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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Amanhã vou te ligar !


Ele colocou cerveja no copo, a espuma chegou até a beira, quase caiu, mas de repente, como um vulcão que desiste de acordar e lançar suas lavas, ela foi descendo enfraquecida e acomodou-se a três dedos da borda, o que fez com que ele tivesse que completar. Ligou o computador, esfregou as mãos, fez o login e digitou a senha. Todos os dias ele cumpria esse ritual: acessava seu e-mail, conferia as notícias de seu time, o tempo e depois entrava na sala de bate papo para recomeçar o assunto do dia anterior.

Os temas giravam, quase sempre, em torno da poesia. Ontem eles haviam conversado sobre Vladimir Maiakovski, poeta russo (1893-1930), fortemente impressionado pelo movimento revolucionário e impregnado desde cedo de obras socialistas, ingressou aos quinze anos na facção bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo.

No dia anterior a Maiakovski, conversou sobre Pablo Neruda (1904-1973), poeta chileno, um dos mais importantes da língua castelhana/espanhola.

A pessoa com quem ele conversava, era uma senhora octogenária, homossexual, que viveu o preconceito mais terrível, em uma época em que homossexualidade era tratada como doença, perversão e até maldição. Ele tinha trinta anos, era solteiro, morava sozinho e tinha como companhia um gato e  samambaias. As conversas, sempre interessantes, virara rotina na vida dessas duas personagens da vida real. Sempre que eles encerravam a conversa ela tinha o hábito de digitar: Amanhã vou te ligar! E apesar da promessa a ligação nunca aconteceu.

Ela demorou um pouco mais do que de costume, mas apareceu na tela: Del Lyon, esse era o nick com que ela se apresentava no chat. - oiiiiiiiiiiiiiiiii, td bem? Ele digitou. Ela respondeu: -oláaaaaaa, sds hj eu fui ao médico. Ele: -ihhhh o q vc foi fzr lá? Ela: -nada d+ coisa de velho msm. Ele: -ah tá. E assim recomeçaram a conversa sobre o poeta russo, sobre o ménage à trois que ele vivia com o editor de seus livros e a esposa deste. Talvez essa relação trouxesse à imaginação um êxtase,  um certo delírio sexual reprimido. Ficaram um tempo no computador, até que ela digitou: -hj to mt cansada, acho q vou dormir, amanhã eu te ligo! E saiu do chat. Ele ficou preocupado mas não tinha como entrar em contato fora da sala de bate papo,  não tinha o número do telefone e não sabia onde era sua casa. Ele também desligou o computador e ficou imaginando o quanto sua amiga virtual Del Lyon sofreu. Em pesquisa rápida na Internet soube que o movimento homossexual brasileiro não tem uma data de início específica, mas a sociedade começou a manifestar o preconceito com mais, digamos, recursos da mídia da época, a partir dos anos quarenta, com especial ênfase na década de setenta.

No dia seguinte ele entrou ansioso na sala para saber se ela estava bem e, pela primeira vez, depois de seis meses, Del Lyon não “apareceu”. Ele colocou cerveja no copo que transbordou molhando a mesa, fez um carinho no gato e foi regar as samambaias.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O Arsenal de Bagdá


Um dia, um senhor caminhava solitário pelas ruas de um bairro do Rio de Janeiro sem pensar em nada, apenas caminhava e cuidava para não cair em uma armadilha urbana como bueiros e buracos. Passando em frente a uma casa, notou que havia uma menina chorando, sentada na escada da varanda. Parou e ficou observando a cena, tentando imaginar o porquê daquela tristeza.

No mesmo instante em outro continente, um senhor discursava e dizia que “o império da lei está em perigo no mundo” e “é a guerra do bem contra o mal”. Muito aplaudido ele ainda disse que “ajudaria a libertar o povo iraquiano de um ditador fora da lei”. O tal senhor estava na Assembléia Geral das Nações Unidas dirigindo-se para cento e noventa e um países ali representados.

Voltando à cena do senhor e da menina, esta ao ver que estava sendo observada disse : -Moço, minha mãe me colocou de castigo! Ele deu um leve sorriso, balançou a cabeça :- Não sei o motivo do seu castigo, mas você tem que obedecer a mamãe . Ela contou que havia falado uma mentirinha sobre seu irmão mais velho,e por isso a mãe a repreendeu colocando-a no castigo.

