Pode entrar,o Blog é seu! Welcome to Blog! Since 30 july 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

De malas abertas

Os relacionamentos amorosos não sobrevivem sem as crises. O que seria das florestas se não fossem as chuvas. As águas pluviais são coletadas pelos sistemas urbanos de saneamento, sendo lançadas nos cursos d’agua, lagos, lagoas, baías ou no mar.

Por que o mar não transborda com tanto fluxo de água? Porque a água evapora em um dos seus ciclos. A água dos rios chega ao mar, o sol faz com que tanto as águas do rio e a do mar evaporem, formando as nuvens; as chuvas que caem na terra são absorvidas pelo solo, e a água é armazenada em lençóis freáticos; as águas desses depósitos alimentam os rios e o ciclo se completa.

Algumas coisas na vida acontecem de maneira automática, a gente não percebe sua importância, ou mesmo, sua finalidade e significado. Acontecem e...Pronto!

Precisamos aprender a passar por momentos difíceis e entendê-los como ordem natural de um ciclo necessário para o ponto de partida. Apesar da psicanálise, ninguém entende a si mesmo o tempo todo. De vez em quando é preciso criar um ponto de restauração, quando nos sentimos bem, e retornar a ele sempre que nos sentirmos mal.

Os resíduos urbanos, quando são despejados nos aterros sanitários, passam por uma seleta individualização de suas matérias primas, estas servirão de sustento para famílias que dessa atividade sobrevivem.

Sempre que você puder, vá até o lugar aonde você despeja seus resíduos afetivos, e procure reciclar seu relacionamento com honestidade e compreensão, antes de fechar as malas.


Ricardo Mezavila

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Retratista


Mais comum do que imaginamos, nas ruas das grandes cidades, desabrigados e invisíveis, sobrevivem pessoas de talento vencidas pelo vício. Não possuo dados estatísticos que comprovem, ou dê credibilidade a essa constatação, baseio-me em fatos do meu  próprio conhecimento.

Nas ruas do meu bairro acompanhei a trajetória, em queda livre, de um personagem típico do que mencionei no parágrafo acima. Já o conhecia antes do nosso encontro numa praça. Ele rodeado por jovens, desenhando retratos em troca de bebida e cigarros. Cumprimentei-o e percebi que algo não estava certo. Embora nunca tenha tido uma aproximação, conhecia-o como profissional arquiteto, dito por colegas que freqüentavam o mesmo bar, na zona norte do Rio de Janeiro.

Fiquei observando sua técnica ao desenhar o rosto de um  jovem. Não sou especialista, mas ele começava o desenho a partir de traços que no início pareciam inspirados em Oscar Niemeyer. Nos primeiros traços duvidei de que desenharia um rosto. Era como se, de repente, o Museu de Arte Contemporânea virasse a Monalisa. Talvez ele ainda sonhasse em projetar uma obra prima da arquitetura moderna e acordava quando percebia suas unhas pretas de grafite. Depois de olhar fixamente para o rosto do modelo, ali na praça, e para a tela, ele assinou O Retratista e recebeu um cigarro em troca.

Depois desse encontro, tive que intervir a seu favor, quando a caminho de casa, presenciei três garçons o agredindo, expulsando-o do local onde ele abordava clientes oferecendo serviços de desenho.
 
Eventualmente encontrava o retratista perambulando pelas ruas, e reparava que quanto menos tela tinha em seu bloco, mas decadente era sua aparência. Uma maldição comparável a de Dorian Gray.

Semana passada fiquei sabendo que o retratista estava dormindo na rua e, sabe-se lá porque, acordou assustado e atravessou a rua, sendo atropelado e morto. Ele há muito já não desenhava, era um pedinte que se mostrava arredio quando eu lhe cumprimentava.

Deixo aqui esse registro solidário aos arquitetos, engenheiros, jornalistas, professores, médicos, profissionais liberais e trabalhadores de todas os setores, que sucumbem ao vício e desperdiçam talento e a vida.

O Retratista, de onde se encontra deve estar traçando os contornos das montanhas, das estrelas.E, quem sabe, através de seu grafite desenhe, finalmente, o rosto do grande Arquiteto do Universo. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Incoerências e Independência



A presidenta Dilma, utilizando-se de rede nacional de televisão e rádio, na véspera do sete de setembro, tratou de acalmar a população A sobre a crise financeira que, novamente, assola o mundo.

