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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O domingo é dos pagãos

Os nomes dos dias da semana em português têm a sua origem na liturgia católica. 

Na maior parte das outras línguas, a sua origem são nomes de deuses pagãos e deuses mitológicos aos quais os dias eram dedicados.
Segunda-feira. Pela crença dos povos pagãos antigos que reverenciavam seus deuses, era dedicada a Lua. Para os católicos é o dia de se rezar para os mortos.
Terça-feira. Segundo a crença é o dia de reverenciar o astro Marte.
Quarta-feira. Os antigos pagãos reservavam esse dia para reverenciar Mercúrio. Na igreja católica é o dia para se rezar pelos enfermos.
Quinta-feira. Foi reservada para Júpiter, enquanto no catolicismo é dia de devoção ao Santíssimo Sacramento, em memória à última ceia de Jesus.
Sexta-feira. Como não podia deixar de ser, é dedicada à deusa do amor e da beleza. Vênus. Também é o dia sagrado do islamismo (jumu´ah). Os muçulmanos, por obrigação religiosa, realizam a oração do meio-dia em comunidade.
Sábado. É dedicado ao deus Saturno, deus da agricultura para os romanos que dedicavam esse dia ao descanso quando se tinha uma boa colheita. É o dia de Shabat dos judeus que significa descanso.
Domingo. É o dia dedicado ao deus Sol. É o dia mais controverso, pois várias correntes reivindicavam que fosse o primeiro dia da semana. O imperador Constantino, por exemplo, quis impor o dia do deus Sol, reverenciado pelos pagãos, sobre o sábado bíblico dos cristãos. A estratégia de Constantino era agradar os pagãos de modo a unificar o império e criar uma nova denominação religiosa, utilizando uma passagem bíblica que diz: os discípulos se reuniram no primeiro dia da semana e repartiram o pão juntos.

Segundo os evangelhos, Jesus ressuscitou no primeiro dia da semana (domingo).

Em 325 d.C. Constantino reuniu os mais influentes bispos cristãos na cidade de Niceia (hoje Iznic, Turquia) para um concílio na tentativa de um consenso da igreja sobre polêmicas questões pendentes. Dessa reunião que foi denominada de “O primeiro concílio de Niceia”, entre outras importantes decisões ficou estabelecido universalmente que o primeiro dia da semana seria sagrado e se chamaria Dies Domenica, o nosso festejado domingo. 

No popular, foi a vitória do povão, do pejorativo, do rústico e do simples.
Pagãos de todo o planeta, uni-vos !


Ricardo Mezavila

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dia dos Pais

 
Alguns historiadores reivindicam a origem do dia dos pais, vou ficar com a que se aproxima mais de como os filhos presenteiam seus pais com o primeiro cartão:

O Dia dos Pais tem origem na antiga Babilônia, há mais de 4 mil anos. Um jovem chamado Elmesu, moldou em argila o primeiro cartão. Desejava sorte, saúde e longa vida a seu pai.

Em todo o mundo essa data é comemorada, mas em dias distintos. Na Tailândia, por exemplo, é comemorada no dia do nascimento do rei , Bhumibol Adulyadej,  em cinco de dezembro; na Alemanha a data é comemorada quarenta dias após a páscoa; na maioria dos países latino-americanos comemora-se no segundo domingo do mês de junho; nos Estados Unidos é no terceiro domingo de junho; em Portugal é comemorado a dezenove de março; na Nova Zelândia no primeiro domingo de setembro; na Noruega no segundo domingo de novembro, no Brasil no segundo domingo de agosto.

Como se vê, todo dia é dia dos pais em alguma parte do mundo, aliviando a pressão sobre pais e filhos que, por circunstâncias várias, não se falam com a freqüência desejada, pouco se veem com os olhos, encontrando-se mais em pensamentos e lembranças.