Na Assembléia Geral, o senhor das guerras bradava aos quatro cantos do mundo que o Iraque tinha em seu poder caminhões-tanque com armas químicas, segundo uma fonte dos serviços de espionagem e isso justificava a invasão. E assim fizeram, apoiados pelo governo britânico, e por lá permaneceram sete anos. Milhares de civis e soldados perderam a vida, a cidade histórica de Bagdá, importante centro cultural do mundo, foi destruída.

O curioso é que as alegadas armas de destruição em massa, até hoje não foram encontradas. E jamais serão, porque o próprio serviço de inteligência assumiu que era uma farsa, uma mentira para dar início à operação. Uma mentira providencial para invadir e destruir Bagdá.

Retornando ao senhor solitário e a menina triste, sua mãe apareceu na varanda e sorrindo para o estranho perguntou: -O senhor deseja alguma coisa ? Ele: - Não senhora, muito obrigado. Estava passando e vi essa linda menina chorando e parei, só isso A mãe :- Hum! Essa menina agora deu para ficar mentindo, já falei que isso é feio. O senhor se despediu e retomou sua caminhada despretensiosa, fugindo das “minas” urbanas e explosivas, pensando como é importante a educação vinda dos pais. Talvez aquele outro senhor das invasões não a tenha tido, quer dizer, nós sabemos muito bem quem foi seu educador.

Ricardo Mezavila

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ciência e Saúde

    
Existem várias formas no universo capaz de transformar o ser humano. O conhecimento, talvez, seja o mais extraordinário e necessário.

O povo da antiga Grécia não era doutrinado a seguir um único Deus ou alguma literatura religiosa. Eles acreditavam em vários Deuses.  A mitologia grega era passada de pai para filho de forma oral e, muitas vezes, servia para explicar fenômenos da natureza ou passar conselhos de vida. Não atribuíam ao sobrenatural, como fazem as religiões, aquilo que era considerado desconhecido. Os gregos, por não viverem os dogmas da religião, tinham liberdade para pensar e, não por acaso, a filosofia surgiu em terras regas a VI a.C.

"Não há nada de bom ou de mau, a não ser que o pensamento o torne assim”. Instigado pela filosofia e direcionado por essa frase de Shakespeare vou tecer um curto  comentário sobre uma mulher nascida no ano de mil oitocentos e vinte e um, nos Estados Unidos da América do Norte, vindo a falecer em mil novecentos e dez. Trata-se de Mary Baker Eddy, descobridora e fundadora da Ciência Cristã e autora de Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, um contínuo “best-seller” sobre a cura.

Durante toda a sua juventude Mary Baker Eddy enfrentou uma saúde frágil, problemas financeiros e pressões emocionais. Ela superou esses desafios e tornou-se uma das figuras mais proeminentes de seu tempo.

Em mil oitocentos e sessenta e seis, após grave acidente e desenganada pelos médicos, Mary Baker Eddy curou-se instantaneamente ao ler, na Bíblia, o relato de uma cura efetuada por Jesus. Compreendeu que as obras de Jesus estavam fundamentadas numa lei divinamente estabelecida e aplicável em qualquer época. A essa lei, deu o nome de Christian Science. Dedicou-se ao estudo profundo das Escrituras a fim de aprender as regras para a aplicação prática dessa lei na cura dos doentes. Como fruto desse estudo, e após comprovar na prática a validade de sua descoberta, Mary Baker Eddy escreveu o livro Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, onde expôs completa e detalhadamente essa Ciência.

A senhora Eddy não possuía religião, assim como os antigos gregos, mas agregou a si o desejo pelo conhecimento, acabando por encontrar nas escrituras, de uma forma totalmente não-religiosa, aquilo que transformaria sua vida e a de outros para sempre.

Ricardo Mezavila

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pras Marias e Clarices


Dois anos antes de meu ingresso na escola primária o presidente João Goulart assinava em praça pública, no Rio de Janeiro, três decretos, um de encampação das refinarias de petróleo privadas, outro de reforma agrária à beira de rodovias, ferrovias, rios navegáveis  e açudes e um decreto tabelando aluguéis. Esses decretos de treze de março de mil novecentos e sessenta e quatro foram usados como pretexto pelos conservadores para a sua deposição.

Um ano depois de eu ter terminado o ensino médio, novas regras são impostas à sociedade brasileira. Novamente é aumentado o arrocho contras as liberdades individuais e coletivas da população, alguns setores produtivos são postos sob a “Lei de Segurança Nacional”, sob a razão de serem de importância estratégica para o país. São proibidas as greves nos setores petrolíferos, energético e de telecomunicações.
  
