pele, no contorno do coração ou no fio invisível que dá movimento ao corpo.

Eu comecei a escrever ouvindo a poesia que as pessoas sentiam, mas não escreviam. Ainda escrevo por isso: um vento, uma palavra, um olhar. Nasci homem, mas sou máquina, meus dedos são teclas de letras, meu pensamento é um oásis que vive daquilo que não é escrito. Sou poeta, malandro das letras. Meu terno branco é o farol e faço do meu chapéu um banquinho para sentar na esquina e olhar os dias.

Às vezes o silencio do vento traz as nuvens da inspiração e, com elas, o som da tempestade faz vibrar com calma os relâmpagos por cima da rotina. Depois tudo segue normal, dentro da ordem das sombras, nos passos das horas, na moral dos sonhos permitidos, nas reflexões irrefutáveis e na bagunça da natureza mal vestida.

O poeta e a preguiça são da mesma laia, farinha do mesmo saco. E é aí que o malandro aproveita, porque é da mesma linhagem, e faz uma arrumação com as palavras, deixando a casa bonita e arrumada para receber visitas. Um esfregão aqui, uma flanelada ali, um tapete de boas vindas na porta, joga o lixo fora e... tá tudo certo.

O poeta e a poesia são gêmeos fecundados nas estrelas, filhos do universo. Existem nas inexistências, são fatos que não acontecem de fato, brotam do vazio e se espalham pelo chão de verbos formando estradas. O poeta é o fogo, a catimba, o malandro; a poesia é a fumaça, a elegância e o divino.

Ricardo Mezavila


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Parei em "Have in All"

internet





Acho que, por estar sem beber, as coisas que eu faço, nos lugares que fazia bebendo, ficaram diferentes. Alguns assuntos ficaram mais claros e outros nem tanto. As pessoas não se importam com a minha garrafa de água e continuam filosofando como se eu estivesse entendendo. Já aconteceu, alguns anos antes, de um bêbado conversar comigo e, por mais que eu me esforçasse, não entendia o que ele dizia. Lá pelas tantas, depois de “várias”, comecei a entender e essa foi a senha para eu parar e ir embora.

De qualquer maneira, mesmo na abstinência, aprendi a me divertir com água e refrigerante. Os lugares ficaram até mais divertidos com a minha percepção mais aguçada para as coisas da noite. Ontem fui a um bar com videokê e foi bem divertido assistir o inacreditável show de ego dos cantores. Havia uma dupla que apelidei de “Os cabeçudos cantores de Crato”. Eles cantaram umas trinta músicas internacionais e, quanto mais eu aplaudia, mais eles cantavam, para desespero dos meus acompanhantes.

Outra dupla de cantantes “The Fat Blonde Sisters”, arrasaram cantando Ana Carolina e Elis Regina. Ao lado da nossa mesa estava a melhor banda, a mais animada “The Boys and Girls From Hells”, o grupo diversificava os gêneros musicais, cantavam samba, rock nacional, forró, com qualidade, preciso registrar aqui o talento da banda; Sem falar a síndrome de Nubia Lafayete, que ocorreu perto de onde a gente estava.

Enquanto cantava uma canção “Os Cabeçudos Cantores de Crato” cantaram a frase:“have in all” (tem em todos) e, mesmo sem entender o que estava cantando, olhou para mim e apontou o dedo, como que querendo passar aquela mensagem. Eu estava sob o efeito da água, ou seja, sem efeito lisérgico, por isso entendi a relevância do gesto e fiquei a tentar desvendar o mistério da mensagem transmitida pela grande cabeça cratense.

Falando de abstinência e mensagens, é oportuno lembrar que Buda, por seis anos, manteve uma vida de austeridade e seguiu os maiores mestres da Índia da época, estudando e aplicando seus métodos. Apesar do esforço, não encontrou a resposta para alcançar a completa liberdade do sofrimento. Ele seguiu então para Gaia, um vilarejo indiano. Lá, após 49 dias e noites de meditação embaixo de uma árvore, alcançou o estado iluminado. Vai ver alguém passou e disse: “tem em todos” para Buda, que entendeu a mensagem e descobriu o que buscava em si mesmo.