Nesse dia, como em algumas datas vinculadas à família, a tristeza se faz presente sob a tutela da ausência. Às vezes pela distancia, pela saudade eterna e também pela discórdia e desarmonia.

O importante em datas de significância sentimental mais latente, é saber ouvir o que o coração tem a dizer. Agir com ternura, ter mais compreensão e afeto.

Lembro de quando eu era criança levar para casa trabalhos feitos na escola primária, para presentear meu pai. Quase sempre era uma cartolina onde o aluno fazia o desenho de seu pai e entregava junto com um lenço ou par de meias.

Depois recebi esses presentes de minhas filhas.
Sou pai de três lindas filhas, e aproveito o meu dia, que são todos os dias, para abençoá-las com amor e  agradecer a todos os cartões que um dia recebi , pedir perdão por todos que não mereci receber  e fazer por onde estar em suas vidas, sempre.


            Ricardo Mezavila

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Rubin, Duggan e Juan.

Rubin Carter, boxeador americano conhecido como Hurricane, foi preso em 1966, acusado de assassinato em primeiro grau. Foi libertado, após dezenove anos de prisão.
Hurricane (furacão), foi preso porque era negro e estava próximo ao local do crime e para a polícia de New Jersey era fácil e cômodo acusá-lo.
Londres vive um conflito motivado, segundo os manifestantes, pela morte de um inocente vigia, Mark Duggan,  pela polícia londrina.
Em Belford Roxo, na baixada fluminense, mais um caso de violência, o desaparecimento e morte do menino Juan de Moraes de onze anos que, ao que tudo leva a crer, foi morto pela polícia.
Esses três resumidos episódios destacam erros das autoridades policiais frente a sociedade que deveriam dar proteção e segurança.
No caso de Carter, artistas consagrados como Bob Dylan, participaram de protestos contra a prisão injusta do boxer; no caso de Duggan, jovens ingleses foram às ruas  manifestar o inconformismo; no caso de Juan, a família e os amigos humilhados e constrangidos, mostraram alguns cartazes para as câmeras de TV,em um país que agrega milhares de pessoas em marcha pela legalização das drogas.
Segundo o Centro Israelense de Informação sobre Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, em Israel e na Palestina 467 pessoas morreram em conflito em quatorze anos, enquanto que só no Rio, no mesmo período morreram 3.937 pessoas vítimas de crimes como tráfico, confronto entre policiais, assaltos e balas perdidas. Há de se destacar que entre israelenses e palestinos há uma guerra histórica por territórios e fundamentalismo religioso. No Brasil, a “guerra” é fomentada pela injustiça social, pela falta de reformas de base na educação, saúde, baixo salário, segurança pública, etc.
No Brasil, os formadores de opinião, preferem utilizar suas imagens para vender shampoo e ilusão.
Nos versos da canção Hurricane, Dylan expressa sua revolta: “...vê-lo obviamente condenado numa armação, não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
de morar numa terra onde a justiça é um jogo”


Ricardo Mezavila

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Velho Lobo

Mario Jorge Lobo Zagallo, é esse o nome do maior vencedor de copas do mundo do planeta. São quatro: Duas como jogador em 58 e 62 quando atuava pelo Botafogo, seu clube de coração, e duas como técnico da seleção brasileira, 70 e 94.

-“Vocês vão ter que me engolir”! Disse o velho Lobo, em resposta às críticas feitas por alguns jornalistas contrários a sua condição de técnico da seleção.

Assim são os vitoriosos, exibem os dedos em V com um sorriso capaz de derrotar os adversários antes de começar a partida.

Mas seriam os vitoriosos heróis?
O herói não precisa, necessariamente, ser um notório vitorioso. Basta ter coragem, persistência e determinação. Muitos heróis vivem no anonimato de suas façanhas. Reconhecem-os, familiares e amigos próximos. São guiados por objetivos nobres como : liberdade, justiça, sacrifício, força de vontade, etc.