Assim crescemos, sob o obscurantismo, a não instrução, em completa ignorância política. Do fim do governo Goulart até o último suspiro da ditadura militar com o general Figueiredo, uma geração de estudantes teve sonegada informações que colaborariam para a sua formação crítica. Não deixaram legado e muito menos saudades.

Hoje acompanho os movimentos em Trípoli, o clima tenso com explosões, os rebelados tomando lugares estratégicos, focos de resistência seguram o regime próximo de afundar. Notícias sobre a captura do filho do presidente são desmentidas quando este faz aparição em público, sorridente e confiante como se estivesse voltando  do Habib’s depois de comer  um kibe. O ditador, o coronel Kadafi está desaparecido. O presidente americano Obama confirmou que apoiará o novo governo líbio, se  favorável à política internacional dos Estados Unidos. 

Fico a imaginar se a ditadura militar brasileira durasse mais algumas décadas, qual seria a nossa atitude. Será que nos rebelaríamos contra o regime e deportaríamos os ditadores?  Marcaríamos encontros e manifestações anti-militar pela internet?  Eu criaria no Orkut as comunidades “Pelo fim das leis de estado de exceção”  e “ Liberdade de expressão, já!” . Tendo como principal objetivo dos protestos, derrubar o regime militar.

Sem revanchismo, mas caçar os gorilas, como fizeram com Saddam, seria uma aventura inesquecível. O Brasil teve no período de mil novecentos e sessenta e quatro a oitenta e cinco, além do período da junta militar, de agosto a outubro de sessenta e nove, cinco presidentes ditadores. Isso me faz criar um “chiste”: Um grupo de estudantes e jornalistas procura pelos ditadores, escondidos na caserna em Brasília. Ao chegar no portão encontram um menino com uniforme da escola pública que entrega: “estão AÍ 5”.

Ricardo Mezavila

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Hábitos, Costumes e Intolerância

 
Não muito raro, para não dizer sempre, deparo-me nas redes sociais com opiniões críticas, às vezes ofensivas, aos costumes e hábitos de parte da população desassistida socialmente, uma demonstração de total incapacidade de senso social e de impossibilidade de convívio com as diferenças.

As chibatadas atuais são contra os jovens da classe operária, que sofrem pela ausência do poder publico e ficam fora das escolas, ou quando freqüentam, muitos à noite por estarem trabalhando para compor a renda familiar, são alfabetizados por um ensino fraco e tendencioso.

Não há vagas para todos na escola pública, não há vagas nos hospitais públicos. O hospital geral de Bonsucesso, que é  federal, funciona (?) sem gaze e soro. E quem são os usuários desses serviços?

Retornando aos jovens “invisíveis” , é comum e absolutamente sadio e natural que tenham como influencia aquilo que o meio lhes oferece. Jovens, principalmente do subúrbio, consomem musicalmente o estilo definido como “funk”, característico da música negra norte americana assim como o blues, rock.

Os intolerantes de plantão se manifestam ironicamente para desclassificar o comportamento desses jovens quando dividem o espaço público, numa significante demonstração de pseudo-supremacia cultural. Pode parecer exagero, mas isso é um indicativo de segregação social e preconceito.    

No facebook li coisas do tipo : “telefone de funkeiro não tem fone de ouvido” uma alusão a quem ouve música em ambiente coletivo sem o uso do acessório. O que convém, a quem se sente incomodado, é comunicar isso a quem o está incomodando, e não fazer apologia à violência contra quem ouve música no alto falante. É difícil, em um país onde não se tem acesso nem a um esparadrapo, acreditar que as pessoas possam compreender as dificuldades do outro. O ambiente coletivo tem regras em comum e precisamos todos respeitá-las e quando acontece de alguém subverter alguma dessas regras, o cidadão mais esclarecido tem por obrigação cidadã  advertir sem ofender. Caso não seja capaz de agir educadamente é melhor ficar quieto, pois corre o risco de violar outros códigos e iniciar uma batalha tola.

Em uma sociedade escravocrata os signos lúdicos, que produzem prazer quando da sua execução, são amputados pela necessidade de sobrevivência. Ouvir música é uma das raras diversões desses jovens que manifestam  a cultura que lhes impuseram.