Ricardo Mezavila

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A Lista de Mezavila

vandalismo poético



É comum quando os pais saem com seus filhos pequenos, principalmente em eventos com público, escrever o seu nome, endereço e telefone, para que, caso ocorra um eventual desencontro, a criança possa ser identificada por outra pessoa e essa tenha como contactar seu responsável. Tem pessoas que, quando são submetidas a uma internação hospitalar, para uma cirurgia, deixam uma lista com a família sobre o histórico da doença e os remédios de que fazem uso, e também as senhas dos cartões de crédito caso algo ocorra de maneira inesperada.

Nunca, graças a Deus, meu corpo foi submetido a alguma intervenção cirúrgica, não que já não precise, mas isso é outra história. Então fico imaginando como será quando eu, inevitavelmente, partir para o “sacrifício”. Vai ser mais ou menos assim a minha “lista”: Nasci de parto normal, em uma manhã de julho, no inverno de mil novecentos e cinquenta e nove. Sou filho do meu pai e da minha mãe. Meu sangue é vermelho, sou etnicamente diversificado, minha religião não tem nome, minha pátria é a Terra.

E continuo: Ao entrar aqui, deixei lá fora muitas pessoas que amo, com quem divido a minha existência. Se eu não voltar diga a elas que meu amor, de tão grande, ganhou a dimensão do céu e explodiu em milhões de estrelas invisíveis aos olhos, mas que estarão presentes no sorriso de todos quando lembrarem de mim.

Tem mais: As coisas que me pertenciam podem doar, aliás, por favor, doem tudo que for possível do meu corpo, a grandeza desse gesto sempre foi motivo de emoção para mim e, agora que já não me fazem falta, podem abrir as portas da vida para quem está lá fora esperando a hora de entrar.

Para terminar: Se existe um tesouro na vida, são os nossos filhos e netos, a esses eu deixo o mapa da mina, onde está o grande baú ,o meu coração, guardando o meu bem mais valioso: a minha poesia.

Ricardo Mezavila

terça-feira, 23 de outubro de 2012

É mesmo, Brandão?





Habituado a almoçar e jantar novela, o brasileiro é chegado a um ato de heroísmo individual, acredita que, sozinho, alguém pode emergir das ondas maléficas, ou das cinzas incandescentes e surgir com seus super poderes para salvar a sua pele e honra; tem fé na ressurreição do herói morto, na ascensão do paladino da justiça, do cavaleiro da luz e da esperança. 

A mídia faz isso: Escreve o roteiro, distribui os papéis, faz a divulgação e massifica. O que acontece nos bastidores da realidade crua não interessa aos indicadores de audiência, são irrelevantes na visão dos patrocinadores. Pois bem, fomos educados a acreditar na versão, segundo as expectativas do dominante (sem patrulha ideológica, por favor), e o outro lado da notícia ou, os outros lados, são camuflados para debaixo do tapete da conveniência em nome da imagem e do dinheiro.

O salvador pode vir de toga, fraque, farda, ou camisola. O importante é habituar o rebanho à base de pitorescas pirotecnias embutidas nas entrelinhas, sublimadas pela dicção de quem transmite a linha de notícia.  

As biografias dos heróis instantâneos são recheadas de momentos dramáticos, “o povo gosta de circo”, para que todos fiquem penalizados e, ao mesmo tempo, orgulhosos da sua perseverança e determinação. O foco são as suas palavras, o jeito com que se posiciona diante da arena. Ninguém questiona se suas decisões excluem, ou omitem fatos e responsabilidades de um ou outro personagem da “trama”.

Nosotros trabalhamos e recebemos para isso, é uma das lógicas capitalista, se voce trabalha é remunerado. Certa vez, em uma empresa em que eu trabalhava, o gerente afixou esse cartaz: “VOCÊ É PAGO PARA ISSO”. Era uma mensagem para evitar que alguém ficasse de migué no local de trabalho. E assim eu vejo os heróis fabricados pela imprensa, que monopoliza e excita o clamor popular de uma gente carente de braços fortes e mães gentis: VOCES SÃO PAGOS PARA ISSO!