Os heróis também podem estar vinculados a figuras épicas através da força física como a de Hércules, herói da mitologia grega; Podem estar carimbados com a chancela da esperteza e da malandragem como Macunaíma, herói brasileiro; E também há os heróis da ficção, os super-heróis.

Voltando ao Velho Lobo, Zagallo, que não chega a ser um herói, mas que comemora oitenta anos, sendo sessenta servindo ao Brasil, como grande divulgador que é do nosso futebol. O Velho Lobo deveria receber do governo, através da Confederação que administra as coisas do futebol, maior atenção e consideração pelo que fez durante todos esses anos. O governo precisa cuidar melhor dos nossos patrimônios humanos e ser menos benevolente e mais fiscalizador dos bens patrimoniais dos cartolas que estão mais para anti-heróis.

Nesta data a minha homenagem ao Velho Lobo, botafoguense como eu, estão nas palavras do também alvinegro e glorioso Armando Nogueira :

“O Botafogo é bem mais que um clube - é uma predestinação celestial. Seu símbolo é uma entidade divina. Feliz da criatura que tem por guia e emblema uma estrela. Por isso é que o Botafogo está sempre no caminho certo. O caminho da luz. Feliz do clube que tem por escudo uma invenção de Deus. “

Ricardo Mezavila

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Filha natural da vida


Cálculos mais modestos indicam que já são 30% o número de crianças órfãs no Sudão, conseqüência de mais de vinte anos de guerra entre irmãos sudaneses pelas reservas petrolíferas e por motivos religiosos. No caso dos órfãos de pais desaparecidos é simples de entender. No fragor dos ataques inesperados, em meio às explosões, tiros, fogo e degolas, as aldeias ficavam num caos total, cada um tentando salvar sua vida e dos seus queridos. Milhares e milhares de crianças ficaram vagueando sozinhas em fuga desesperada, alguns para países vizinhos, outros para os desertos. Os que sobreviveram voltaram para as aldeias, magérrimos e doentes, a procura dos pais.
     
Nos tempos bíblicos Jesus falava muito em viúvas e órfãos, mas ele se referia aos filhos dessas viúvas que já haviam perdido seus pais, logo estavam órfãos, porque se a expressão valesse para adultos, todo mundo era órfão. Na iminência de uma guerra, só ficavam de fora a viúva e os órfãos, se os adultos que não têm pai fossem órfãos ninguém ia para a guerra, será que todos aqueles guerreiros tinham pai e mãe? É óbvio que não.
Deixando de lado os pressupostos da origem de como uma criança é transformada em órfã e também as prerrogativas legais da adoção, aponto minha atiradeira poética na direção dos pássaros que cantam e voam, mas não sabem muito sobre a origem de seus ninhos.
Reconheço alguns rostos e um em especial, que não são como as crianças sudanesas que sofrem os horrores da guerra e nem como as crianças órfãs filhas das viúvas a que se referia Jesus, mas que levam pelam vida a dúvida de sua concepção.
Sobre esse rosto em especial eu posso falar, porque está ao meu lado em inúmeras fotos espalhadas pelas redes sociais, carrega no coração a eterna dúvida da maternidade biológica. Isso faz com que, no meu entendimento , ela posso vir ser filha de uma floresta perfumada, de uma montanha azul, filha do oceano, do céu, da terra, do ar enfim, filha da natureza. Sua hereditariedade , tal como ela é, deve vir de uma pérola escondida em uma gruta perdida, difícil de se encontrar.
O desconhecido também pode ser instigante por causa das possibilidades que ele cria.

A beleza da vida é ir em frente !