Procurei no google alguma coisa sobre “brincadeiras de escravo” e, depois de alguns minutos apareceu:  Escravos de Jó. Uma brincadeira de origem, significado e letra controversos. Formada a roda, as crianças  permanecem paradas, podendo inclusive ficar sentadas, com um objeto igual para todos , na mão direita. Ao ritmo da música, marcando os tempos fortes, iniciam a brincadeira de passar o objeto que têm na mão direita para o vizinho da direita, e receber com a mão esquerda o objeto do vizinho da esquerda e etc.

Os intolerantes nunca brincaram de Escravos de Jó, e talvez por isso não aceitem receber ou passar nada a outras mãos, ignorando a dura realidade do seu vizinho da direita ou da esquerda.
           
Ricardo Mezavila
     

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Por uma infância saudável


O erotismo, o grotesco, a libertinagem (era assim que se dizia à época), que Donatien Alphonse François de Sade, o Marques de Sade, escritor, dramaturgo, filósofo, nascido em Paris no ano de 1740, utilizava em suas obras literárias eram, principalmente, uma forma de crítica pungente à sociedade materialista.

Adepto do ateísmo fazia apologia ao crime e à religião dominante, a católica. Em um de seus livros, a personagem obriga o Papa a fazer discurso a favor do crime para tê-la em sua cama. O Vaticano em seus registros literários era palco de orgias e da boca do Papa saíam panfletos políticos e dissertações sobre o crime. Lógico que foi preso por diversas vezes. O termo sadismo, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral,  vem de seu nome.

Infelizmente personagens do romance “cento e vinte dias em Sodoma” , como os nobres devassos que abusavam de crianças raptadas, são encontrados andando por aí dividindo com nossos filhos as ruas, os transportes, salas de aulas e muitas vezes o mesmo teto.

Atualizando as “heresias” cometidas pelo Marques em relação à igreja, há vários casos de pedofilia envolvendo padres católicos e pastores protestantes.

A Internet  facilita muito as investidas dos pedófilos, que atuam sempre da mesma forma. Caso extraído de um site : Um empresário de Campo Grande está sendo investigado por pedofilia. Segundo processo que corre na 1ª Vara da Infância, Adolescência e do Idoso, o empresário usou a internet para atrair um menino de 12 anos. O garoto conheceu o pedófilo em um site de bate papo e foi até ao seu encontro, onde sofreu abuso sexual.O nome do empresário não foi divulgado porque o processo, como todos da Vara de Infância e Adolescência, corre em segredo de Justiça. Por conta do sigilo, também não é possível conhecer quando aconteceu o crime.O caso foi divulgado pelo Tribunal de Justiça como alerta aos pais sobre a possibilidade desse tipo de crime pela internet.    Muitos casos não são esclarecidos ficando os culpados em liberdade para continuar atuando.

A evolução da sociedade se faz necessária e as crianças não são como a duas ou três décadas. O comportamento da criança desinfantilizou, o universo infantil absorveu a visão do adulto.

Essa evolução toda, a qualquer custo, colocou chapeuzinho vermelho conversando em um Chat com o lobo mau, marcando encontro na casa da vovozinha.

Anacronismo a parte, quem paga a conta da erotização infantil ?


           

Ricardo Mezavila

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Dragão do Mar

    
No mês de maio, no ano de mil novecentos e oitenta e oito, em algumas capitais brasileiras houve manifestações pela passagem do centenário da assinatura da lei áurea. Os meios de comunicação, governo, privilegiados e ignorantes esperavam uma grande festa popular organizada pelos movimentos negros, para homenagear a princesa.

O Instituto de Pesquisa da Cultura Negra e outros movimentos do Rio de Janeiro com apoio de partidos políticos, organizou uma caminhada que estava prevista para seguir da Candelária até o monumento à Zumbi, na Praça Onze. A manifestação pacífica foi proibida, até hoje não sei se alguma autoridade de dentro comando militar do leste assumiu a responsabilidade, mas o fato é que durante todo o dia o centro do Rio foi tomado por seiscentos soldados das Forças Armadas e mais um efetivo da polícia militar para impedir o ato, em alegação a uma informação de que haveria depredação ao Panteão onde estão os restos mortais de seu patrono, Duque de Caxias, na Central do Brasil.

Depois de muita negociação o caminhão de som com uma bandeira estampando um desenho de Zumbi dos Palmares, saiu em direção ao seu monumento. A caminhada foi tensa sob os olhares dos soldados. Ao chegar em frente ao Panteão o caminhão de som parou e várias lideranças discursaram. Foi quando uma parede humana de soldados, como nos piores tempos da ditadura, foi se aproximando de onde estávamos reunidos e começaram a nos provocar batendo com os cacetetes em nossas  pernas, ameaçando de prisão quem continuasse ali.