Relatório de hoje do banco suíço UBS mostra que o custo do fim do Euro será significativamente maior do que o custo de salvamento dos países mais fracos a partir de uma União fiscal. Mas a questão está longe de ser decidida com base em uma suposta racionalidade econômica strictu sensu. Uma União fiscal tem problemas políticos para se dar agora, ainda mais na velocidade que seria necessária. (blog econobrasil).

Dentro desse contexto a presidenta afirmou que esta crise, no mundo todo, não afetará o Brasil, porque nossa economia é suficientemente forte e estável, capaz de passar por qualquer variação econômica sem sofrer sérios abalos.

Continuando seu pronunciamento, Dilma pediu a população Z  que tenha paciência sobre as questões da saúde, educação e segurança. Esses básicos serviços, disse ela, ainda não estão como o seu governo desejaria, mas que com o empenho da sociedade, a compreensão do povo do primeiro ao último da fila e a confiança na estrutura das instituições governamentais, um dia, quem sabe...

Mas o povo que saber: Se o Brasil é tão forte capaz de surfar em tsunames econômicas como se fossem simples marolas do mercado financeiro; se temos reservas suficientes para atravessar o deserto das crises mundiais, por que então, cara pálida, os serviços básicos estão entre os piores do mundo ? O povo quer saber como pode um país declarar riqueza e viver mergulhado em miséria?

Ontem, no morro “pacificado” do complexo do alemão, balas traçantes cruzaram o céu dos teleféricos ou teleféretro(?) Saudando a nossa independência.


Ricardo Mezavila

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Olimpo bretão


Futebol é uma religião para nós, brasileiros, embora o futebol moderno tenha sido criado em terras distantes, na Inglaterra em 1863. Há em um manual de exercícios correspondestes à dinastia Han da antiga China, um jogo que consistia em lançar uma bola com os pés para uma pequena rede chamado  ts`Kúh (cuju). Isso a II séculos a.C. A bola já era desejo de posse muitos séculos antes do jovem Charles Willian Muller fazê-la rolar em campos nacionais.

Nascido em São Paulo, em 1874, Charles Muller era filho de um escocês e uma brasileira de ascendência inglesa. Aos dez anos foi estudar na Inglaterra e lá aprendeu a jogar futebol, tornando-se um entusiasta do esporte. Ao retornar ao Brasil em 1894, trouxe na bagagem duas bolas usadas, um par de chuteiras, um livro com as regras do futebol, uma bomba de encher bolas e uniformes usados.

Desde então, os gramados brasileiros serviram de palco para o nascimento de vários heróis dos estádios. Pelé e Garrincha ou Garrincha e Pelé, foram os astros máximos do “olimpo bretão”. Outros “deuses” também desfilaram pelos campos, como “a enciclopédia” Nilton Santos.

Considerado o maior lateral-esquerdo de todos os tempos, foi o precursor em arriscar subidas ao ataque através da lateral do campo. Nilton Santos revolucionou a posição de lateral utilizando-se de sua versatilidade ao defende e atacar, numa época do futebol onde tinha apenas a função defensiva.

Praticado pela elite branca, o futebol passou a incluir negros em seus quadros, popularizando assim o esporte. Há não muitas décadas passadas, o futebol tornou-se uma forma de jovens desassistidos ascenderem socialmente, em função dos altos salários pagos aos jogadores de talento.

O apogeu do jogador de futebol é ser convocado para a seleção de seu país. Defender as cores de sua bandeira e levar alegria ao seu povo. Assim mesmo, como os heróis. É o caso do jovem e humilde lateral esquerdo Cortês, natural do Rio de Janeiro, que jogava em times da série B carioca e, sendo contratado pelo Botafogo de Futebol e Regatas, em nove meses, foi convocado para atuar contra a maior rival da seleção Brasileira, a seleção Argentina. Com estilo, Cortês tem tudo para encher de orgulho o senhor Nilton Santos, o eterno dono da camisa 6.

Ricardo Mezavila

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sarau Poético



Estive na Bienal do Livro como de hábito, quando esta ocorre no Rio de Janeiro. Impressiona a quantidade de pessoas que fez o mesmo, circulando pelas passarelas dos pavilhões com bolsas e livros nas mãos. Que Brasil é esse que lê? Trabalhando com educação vivo experiências desanimadoras para o futuro do livro no Brasil. Minha experiência, não-governamental, me coloca diante de jovens matriculados na rede pública com deficiência grave em língua portuguesa.