Quando eu retornava da escola, ensino fundamental, o primário e o ginásio de antes, almoçava ouvindo um programa de esportes na Rádio Nacional, junto com minha mãe. Entre os jornalistas havia o Brandão que costumava a fazer participações óbvias e ouvia dos outros ironicamente: _ “É mesmo, Brandão?” Esse é o meu jargão para quem surfa nas ondas das passeatas tipo :Valeu, STF!

Ricardo Mezavila

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Abelhas da Primavera




De longe ouço a voz dos irmãos, que um dia estiveram por aqui e me beijaram o rosto, riram a minha risada e olharam para o vazio das perguntas sem respostas. Longe, ouço todas as canções que um dia nós fizemos, em harmonia com a natureza, com o vento, que sempre vive entre um silencio e outro. As árvores vão balançar as suas folhas, o asfalto vai queimar os nossos pés, as máquinas irão funcionar com seus tons de suor, a lua reinará na noite abençoando nossos sonhos.

De longe, lá de longe, ouço a voz dos irmãos que um dia pisaram na calçada que pisamos, desceram as ladeiras debaixo da chuva e olharam quando o arco-íris despontou no céu, balançaram a cabeça sorrindo de uma borboleta colorida repousando em uma flor, sentaram no muro da casa da esquina e coçaram a cabeça de um pequeno cãozinho.

De longe, mas cada vez mais longe, ouço a voz dos irmãos que se foram em uma manhã ensolarada, pegando carona na garupa de um raio solar, saltando as nuvens e brincado com os pássaros, atravessando o tempo de uma respiração e o espaço entre uma e outra batida do coração.

Fiquemos todos de sentinela, pois a vida passa com a doçura do mel, mas também com os ferrões da pequena abelha que o produz. Fiquemos alerta para que a surpresa não nos recepcione na próxima estação, toquemos o barco com o remo firme em nossas mãos para que uma onda maior não nos surpreenda.

Lá vai a voz misturando-se com o barulho da cidade, sumindo no calendário como a antiga roupa que usamos na formatura. As calças já podem estar curtas, já podem faltar botões nas camisas, a comida vai esfriar em cima da mesa, a poeira dos sapatos vai acomodar entre o cadarço e a sola, e os sinos vão tocar uma canção diferente na primavera desta manhã de sol e de saudade.

Ricardo Mezavila

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Não vim de tão longe para você mandar eu voltar outro dia




Quando abrimos os olhos, pela manhã, o universo inteiro nos dá as boas vindas, nos recebe com suas energias renovadas. Não percebemos de imediato, mas logo vem um pensamento nos avisar de que o dia é nosso, que o nosso dia é hoje. Isso acontece desde sempre, todos os dias. Então levantamos e calçamos os sapatos da rotina, vestimos as roupas das obrigações e caminhamos, esquecidos de que fomos recebidos pelo universo de braços abertos, mergulhamos no dia comum e descartamos o dia especial.

Durante toda a vida o ciclo do “esse dia é seu” se renova independente da nossa vontade ou conhecimento. Ele é um dos elementos vitais que nos mantém acesos, bonitos, perceptíveis e disponíveis.

Isso me faz imaginar a cena de uma mulher caminhando por estradas, debaixo do sol, da lua, das nuvens, da chuva e das estrelas. Ela caminha sempre para frente, na direção que apontam os dedos de seus pés. Ela sabe que, se não parar de caminhar nunca, chegará ao mesmo lugar de onde partiu; e se desistir da caminhada nunca saberá se conseguiria realizá-la.

Quando se sente cansada a ponto de pensar em desistir, ela mexe os dedos dos pés, e é como um afago na sua determinação. No percurso encontra placas com dedos apontando “ali”, “aqui”, “lá”, mas ela segue a direção de seus próprios dedos, assim, como uma folha que, caída na corrente de um rio, dança movimentos clássicos de um ballet renascentista, valorizando a coreografia e fazendo brilhar a bailarina.