Cento e vinte e três anos após a questionada lei áurea, os negros pobres e os pobres brancos ainda não conquistaram cidadania plena.

Os heróis oficiais da história do Brasil são brancos, mas vou ocupar esse espaço para falar de um herói legítimo: Francisco José do Nascimento, conhecido posteriormente como o “Dragão do Mar” , símbolo da resistência popular cearense contra a escravidão. O Ceará em 1884, foi a primeira província brasileira a abolir a escravidão. Os abolicionistas, gente da elite, brava e culta são ovacionados pela imprensa nacional contrária à escravidão, mas entre eles havia um jangadeiro negro, humilde, trabalhador do mar: Francisco José do Nascimento, também conhecido como Chico da Matilde. Ele e seus colegas se engajaram à luta em 1881, recusando-se a transportar de suas jangadas para os navios negreiros, os escravos vendidos para o sul do país.

Assim, Chico da Matilde é levado para corte com sua jangada, desfila pelas ruas, recebe chuvas de flores da multidão e ganha novo nome, mais pomposo e mítico: Dragão-do-mar. De lá escreve à mulher: “seu velho está tonto com tanta festa e cumprimentos de tanta gente importante”.


Ricardo Mezavila

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Histórias que nunca ouvimos



No Brasil, como mostram os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, a população entre dezesseis a vinte e quatro anos representa cerca de 25% do total de habitantes do país.

Obter um emprego é uma batalha diária para 60% deles, que participam do mercado de trabalho como empregados ou, principalmente, desempregados.A falta de qualificação e experiência são os principais obstáculos para o jovem ingressar na vida profissional. 

A solução para a maioria das famílias, dependentes da complementação de renda, é que o filho em idade escolar saia da escola e vá trabalhar, comprometendo, assim, sua qualificação profissional.

Os trabalhadores de baixa escolaridade vão se reproduzindo aos montes na mão-de-obra desqualificada, já em tenra faixa etária.

A pesquisa revela ainda que "uma parcela relevante" das crianças e adolescentes ocupados trabalha sem receber rendimento (47,3%), sendo que 14,1% ganham menos de um quarto do salário mínimo. Outra dado triste da pesquisa é saber que 14 milhões de crianças estão fora da escola.

Com toda essa injustiça capitalista das metrópoles, eu me volto para a cultura indígena e encontro o  jovem  Bepkrit Kayapó, 22 anos, guerreiro da Terra Indígena de  Kayapó , no Pará, dando uma entrevista sobre a rotina dos jovens da aldeia : preparar-se para dançar nas festas tradicionais, proteger a área, buscar alimento no mato. “Nossos avós ensinam a nossa história desde quando a gente dorme no colo. E a gente já ensina as coisas para os mais novos”, diz. O que ele gostaria de ser? “O guerreiro mais poderoso que tem, e defender o nosso povo”, responde. Além das rotinas de caças e de festas, os índios também assistem televisão, gostam de novelas e jogam futebol.

Desde sempre ouço que minha avó fazia uma espécie de rede com sua saia, deitava-me ali e, balançando, fazia com que eu dormisse.
Que história ela ensinava para mim?
Que história eu ensinei para os mais novos?
Bepkrit , precisamos muito de um guerreiro poderoso que defenda o nosso povo !

Ricardo Mezavila

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Em se tratando de irmãos...

       
Benjamin Franklin, notável jornalista, cientista, inventor e muitas coisas mais, cunhou essa frase: “um irmão pode não ser um amigo, mas um amigo será sempre um irmão”.

Vamos embaralhar o substantivo irmão com o adjetivo amigo e a frase fica assim: um amigo pode não ser um irmão, mas um irmão será sempre um amigo.

Entre todos os laços familiares existentes, o fraternal, na minha observação, tem componentes de cumplicidade tão naturais que acaba por aproximar as almas.

Irmãos nascem sob o mesmo teto, são amamentados no mesmo peito, amam os mesmos pais, recebem a mesma educação, a mesma influencia, inventam brincadeiras juntos, vão à escola juntos, sofrem perdas juntos.

A intensidade dos sentimentos é indesatável e quando envelhecem, as lembranças do passado terá a mesma proporção. O que fica no tempo engavetado é remexido com alegria ou tristeza e compartilhado numa tarde quieta entre risos ou lágrimas.