Assisti no Café Literário montado na bienal, o Sarau Poético, evento com a participação do poeta Ferreira Gullar. O espaço estava lotado para a audição. O poeta leu vários de seus poemas com pausas para bate-papos e perguntas. Como é extraordinário o bom uso das palavras, as formas que elas adquirem quando lapidadas. O livro é um baú de pérolas raras e ao mesmo tempo simples. A língua quando declama um poema se movimenta como uma borboleta voando entre as flores dos nossos ouvidos, espalhando sementes no jardim do coração de quem nos ama.

Deveria haver, principalmente nas redes públicas de ensino, eventos como o do Café Literário, onde poetas ou leitores de poesia pudessem realizar leituras acerca dessa arte. A poesia não consta nas grades curriculares das escolas.São tratadas desproporcionalmente à sua importância. Através da aparente facilidade de se construir um poema, a criança estimulada para a leitura, arriscaria algumas linhas e adquiriria interesse pela língua portuguesa no geral.

Antes de terminar sua participação no sarau, o poeta Ferreira Gullar fez uma significante observação sobre poesia. Disse que toda pessoa possui um poema ou uma frase determinante em sua vida, que sempre estarão presentes. Eu possuo vários poemas e frases retiradas de poemas que carrego comigo. Eu diria que conduzo um caminhão de poesias com as portas abertas para caronas, pelas estradas alegres da vida.


Ricardo Mezavila

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A conta, por favor !

Se você quer saber quem são seus amigos, compre um bar. Essa afirmação verdadeira não está em nenhum livro. Faz parte de frases ditas dentro dos botecos e que traduzem, sem a psicologia acadêmica, o universo característico e próprio do ambiente.

O bar tem dois lados, o de dentro e o de fora. Nada pode ser tão bem dividido quanto esse espaço democrático. Paradoxalmente à relação hierárquica, aquele que serve é justamente quem decide até que horas você vai poder ficar ali. Podendo inclusive molhar suas meias caso você não perceba que foi dado o sinal, geralmente cadeiras viradas sobre as mesas.
   
O dono do bar além de servir e dar o troco, também é guarda de trânsito. Entra sempre alguém perguntando onde fica a rua tal;  Analista. Ouve os problemas pessoais e   a sua opinião é solicitada; Confidente. É obrigado a saber minúcias da vida alheia sem que demonstre interesse. Comentarista. Os freqüentadores sempre querem saber seu comentário sobre o jogo; Repórter. Tem que saber de tudo o que está acontecendo pela tv, e atualizar os desinformados; Celebridade. Alguns ficam horas na porta do bar ansiosos por sua chegada; Gente boa. Quando concede fiado e filho da puta quando nega.
           
Os freqüentadores também tem seus estágios. O sábio. Com mais alguns goles, se torna o cara mais inteligente do local, domina praticamente todos os assuntos, conhece tudo; Rico. Começa a pagar bebida pra todo mundo, afinal de contas todos viram seu amigo, marca festas e churrascos; Invisível. Faz um monte de coisa errada e pensa que ninguém está vendo; Inconveniente. Fica pendurado no pescoço dos outros contando piadas sem graça e ainda olhando para mulher acompanhada.
           
Quem já assumiu o comando desse tipo de estabelecimento comercial tão diversificado culturalmente, costuma dizer que é parecido com uma “prisão”. Sem horário estabelecido para funcionar, fica à mercê das repetitivas e intermináveis saideiras.
          
Os botequins surgiram com a abertura dos armazéns portugueses no Rio de Janeiro do século 19 e, desde então, tornaram-se um dos pilares da cultura brasileira.
         
Segundo Bruno Ribeiro, jornalista, antes de se tornar o ponto de encontro de boêmios, jornalistas, intelectuais, artistas, estudantes, trabalhadores de todas as áreas, enfim, o boteco já manifestava sua vocação para ser o microcosmo perfeito da sociedade brasileira. No tempo dos armazéns portugueses, quando ainda não havia o botequim propriamente dito, as mulheres compravam verduras e legumes no local; enquanto isso, os maridos aproveitavam para beber uns tragos de vinho, escorados no balcão. Logo, este hábito virou prática cotidiana e, aos poucos, o Rio de Janeiro estava repleto de armazéns que serviam bebidas e petiscos.  O costume de se reunir nestes comércios para falar de política ou futebol começou a ser passado de pai para filho.
  
No início da década de sessenta o bar e restaurante Zicartola, do compositor Cartola e sua esposa D.Zica, tornou-se local de reuniões de pessoas contrárias ao regime militar e defesa cultural da música brasileira que, segundo os músicos que lá se reuniam, estava ameaçada pela canção estrangeira.