“A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples
fatos do vôo — como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é
voar, mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar. Antes de tudo o mais, Fernão Capelo Gaivota adorava voar." (Richard Bach)


Ricardo Mezavila

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Odisseia do caô

“Após uma incursão pirática em Ismara, na terra dos cicones, Odisseu e seus doze navios são desviados do curso por tempestades. Visitam então os letárgicos Comedores de Lótus, e são capturados pelo ciclope Polifemo, do qual escapa apenas após cegá-lo com um pedaço afiado de madeira. São recebidos por Éolo, senhor dos ventos, que dá a Odisseu um saco de couro contendo todos os ventos (com a exceção do vento oeste), um presente que deveria lhe ter garantido a viagem de volta para casa; seus marinheiros, no entanto, abrem de maneira tola o saco enquanto Odisseu dormia, pensando que continha ouro; todo o vento voou para fora do saco, e a tempestade resultante mandou os navios de volta para onde haviam vindo, quando Ítaca havia acabado de aparecer no horizonte.”
 
O texto acima foi extraído do poema épico Odisséia do autor grego Homero escrito no século VIII a.C. sendo um clássico da literatura.

Procure ler e decorar alguma coisa sobre literatura tipo, nome de escritores, livros, pequenos poemas que você possa vir a recitar eventualmente, isso pode fazer muita diferença em algumas ocasiões. Por exemplo, você de repente vai a um evento e cai em uma rodinha onde todos tem aspecto de intelectual (olham para você como se quisessem mostrar o que eles tem lá no fundo da narina) esses são os intelectuais estereotipados, os verdadeiros não estarão nesta rodinha, você vai encontrá-los vestidos de jeans e tênis all-star e provavelmente fumando e bebendo. Mas vamos lá, você está na rodinha dos pseudos e diz:”- D. Quixote não seria ninguém sem o Sancho Pança”, D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes é o livro mais traduzido e publicado depois da bíblia sagrada. Possui 1.500 páginas e ninguém lê, mas todos dizem que sim.

Outro livro que você deve saber o nome é Guerra e Paz de Leon Tolstói, russo. Uma lenda urbana afirma que o sentido real do título do livro seria A Guerra e o Mundo, não nos interessa saber o porquê, importante é fazer esse comentário. Você também pode decorar essa frase pequena dele  “os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas.

Voltando ao texto inicial transcrito de Odisséia. Odisseu padeceu como um coitado durante toda a narrativa, e quando estava finalmente voltando para casa, com os “ventinhos” dentro do saquinho de couro que o tal do Éolo deu a ele, para que seu navio tomasse o rumo certo, os marinheiros trapalhões abriram o saco voando todo o vento para fora, Odisseu estava dormindo e não viu nada. Isso me fez criar, agora, digamos, uma paródia épica: enquanto Odisseu dormia, seu saco voava na ventania (ic)!



Ricardo Mezavila

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Aparelho digestivo

Encontrei um antigo CD sobre um guia médico da família. Instalei o programa em meu notebook e fiquei ali, lendo e vendo as ilustrações, admirando a misteriosa obra divina. Tudo muito perfeito, uma fantástica engenharia que nos provém a vida.

Na introdução do guia aparece em vídeo, uma criança branquinha e sorridente, deve estar representando as famílias daqueles que conseguem pagar plano de saúde e fugir da humilhação de horas em filas nos hospitais públicos para não serem atendidos.

Achei interessante a parte que fala das crenças sobre o corpo humano.  Eu não sabia, mas até o século XVI, as crenças religiosas e outras restrições impediam a dissecação de cadáveres para estudar a constituição do corpo humano, o que fez surgir inúmeras idéias erradas sobre anatomia e fisiologia. Acreditava-se que as mulheres tinham menos dentes do que os homens, o que é uma verdade segundo a lei Maria da Penha; acreditava-se que o sangue passava de um lado do coração para outro através de pequenos buracos nas paredes centrais, hoje sabemos como são feitos esses buracos e quem os fazem; os antigos pensavam que o embrião era resultado da mistura do fluido seminal masculino com o sangue menstrual feminino, assim como o nosso molho rosê; pensavam também que o ouvido era a centro do desejo humano, não considero isso uma crença, tem pessoas que adoram fofoca e  acabam gozando pelos ouvidos.