Contemporâneos, os irmãos envelhecerão juntos e serão para si a melhor companhia para folhear o antigo álbum de fotografias, e um sempre será coadjuvante da história do outro.

Deixando de lado as legitimações genuínas do que vem a ser um irmão completo biologicamente, concordo quando Mrs.Franklin diz que um amigo será sempre um irmão.

São irmãos: os uterinos, filhos da mesma mãe, mas de pais diferentes; os irmãos membros de uma congregação religiosa; irmãos de armas, os companheiros de guerra; os irmãos de leite, amamentados pela mesma mulher; irmãos consangüíneos, mesmo pai, mas mães diferentes; irmãos gêmeos, nascidos do mesmo parto; irmão adotivo e todo aquele que tem um laço forte de amizade.

Na literatura e nas artes o significado de irmão sempre esteve e sempre estará presente para definir união e amor.
Bob Marley deixou essa pérola: “Se um dia, a nossa luz da amizade se apagar, foda-se irmão, a gente acende uma vela.”


Ricardo Mezavila

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Por um mundo melhor


  
Pegando onda nas apresentações de grandes artistas do cenário pop musical ao Brasil nos últimos anos, vou fazer um cut back, (manobra em que o surfista volta na direção contrária da onda e depois retorna na direção normal.) e vou fazer um flash sobre o primeiro grande evento musical realizado no Brasil em mil novecentos e oitenta e cinco : o Rock in Rio.

Lamento não ter guardado o ingresso que adquiri para o último dia do evento em vinte de janeiro. É preciso manter um acervo de objetos pessoais importantes para mostrar aos filhos e netos.

Foram dez dias de música e quase dez de chuva. Não lembro se foi pelo mau tempo, mas os organizadores liberavam os portões quando iniciava a apresentação dos cantores estrangeiros. As bandas e cantores nacionais abriam os dias do festival e as internacionais encerravam. Sabendo disso, fui para conferir se era autêntica a informação que tive sobre a “canja” que os organizadores estavam dando. Chegando à cidade do rock fiquei surpreso em perceber que os portões estavam abertos e lá dentro, sob forte chuva, um inglês rouco pulando muito no palco cantava: “I am sailing, stormy waters,to be near you, to be free”  fui entrando  meio desconfiado e de repente estava frente ao palco onde Rod Stewart fazia um show memorável. Dia seguinte fui para confirmar se aquilo havia acontecido mesmo e assisti a um depressivo James Taylor cantando“ I've seen fire and I've seen rain, I've seen sunny days that I thought would never end “ o cantor lutava, na época, contra as drogas. Antes  George Benson fez todo mundo dançar com On Broadway. Mil novecentos e oitenta e cinco era o “Ano Mundial da Juventude” proclamado pela ONU. No cinema, a Rosa Púrpura do Cairo;, De volta para o futuro; A dama de vermelho; O exterminador do futuro faziam grande sucesso. A ditadura militar no Brasil estava chegando ao fim, o país respirava democracia e tinha esperanças no governo do então presidente eleito Tancredo Neves, que tomaria posse em março, o que não aconteceu devido à sua doença e posterior falecimento em vinte e um de abril.

Depois dos dois dias de “gratuidade”, só pude retornar à cidade do rock no penúltimo dia e assisti aos incríveis shows das bandas Whitesnake, Scorpions e  AC/DC , além do totalmente absurdo e bizarro Ozzy Osbourne.

Talvez por ter ido aos shows sem precisar do ingresso para assisti-los, eu tenha minimizado a importância de tê-lo comprado e, talvez, não lembro, tenha jogado o meu fora quando fui ao último dia do festival. É claro que eu fui para ver o “Yes”. O domingo estava ensolarado, o clima era de festa na cidade do rock. Erasmo Carlos, Barão Vermelho,  Gilberto Gil e Blitz encerraram a participação dos brasileiros. Depois de alguns minutos subiu ao palco uma excêntrica figura: Nina Hagen, uma alemã, barulhenta e muito divertida que colocou todo mundo pra dançar. Em seguida tive a grata surpresa de assistir ao show new wave da ótima banda B-52’s. Mas o fim do festival estava reservado para os roqueiros, como eu, que na década de setenta, teve o privilegio de ter como fundo musical o rock progressivo do Yes.
  
Vinte e seis anos se passaram até o recente show de Paul McCartney. Fiquei mais de duas horas na fila para entrar, mas desta vez fui cauteloso e tive o cuidado de guardar o ingresso.

* Por um mundo melhor foi o slogan criado para o rock in rio