Ricardo Mezavila

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Homem que come gente

As artes plásticas sempre me impressionaram pela admiração ou desconfiança que elas transmitem. Participei como jurado popular em salão beneficente, na Sociedade Brasileira de Belas Artes, com mais dois especialistas e não decepcionei. Meu olhar leigo foi capaz de, entre as obras expostas, indicar a mesma tela que os olhares profissionais indicaram para receber o premio máximo.

Não é difícil, mesmo não sendo estudioso, reconhecer o valor de um quadro. A intenção do artista é muito importante. Experimentei isso observando a tela “Paraty”, a primeira colocada. O artista foi fiel aos antigos casarios da cidade histórica. As ruas alagadas, os antigos lampiões preservando suas características, as sombras e os reflexos nas poças destacadas pelo pincel.           

Desconfio quando estou diante de uma arte abstrata geométrica não representativa da realidade concreta formal, com linhas superficiais contornando a esfera latitudicional, condicionando as características diversas do ambiente visual focado em uma tendência científica e intelectual. (?)

Sou admirador de Tarsila do Amaral (1886-1973), pintora e desenhista, uma das figuras centrais da pintura brasileira e da primeira fase do movimento modernista. Seu quadro 
Operários é imensamente representativo, os rostos, as fábricas e a cidade. Mesmo sem entender de arte qualquer pessoa é capaz de compreender o seu significado.

Outro quadro de Tarsila que desde sempre me chamou atenção é o Abaporu. Aquela figura de pés e mãos grandes e cabeça pequena. Sempre que olho tenho a impressão de que o sol é a cabeça. A pintora valorizou o trabalho braçal e desvalorizou o intelectual na obra, por isso a desproporção dos pés, mãos e cabeça. Outra característica do quadro é o significado de seu nome originário do tupi aba (homem), pora (gente) e ú (comer) “homem que come gente”, uma referência à antropofagia modernista, que tinha como proposta engolir a cultura estrangeira e adaptá-la à realidade brasileira.

Esse Abaporu até que é bem adaptável à minha realidade (também tenho os pés grandes) ic!

Ricardo Mezavila

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Floresta Zero, Não ! (dia brasileiro da mãe natureza)


O Código Florestal Brasileiro foi criado em 23 de janeiro de 1934, tendo efetivamente entrado em vigor em 1965. O código estabelece limites de uso da propriedade, que deve respeitar a vegetação existente na terra, considerada bem de interesse comum a todos os habitantes do Brasil.

Desde então, de mandato em mandato, os políticos, principalmente os da bancada ruralista, vem tentando modificar o código, considerado muito rígido. Eles dizem que é para flexibilizar. As regiões que recebem mais emendas de flexibilização são, coincidentemente, as próximas das fazendas dos senhores parlamentares.

Entre as propostas está a redução da reserva legal na Amazônia de 80 para 25% o que desobriga a revegetação com espécies nativas de 700 mil hectares da floresta; isenção de multa e penalidade aos agricultores que desmataram; a diminuição da conservação da flora em margens de rios.

Os ambientalistas e uma parte dos profissionais de engenharia ambiental são contra a reformulação. Para eles, é realmente necessário que o Código seja rígido, devido à riqueza ambiental do Brasil. Essas pessoas temem que, com a aprovação dessa proposta, muita vegetação e biodiversidade sejam perdidas por causa da busca dos fazendeiros por mais lucro.

Eu apelo para o folclore brasileiro e evoco o Boitatá, (Representada por uma cobra de fogo que protege as matas e os animais e tem a capacidade de perseguir e matar aqueles que desrespeitam a natureza) e Curupira (Também é um protetor das matas e dos animais silvestres. Representado por um anão de cabelos compridos e com os pés virados para trás. Persegue e mata todos que desrespeitam a natureza).

Vivemos uma época em que muito se fala de um futuro de escassez dos elementos vitais para a sobrevivência do ser humano no planeta. Nossa espécie pode vir a ser extinta se as florestas permanecerem a receber a agressão que vem sofrendo. Existem vários projetos de preservação ambiental, não podemos deixar de participar e atender a esses chamamentos.

O Código Florestal Brasileiro foi criado no dia, mês e ano do nascimento de uma Mãe, a minha. Então, para mim, vinte e três de janeiro é o dia Brasileiro da Mãe Natureza.