Os esqueletos feminino e masculino diferem no peso dos ossos dos braços e pernas, no formato da pelve e no ângulo da articulação do cotovelo (?) , deve ser a parceria entre o sofrimento e o balcão do bar.

Continuando a viagem pelo corpo humano passei pelos órgãos reprodutores femininos, masculinos; circulação sistêmica, sistema nervoso e circulatório, sistema linfático, artérias, células, plaquetas e glândulas.

Chegando no aparelho digestivo senti como se tivesse descoberto o grande mistério da vida. O aparelho digestivo é composto do trato digestivo, um tubo que vai da boca ao ânus.

Parei nesse tubo.

De todos as engrenagens do corpo humano, da mais simples a mais complexa, nada é tão perfeito quanto essa ligação, principalmente quando há refluxo.

Ricardo Mezavila

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Envelhecendo para ser velho


Hoje, por conta dos inúmeros apelos que vemos e ouvimos durante todo o tempo, querendo ou não, submetendo-nos ou não, somos alvos das flechas publicitárias espalhadas nas ruas, nos transportes, por todas as mídias.

Definitivamente envelhecer não faz parte de nenhuma opção de vida, ironicamente, quando se trata de futuro.

Você tem que pensar no seu futuro, mas nunca imaginar que isso o encaminhará para a velhice. O futuro foi, é e sempre será tema literário em todas as formas de arte e nunca da propaganda, que coloca o presente dentro de uma geladeira para que fique jovem para sempre.

Viver é como acender um incenso, queimando aos poucos vai ocupando o ambiente com seu aroma, a fumaça flutuante vive o tempo de um vento e quando a brasa perde o vigor é exatamente quando o ar fica mais perfumado, os sonhos estão mais iluminados e as tensões relaxadas.

Envelhecer é parecido com o processo do incenso: de uma hora para outra, sim, a gente não percebe a fumaça no início, pois é o tempo que acende o fósforo, passamos a ocupar um lugar especial na vida de nossos familiares e amigos com nossa experiência; nossos conselhos flutuam nas palavras e quando a vida perde o vigor é quando ficamos mais iluminados e viramos fumaça.

A "ficha" caiu: Quem gosta de incenso é hindu, aquele camarada magro que sustenta a fé de que a vida física é ilusão; que adora vaca, rato, serpente; toma banho coletivo em um rio chamado Ganges, onde mulheres afogam filhos recém-nascidos como sacrifício e que faz de tudo para atingir o nirvana, ignorando o paraíso que é o led zeppelin.

Envelhecer é maravilhoso quando você está preparado para seguir com a vida em toda a sua amplitude. É aprender a usar a força que você tem com  a inteligência adquirida.       

O homem velho, como disse Caetano, é o rei dos animais.


Ricardo Mezavila

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Metamorfoseando


 Acordei outro dia com gosto de cerveja velha na boca. Parecia que o mundo tinha acabado e só eu era o sobrevivente, moribundo, mas vivo. Não havia outra explicação para tamanho silêncio e dor de cabeça. Deitado em minha cama parecia que eu era o próprio Gregor Samsa, personagem que me persegue desde que entrei na adolescência e comecei a sentir a responsabilidade avançar sobre meus dias, atropelando a inocência que existia nas ruas da zona norte do Rio.
D-u-l-c-i-d-i-o  W-a-n-d-e-r-l-e-y  B-o-s-c-h-i-l-i-a; sempre que desconfio de  que  perdi a consciência eu soletro alguns nomes para testar os reflexos, e um dos mais difíceis é desse antigo árbitro de futebol. Às vezes a coisa está mais complicada então eu falo em voz alta o alfabeto de trás para frente, mas ainda não acostumei com o K, W e Y no meio das letras.
         