Essa mulher está em todos nós, dorme e desperta conosco, abre a porta para a gente entrar em casa, descobre a chave das nossas lembranças perdidas, avisa quando o amor está por perto esperando a hora, surge na janela e pede um sorvete de morango, ri de tudo que a gente fala. Ela é a vida, uma senhora tão bonita como os sonhos dos nossos filhos. Tão grande quanto as pequenas coisas do dia a dia, tão pequena quanto as grandes coisas que desperdiçamos por medo.

Então abrimos os olhos e tudo está lá novamente: Nós, o mundo e a vida. Vamos vivê-la hoje, ela não é alguém que a gente possa pedir para voltar outro dia.


Ricardo Mezavila

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Áspero como capim



Estar em uma roda conversando, socializando, pode ser uma aventura e até uma viagem pelo tempo e pela história. A diversidade das profissões, do conhecimento de mundo, da rotina acadêmica, do “coçar saco”; as variações culturais e seus efeitos diante do contrário, tornam um simples bate papo em uma batalha egocêntrica permeada, basicamente, pela incoerência, ufanismo, arrogância e o ridículo.

Durante a conversa descobre-se que alguém pode ser tão genial quanto um cientista, um atleta, um compositor, um artista. E, de certo, podem mesmo, mas geralmente o tempo decidiu por não deixar co-existir na mesma época gênios tão “fundamentais” para a humanidade.

As façanhas, principalmente aquelas que ninguém presenciou, são de fazer inveja àqueles que as tornaram reais. É a hora de extravasar frustrações, decepções e medos, ou meramente mentir, ou usando do eufemismo pouco provável nas discussões, não falar a verdade.

Eu mesmo já coloquei no “banco” (como se diz quem está na reserva de alguém no futebol), alguns craques campeões do mundo, na adolescência, é claro, quando todos buscavam espaço e ninguém sabia que eu treinava no São Cristóvão; tenho amigos que “foram” ao show do Led Zeppelin em N.Y. e tocaram os cabelos do Robert Plant: “áspero como capim” –disseram.

Quem não distrai, quer dizer, não perde a atração daquilo que só é visível e palpável, perde a essência de uma vida ilustrativa, contemplativa em que se pode dividir a inocência dos delírios, a cobertura doce, o recheio de doce de leite, o glacê da mentira, e lamber o "beiço" de uma amizade.

Ricardo Mezavila


domingo, 30 de setembro de 2012

Queria escrever um poema que fizesse sorrir Maiakovski



maiakovski

Estou preparado para fazer sorrir o poeta.
Converso com edifícios, faço escárnio com a burguesia,
Aprendi matemática contando os paralelepípedos das ruas,
Minha esferográfica é a extensão do meu fuzil ideológico,
Tenho menosprezo pela mesquinharia.
Obedeço às leis da natureza,
Trato com carinho a gota que cai da chuva
Permito que ela escorregue pelos meus cabelos
E mergulhe no algodão da minha blusa.
A pleno pulmões gritei nas praças e avenidas,
Fiquei na linha de frente dos comícios.
Acenei para amigos escondidos nas montanhas
E desci o rio de barco, na companhia de um índio.
Estou preparado para fazer sorrir o poeta.
Ensino política às crianças, falo de Marx,
Mas também apresento as poesias de Essenin,
E escrevo no perfil: “Sem forma revolucionária”,
Não há arte revolucionária”.
Acordo e durmo com a poesia
Meus dias são fragmentos de manifestos artísticos
Que aparecem e desaparecem todo tempo
Ora na rua, em casa, no trabalho ou no trem.
Minha alma crespa e áspera tem o rosto das cidades,
Que tem meu corpo como fantasia
E minha voz como orquestra.
Estou preparado para fazer sorrir o poeta.
Faço o tempo de rascunho
E escrevo para o futuro.
Contemplo as telhas das casas,
Paro na esquina e abraço um quarteirão inteiro.
Toco no céu com o dedo,
E afundo meus pés na terra até o pescoço.
Sou bobo, sério e nem uma coisa nem outra.
Sou poeta e fisgo palavras no meu anzol,
Essa é a minha forma de servir à minha pátria.
Quero ressuscitar no ventre do verso,
No doce beijo de uma ventania.