Ricardo Mezavila
          

          

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Recorte Solidário

Recebo, por conta da atividade social a qual estou inserido, algumas revistas, portfólios e jornais informativos de inúmeras associações beneficentes e de classes. Lendo um artigo no Informativo Oficial da Associação dos Engenheiros da Petrobrás*, fiquei indignado, como cidadão, pelo drama vivido por uma funcionária da empresa, carinhosamente chamada de Leninha pelos colegas de trabalho. Leninha, foi acometida por uma doença ocupacional, quer dizer, originária nos produtos que ela manuseava na refinaria. Os médicos da empresa negavam, que fossem os produtos químicos aos quais ela ficava exposta, a causa de sua enfermidade. Oito anos se passaram e sua doença ia se agravando. Por orientação de um especialista em imunologia, alergologia, dermatologia e medicina do trabalho, iniciou uma investigação do seu caso. Comprovada a origem de sua doença em sua rotina de trabalho, a empresa custeou por seis anos o tratamento. A doença, até então controlada pelo uso do tratamento contínuo, ressurgiu agregando novas patologias desencadeadas pelo sistema imunológico e efeitos colaterais, levando-a a internação.

Após seis meses de licença, sua doença evoluiu para um quadro mais grave. Ainda assim o INSS a considerou apta ao trabalho. Obrigada a retornar voltou a ser internada. Agora sem o custeio da empresa retorna à licença do INSS. Terminada a segunda licença ela é novamente obrigada a retornar ao insalubre ambiente de trabalho e sua doença agrava ainda mais. Leninha enviou aos órgãos responsáveis da empresa toda a documentação que atestava sua incapacidade para a função, e foi orientada a aguardar em casa um chamado para perícia. O que não ocorreu. Depois de várias tentativas de comunicação com a empresa e manifestação pública, recebe e-mail da empresa notificando sua demissão por justa causa.   A funcionária ingressou na justiça do trabalho conseguindo liminar restabelecendo seu contrato de trabalho e o custeio de suas necessidades médicas.

A empresa ingressou com pedido de revogação da liminar, argumentando que segundo o INSS, ela não estava doente e, incrivelmente obteve êxito.

Leninha, está demitida desde o ano de 2009. Novo exame constatou com base científica ser ela portadora de uma Polineuropatia Periférica Axonal Tóxica, decorrente do trabalho e uma vasculite agredindo seu sistema nervoso, sendo necessário tratamento de quimioterapia.

Enquanto isso em Brasília... a câmara absolve em votação secreta (é claro) a dep. jackeline roriz (PMN-DF) de cassação. Flagrada em vídeo (www.youtube.com/watch?v=mbdtlKzHU1g) recebendo GRANA do delator do mensalão do DEM, durval Barbosa, a dita manteve seu mandato.

* AEPET– agosto/2011

Ricardo Mezavila        

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Fada da leitura

            
   
Num fragmento de sua autobiografia, As Palavras, Jean-Paul Sartre, um dos mais famosos pensadores franceses do século XX, descreve o momento em que, ainda menino, escolhe dois grossos volumes da biblioteca de seu avô e os deposita sobre os joelhos da mãe. Ela levanta os olhos de seu trabalho e lhe diz: "O que queres que eu te leia, querido? As Fadas? Ao que ele pergunta incrédulo: As Fadas estão aí dentro?"

Eu encontrei a fada da leitura dentro da cômoda da minha mãe, quando eu era menino. Sem querer, ali mexendo nas coisas dela, chamou-me a atenção uma bolsa, de aspecto antigo,com dois fechos que, cruzados, escondiam o seu conteúdo. Soltei-os e deparei-me com recortes de jornais. Eram trovas que ela recortava dos jornais dominicais e guardava na bolsa. Sentei-me e passei ali um bom tempo lendo e relendo aquele tesouro que eu acabara de descobrir. Talvez minha mãe, notando meu silêncio, tenha me procurado pela casa e, ao me encontrar, optou por observar-me a desenterrar o tesouro.

A partir de então passei a abrir a cômoda, como o pirata abre o baú para explorar todo a fortuna, como o enólogo abre o vinho para estudar a vindima, o solo, o envelhecimento.

Com o passar do tempo e depois das leituras, passei a rascunhar alguma coisa parecida com as trovas que minha mãe lia. No dia das mães seguinte, encorajei-me a mostrar-lhe uma com quatro linhas rimadas. Ela beijou-me carinhosamente e guardou-a na bolsa, juntando-a as outras. Aquilo me deixou entusiasmado a continuar escrevendo e não parei mais. Não parei nunca mais!
           


                        Ricardo Mezavila