Cao; Moreira; Leônidas; Zé Carlos; Valtencir; Carlos Roberto; Gerson; Rogério; Roberto; Jairzinho e Paulo César. Essa escalação de 1968 do Botafogo de Futebol e Regatas também está entre meus testes cognitivos.
  
You're asking me will my love grow,
I don't know, I don't know
           
Os Beatles sempre estão presentes em minhas terapias alternativas quando estou decidindo se vale, ou não a pena levantar da cama, abrir a janela e encarar a realidade. Fico distraído lembrando da estátua de Eleanor Rigby e imaginando o que ela poderia estar carregando naquela bolsa além de arroz; fico tentando entender quem é Jude da canção Hey Jude. É homem ou mulher ? Paul deixou uma pista de que seria para Julian, filho de Lennon, e que compôs quando este se separou de Cynthia, sua mãe. Eu sempre imaginei que fosse uma mulher, tanto que fiz um poema para minha filha Júlia inspirado na canção.
As horas iam passando e eu sentia que aquele estado Kafkaniano só terminaria quando eu finalmente  levantasse, olhasse o espelho e confirmasse que o  mundo ainda estava ali, apesar de todo o lixo acumulado debaixo do seu tapete. Ele ainda resistia apesar dos ataques das bandas infanto-juvenis e do estrelismo de alguns vovôs do rock Brasil. A terra realizava o movimento giratório ao redor do seu eixo normalmente no sentido anti-horário. Foi quando percebi que em meus pés havia grãos de areia da praia. O ano velho havia partido no dia anterior e diante de mim um ano novo sorria de braços abertos, mas com um chinelo na mão, como fazia minha mãe quando eu, moleque ainda, voltava da rua e ia direto dormir sem ter lavado os pés.

All you need is Love !
           

Ricardo Mezavila

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

As pessoas complicam muito as coisas

Recentemente encontrei um amigo que me confidenciou estar com a dentição amolecida, que por isso andava afastado dos amigos, pois estava desconfortável em mastigar um churrasco e outros quitutes mais sólidos. Andava desanimado e com a auto-estima baixa. Disse-me que havia marcado ir a uma clínica para orçar um implante, porém não compareceu conforme o combinado, ficara envergonhado e ao mesmo tempo receoso pelo alto custo do tratamento. Enquanto me contava seu drama, pude perceber que aos poucos ele ia ganhando confiança pela receptividade que eu transmitia, como bytes recebidos e enviados em uma conexão, ele ria de sua “desgraça” simplesmente porque foi capaz de revelá-la a alguém.
As pessoas complicam muito as coisas, mastigam saudades até o “caroço” e bebem o orgulho até a última gota. Dificultar um problema parece ser o caminho mais sem obstáculos para a sua resolução. Colocar a cabeça para fora do barco, avistar um punhado de terra e pisar em chão firme parece inatingível.
Como um verdadeiro protocolo TCP/IP eu era a conexão confiável que meu amigo precisava para navegar por seus conflitos internos e dar o primeiro passo para amenizá-los.
Às vezes precisamos encontrar alguém que nos permita usar seus ouvidos por uns minutos; usar seus olhos como espelhos por algumas frações de segundos.
É perguntando que desfazemos dúvidas e é fazendo que matamos a vontade.
Eu disse a ele: - imagine se você morre sem ter feito os implantes. Aí um filme de sua vida passa na sua frente e você se vê diante de uns poucos degraus que levam até a clínica. Você reluta em subi-los, por total insegurança, passa a sofrer por isso, isola-se do convívio social, deixa de viver preciosos momentos que nunca mais voltarão. Eu acho que você pediria uma nova chance e daria mais valor aos detalhes que podem transformar a sua vida. Como dizem por aí, o não você já tem, o sim é o risco.
Bem, você ainda está aqui, então vá lá, agora, e suba aqueles malditos degraus e venha sorrir e comer o churrasco que vamos preparar para celebrar a vida.


Ricardo Mezavila